Era 18h30 de uma quarta-feira e a maior sala da Abrata (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) já estava lotada. Todos os presentes ouviam com bastante atenção às informações repassadas pela executiva de vendas Andreia Marino, 46, uma das voluntárias da associação, sobre as atividades da entidade, voltadas para familiares, amigos e pacientes que sofrem com transtornos afetivos — doenças em que a característica fundamental é alteração do humor ou do afeto –, especificamente depressão e bipolaridade.

“Acho que essa vai ser a minha última tentativa, porque eu já não aguento mais. Tenho dois filhos e os dois acham que eu sou louca”, contou a professora de música Sueli Figueiredo Faria, 52, que sofre de depressão e foi ao grupo de acolhimento da Abrata na esperança de encontrar ajuda. Sueli está entre os 11,2 milhões de brasileiros que receberam diagnóstico positivo para depressão. Segundo dados da PNS (Pesquisa Nacional de Saúde) divulgados em dezembro de 2014, essas pessoas correspondem a 7,6% da população com 18 anos ou mais de idade.

Em âmbito mundial, a OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que 350 milhões de pessoas sofram da doença, considerada uma das principais causas de suicídio – a OMS afirma que cerca de um milhão de pessoas morrem por ano por suicídio -, a principal causa de incapacitações e um dos principais contribuintes para a carga global de doenças.

Naquela sala da Abrata, além de pacientes, havia pais e mães de pessoas que receberam diagnóstico positivo para transtornos afetivos, acompanhados ou não dos pacientes. Isso porque não é apenas o paciente que sofre com a doença. Quem está próximo à pessoa que tem depressão também é afetado pelo transtorno, afinal, lidar com alguém com depressão não é uma tarefa fácil e certas condutas podem, inclusive, agravar o quadro do paciente.

A diarista Fátima Xavier dos Reis, 50, contou que vive dividida entre a vontade de apoiar a filha que tem depressão e a de “dar uns tapas” nela. “Eu não sei como lidar. Não sei se a forço a sair do quarto ou se apoio a vontade dela. No geral, eu a deixo escolher, mas ela sempre tende a optar pelo não”, diz. A filha de Fátima, Bruna Cristina dos Santos, tem 20 anos, mas desde os 15 tem o diagnóstico de depressão. “Mas ela vem assim desde os 12 anos, desde que teve uma crise de pânico. É um sofrimento. Você não sabe o que é chegar em casa, em um dia de muito calor, e ver a sua filha deitada na cama, enrolada nas cobertas, no quarto todo escuro, sem querer falar com ninguém”, diz.

Segundo o médico psiquiatra e conselheiro da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), Sérgio Tamai, quem lida com esses pacientes sofre com o sofrimento dele, mas, muitas vezes não têm a consciência de que se trata de uma doença e não se dão conta de que o paciente não tem o controle de melhorar por conta própria. “Ouvir um ‘você não quer melhorar?’ deixa a pessoa que sofre de depressão muito pior, porque ela se sente ainda mais pressionada”, afirma.

O desafio no trato com quem sofre da doença é encontrar o equilíbrio, ou seja, insistir sem pressionar. “É preciso encontrar um meio termo. Não pode largar a pessoa a sua sorte, mas também não pode pressionar. A dica é lidar sempre pensando que a pessoa em questão não vive uma situação normal, ela está doente. Ninguém pede para quem está mal após uma sessão de quimioterapia para ir ao shopping, por exemplo”, diz o psicólogo e coordenador do Programa de Estresse da Beneficência Portuguesa de São Paulo, Armando Ribeiro.

O médico psiquiatra do Gruda (Programa de Transtornos Afetivos) do Instituto de Psiquiatria do HC-USP (Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo), Fernando Fernandes, explica que, no caso de amigos próximos, se mostrar sempre disponível é bom para o paciente. “Quem tem amigos acometidos por essa doença deve se perguntar se convém visitar a pessoa naquele momento. A depressão é uma doença médica como outras. Será que convém visitar um paciente que tem câncer, por exemplo. Convém, mas é preciso saber o momento adequado para isso. Caso contrário, o paciente pode se sentir angustiado com a visita”, diz.

Armando Ribeiro aconselha amigos de pacientes com depressão a se colocarem disponíveis para visitas e evitar convites para atividades em um ambiente externo. “É preciso evitar situações incômodas e acabar com discursos otimistas, porque a pessoa não está em um dia de mau humor, ela tem uma doença. Sair forçada pode gerar culpa, vergonha e efeitos colaterais importantes. Em vez disso, pode ser bom um convite para ouvir música juntos, dentro da casa, no local de conforto do paciente”, diz.

Veja os sintomas mais comuns em quem sofre de depressão:
  •  Sensação persistente de tristeza, angústia e/ou vazio;
  •  Desânimo e choro;
  •  Desesperança e pessimismo;
  •  Perda da capacidade de sentir prazer;
  •  Inquietação, ansiedade ou irritabilidade;
  •  Falta de sentido na vida;
  •  Insegurança, medos e indecisões;
  •  Baixa autoestima;
  •  Diminuição da libido;
  •  Perda ou aumento do apetite e peso;
  •  Insônia ou sonolência excessiva
  •  Dores crônicas ou sintomas físicos difusos e persistentes;
  •  Preocupação com doenças;
  •  Delírios e alucinações em casos graves;
  •  Pensamentos sobre morte ou suicídio;
  • Plano ou tentativa de suicídio.
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1 COMENTÁRIO

  1. Bom, sou portador de THB, já confirmado,como moro fora da capital (São Paulo), é pelo excesso de gastos desnecessário que depois nós damos conta, procurei ajuda na própria Abrata que me mandou e-mail para HC se não me engano diretamente para psiquiatria que testa os pacientes com o transtorno, na resposta que obtive é que a fila de espera é de pelo menos 3 meses, e psiquiatra na minha cidade é 4 meses. Será que uma pessoa com THB sem medicação e sem ajuda aguenta esse tempo?

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