Lembro-me das inúmeras vezes, ao longo da minha infância, em que me perguntavam “Quantos irmãos você tem?” e eu respondia na hora, toda contente “Dois: o Pajé e a Nina”. Muito bem. A conversa seguia até que, em algum momento, emergia o fato de que meus irmãos eram filhos do primeiro casamento da minha mãe, apesar de vivermos todos juntos desde que nasci. Pronto. Surgia a frase que entrava como estaca no meu coração:

“ah, então eles são seus MEIOS-irmãos”

Como me doía essa frase! Como eu não gostava de ouvir aquilo! Mas não havia forma de fugir daquela verdade. Era aquilo mesmo, meus pais já haviam me explicado, sempre frisando que isso não fazia diferença nenhuma para nossa família. Nós éramos irmãos como outros quaisquer, o que importava era o que a gente sentia.

Mas na minha cabeça, as perguntas ainda martelavam. Se não faz diferença, por que as pessoas insistem em dizer isso? Será que meus irmãos, entre eles, eram mais irmãos do que eu? Será que dizer que eu tinha dois irmãos era uma mentira? Que, na verdade, eu tinha só duas metades de irmãos?  Meu coração estava certo de que eles eram meus irmãos- pura e simplesmente-, mas as pessoas rebatiam que não era bem assim.

Quantas outras crianças já sentiram o mesmo? Num mundo de famílias cada vez mais plurais, de composições diversas, quantas crianças ainda terão que questionar as condições de seus afetos? Precisamos mesmo classificar verbalmente as relações familiares alheias em conversas corriqueiras?

Durante muito tempo isso foi uma pedra no sapato. Mas os anos passaram. E hoje as poeiras de dúvida e os incômodos foram embora sem deixar nenhum tipo de rastro.

Tenho irmãos: irmãos tão irmãos ou mais irmãos que qualquer outro irmão do mundo. Meus pais tinham razão, isso não faz diferença nenhuma, o que vale é o que construímos todo santo dia, as brigas por causa de comida, as brincadeiras no quintal, as noites dormidas no mesmo quarto com medo dos mesmos barulhos. Crescer junto, viver junto, chorar junto.

O que vale é a sensação de incondicionalidade. Porque ser irmão é basicamente isso. É não haver condição para que aquela relação seja segura e permanente, é poder ter raiva, criticar e amar na mesma medida, sem medo de mágoas ou de meias palavras.

O que vale é ter a certeza de nunca estar sozinho no mundo. A certeza de que você tem alguém que conhece sua história toda, seus trajetos, suas vitórias, suas inseguranças. O que mais importa é essa certeza de que eles estão sempre lá, e sempre estarão.

Hoje, quando chego na parte da história em que explico que não somos filhos do mesmo pai e da mesma mãe, não tenho mais medo. Pelo contrário, tenho orgulho de dizer que, em que pese o mundo, a lei e os vizinhos nos chamarem de meios-irmãos, nós somos irmãos inteiros, somos irmãos de afeto, de raiz e de alma.

Chamam-nos meios-irmãos porque só há metade do sangue compartilhado? Não tem problema. Poderia não haver sangue nenhum em comum. Nós nunca precisamos disso. Somos irmãos por razões muito maiores.

(Autora: Ruth Manus)

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