“A Bruxa” ou “The Witch” na versão original é uma produção cinematográfica de estilo suspense e terror. Produzida em 2015, dirigida e roteirizada por Robert Eggers, traz uma história que se passa na Inglaterra no ano de 1630 e tem como trama principal o jogo da perversidade entre o poder demoníaco e a figura da bruxa.

O filme narra história de uma família ao ser expulsa de sua comunidade por expressar uma profissão de fé muito rígida, trazendo dificuldade para o convívio em sociedade. A trama se inicia neste momento quando são obrigados a viver em um local isolado. A nova morada é próxima de uma floresta controlada por bruxas, o que rapidamente provoca reações e mudanças na rotina desta família, até então regida unicamente por uma rígida e dogmática crença cristã.

O filme tem como enfoque a produção de terror, entretanto pode ser analisado enquanto correspondente histórico, trazendo uma válida discussão sobre a sexualidade feminina. As bruxas, enquanto simbolismo popular é correspondente à alegoria do mau, perverso, feio, com poderes provindo de pacto com o maligno. Entretanto enquanto significante histórico, são adventistas da Idade média em um momento em que representavam mulheres com disposição a ofícios diferentes do doméstico, que obtinham certo conhecimento de plantas medicinais, ocupavam a posição social de curandeiras e desfrutavam da sexualidade, algo destoante enquanto comportamento adequado para a época.

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O filme “A Bruxa” apresenta e faz relação em vários momentos a tais características, principalmente ao erótico, uma referência que não está presente por acaso. Essas mulheres utilizavam o conhecimento popular para a obtenção do prazer sexual. Um exemplo clássico é a origem da vassoura como acessório, entretanto não para os afazeres domésticos. As bruxas elaboravam trouxinhas com plantas alucinógenas que ao contato vaginal traziam a sensação de leveza e prazer, assim como relata Rubem Alves (2014). As vassourinhas ou trouxinhas traziam asas e provocavam voos, viagens alucinógenas. Aspecto abordado no filme em suas últimas cenas, no momento do encontro do clã de bruxas, irmãs agrupadas por uma história certamente de semelhança.

Tais comportamentos distinguiam das representações postulada para a feminilidade, e por não se enquadrar aos convencionalismos construídos socialmente as bruxas foram excluídas do convívio e levadas ao patamar de ameaça e símbolo satânico.

A aquisição de tal correspondência nasce de um momento em que a sexualidade humana era fortemente reprimida por obter relação direta com o pecado cometido através de Eva, talvez a primeira bruxa na história da humanidade. Era necessário o controle dos impulsos sexuais libidinosos, caso contrário, a humanidade teria responsabilidade pela degradação da vontade de Deus, sendo impiedosamente castigada. No contexto do cristianismo primitivo, a sexualidade, assim como todo desencadeante sexual era imediatamente relacionada ao mal e ao pecado.

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O filme, de um modo geral é muito rico em representações simbólicas. Neste cenário, de uma família apartada das relações sociais e atormentada pelas questões de sua própria humanidade como desejos e medos, estava praticamente fadada ao fracasso de um processo subjetivo saudável. A bruxaria seria algo como um bode expiatório dos maus pensamentos de toda uma sociedade.

Para tanto, um dos fatores principais para o desfecho da trama é a sexualidade que emanava da jovem irmã mais velha. Algo que perturbava sexualmente não só o irmão, mas era principalmente ameaçador à mãe. Em uma relação familiar desorganizada e incestuosa, os desejos inconscientes e edípicos comuns ao desenvolvimento psicossexual, tais como postulados por Freud, não obtinham espaço para uma resolução saudável, mas enveredaram a um enredo em que uma só mulher sairia vencedora ao desfrute da vida.

O filme cresce pontuando elementos de uma permanente impropriedade libidinosa, impossibilitada ao desenvolvimento saudável, incitante de paixão e loucura. Neste contexto, vivenciar a psicossexualidade era de tamanho crime que só poderia ser assumida após o rompimento total com o divino, com a família e com os costumes. Um caminho em que a sanidade não era uma possibilidade: um caminho para bruxas.

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Tal discussão sobre a sexualidade é especialmente válida por se apresentar como recente no contexto histórico contemporâneo, em um momento em que o puritanismo arcaico parece querer retornar. A caça as bruxas, se for analisada pelo prisma da sexualidade humana, não mais acontece nas fogueiras, mas muitas vezes é institucionalizada socialmente e continua intimando um comportamento a partir de um correspondente arcaico-histórico, contextualizado nas relações de gênero, dificultando o desenvolvimento saudável da sexualidade de um modo geral.

(*) Este texto foi elaborado a partir de sua publicação originalmente pela Revista de Psicanálise Leitura Flutuante. Disponível na íntegra em http://revistas.pucsp.br/index.php/leituraflutuante/article/view/28521/20121)

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João Paulo Zerbinati
Psicólogo Clínico de Orientação Psicanalítica, atendendo em Itápolis-SP. Graduado pela PUC-Campinas. Mestrando pela Faculdade de Ciências e Letras, UNESP-Araraquara. Membro do grupo de pesquisa SexualidadeVida USP\CNPq. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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