Nesta semana conversei com uma mãe e sua filha. A mãe queria saber detalhes de como proceder quando a filha, uma jovem de 16 anos, precisasse se afastar das atividades escolares por causa de sua gravidez. A garota estava junto com a mãe e o que “li” na expressão corporal dela me tocou o coração.

Pensei numa colega de trabalho, também em final de gestação e a comparação entre as “falas” dos corpos, foi instantânea e inevitável! O corpo da jovem grávida falava, ou melhor, gritava, um misto de vergonha e incômodo; a linguagem corporal de minha colega de trabalho, mais madura, adulta, expressa orgulho e alegria.

Num determinado momento a garota saiu da sala para tomar água e a mãe ficou sozinha comigo e começou a contar o choque e a tristeza que sentiu quando a filha apareceu grávida. A família não é rica, nem tampouco pobre. A garota sempre teve de tudo, os pais sempre a pouparam de ter responsabilidades, os dois sempre trabalharam muito para dar a ela o melhor. A gravidez da filha fez ruir um casamento cheio de problemas. O pai não deu conta da situação e foi morar na casa de uma irmã, até se resolver na vida. Sobrou para a mãe engolir a decepção e segurar a barra… dela e da filha grávida cujo namoradinho “sumiu”.

Esta mãe estava arrasada e sentia-se traída e culpada. Contou que nunca teve coragem de falar de sexo com a filha e se arrepende por isso. Talvez se a menina estivesse mais informada, e a gravidez não acontecesse. Desanimada a mãe dizia que apesar de tudo o que fez para a filha não sofrer, ela estava sofrendo e agora ia crescer na marra. Fiquei com vontade de colocar as duas no meu colo.

Procurei conversar com a mãe, dar-lhe ânimo, “encher sua bola”, fazê-la enxergar a benção que é uma criança em nossa vida. A confiança que Deus tem nelas para entregar-lhes um dos filhos queridos, para ser amado e educado por elas. Digo elas porque a jovem sozinha não terá estrutura emocional ou qualquer outra que seja, para ser mãe… ainda não!

Vivenciar esta situação me fez pensar nas muitas adolescentes grávidas que há neste mundão de Deus. Pesquisas recentes do IBGE apontam que, no Brasil, nos últimos dois anos, o número de filhos de adolescentes na faixa etária dos 15 e 19 anos, quase que dobrou, subindo de 4,5 mil para mais de 8 mil bebês.

A pesquisa revela que o início da vida sexual dos jovens ocorre por volta dos 15 anos.

Vemos aqui uma moeda e seus dois lados. Sexo é a moeda, os dois lados são o prazer e o “perigo”. E a melhor forma de lidar com eles é com conhecimento.

Sexo é algo natural na raça humana. Somos seres sexuais por natureza. Freud causou o maior rebuliço quando mostrou ao mundo a sexualidade infantil. Todas as nossas fases de desenvolvimento giram em torno da obtenção do prazer e como passamos por elas determinam características importantes e significativas de nossa personalidade. Inicialmente o prazer é oral, depois evolui para o anal, depois para o fálico e na adolescência o primado da sexualidade se estabelece.

Sexo é bom, é prazer e o adolescente busca viver emoções prazerosas e de autoafirmação. A preocupação com segurança e valores morais sucumbe aos estímulos e sensações corporais vividos na descoberta da sexualidade. 100% EMOÇÃO!


Mas o fogo se apaga e com a extinção dele, veem as preocupações de ordem psíquica e emocional e muitas vezes junto com elas a constatação de uma gravidez ou de uma DST – Doença Sexualmente Transmissível.

A sexualidade na adolescência é uma experiência solitária, em especial as meninas. A maioria das pesquisas sobre sexualidade na adolescência revela que os pais raramente são consultados quando o assunto é sexo. A internet é o guia da sexualidade da maioria dos adolescentes hoje. E nela encontramos de tudo… de bom e de ruim!

Esta falta de diálogo entre pais e filhos é muito prejudicial para o adolescente. Estudos apontam que o número de adolescentes grávidas que têm abertura para falar de sexo com os pais é bem menor quando comparado com aquela que não possuem em casa espaço para o diálogo sobre sexo.

Oh, hipocrisia paterna/materna! Parece que alguns se esqueceram como eram inconsequentes e fogosos quando jovens! Fingir que os filhos não cresceram é tolice. BUR-RI-CE!

O diálogo em casa pode significar a diferença entre uma sexualidade vivida com segurança e uma sexualidade escondida, cheia de riscos.


Muitos pais não se sentem a vontade de falar com os filhos sobre sexo. Mas isso não é motivo para não fazê-lo. Vença suas resistências por amor! Ouça as dúvidas e se não conseguir responder, procure ajuda em bons livros, busque um médico e leve seu “rebento” para que ele possa perguntar, aprender e se preparar para viver uma sexualidade plena e segura.

Estabelecer o diálogo respeitoso, conhecer as opiniões de seu adolescente, conversar com ele apontando as responsabilidades que a vida sexual traz é fundamental. Incentive o uso de métodos contraceptivos, o uso da camisinha. Fale sobre toda responsabilidade que a maternidade/paternidade carrega. Mostre todos os sonhos que precisam ser mudados quando uma gravidez (indesejada) acontece. Você não precisa incentivar o início precoce de uma vida sexual, mas também é bobeira pensar que só os filhos dos outros “aprontam”!

Acima de tudo seja presente na vida de seus filhos. Seja amigo… mas não deixe de agir como pai/mãe. Afinal nas letrinhas miúdas do contrato de “ter” filhos o prazo de validade da paternidade/maternidade não tem data para acabar!

(Claudia Pedrozo, trabalha na Educação Pública de São Paulo há 26 anos.

Já foi professora, coordenadora pedagógica, diretora de escola e atualmente está na Supervisão de Ensino.

É Pedagoga de formação, pós graduada em Gestão Escolar pela Unicamp, em Psicopedagogia e psicanalista)

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Claudia Pedrozo
Professora, coordenadora pedagógica, diretora de escola e atualmente está na Supervisão de Ensino do Estado de SP. Pedagoga de formação, pós graduada em Gestão Escolar pela Unicamp, em Psicopedagogia pelo CEUNSP e formada Psicanálise Clinica. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



1 COMENTÁRIO

  1. Bom eu engravidei muito cedo aos 15 anos, e sofri algo bem parecido, hj tenho 26 anos e uma filha de 9 e vejo o quão e difícil educar, bom ela já me perguntou sobre sexo, e vejo que essa geração e cheia de questões, quis falar de uma maneira mais lúdica. E ela prontamente me deu a versão do que seria sexo, e fiquei de boca aberta pois ela tinha noção, e que não existe sementinha e muito menos cegonha, fiquei envergonhada e consertei o que tinha acabado de contar, esclarecendo as informações que ela já tinha. Creio que o problema maior e saber o que falar ou a forma de falar, e voltando o texto, tive experiências com outras meninas que engravidara cedo, já que eu era agente comunitária, e via muito isso, uma vontade imensa de abracar e dar colo, e vejo que precisamos sim sermos pais mais abertos as perguntas sm crucificarr tentar entender que e outra geração.mais e bem difícil.

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