“A árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis. A vida é maior que a soma de seus momentos” – Zygmunt Bauman –

Eu republiquei um texto que havia escrito em 2015 para ajudar as pessoas em processo de luto a passarem pelas festividades do final de ano com mais leveza.

O texto foi compartilhado e lido por milhares de pessoas e, por conta disso, eu recebi dezenas de e-mails e mensagens de pessoas que gentilmente dividiram comigo suas histórias e, consequentemente, suas dores e fragilidades. Histórias estas que muito me comoveram, como a de uma mãe que há 1 mês perdera sua filha aos 20 anos.

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Conforme eu ia lendo as mensagens e respondendo com orientações e dicas de leitura, para auxiliar na compreensão desse momento de extrema fragilidade, eu voltei no tempo e comecei a revisitar as minhas próprias memórias.

Olhar e cuidar da dor do outro me permitiu refletir sobre a vida e sua continuidade, apesar das perdas e dos lutos vivenciados ao longo de minha existência.

O ano era 1990. Num fatídico dia do mês de agosto o coração de minha mãe resolveu parar e, assim, ela parou de viver dois dias após completar 66 anos.

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Lembro-me perfeitamente do momento exato em que a médica chamou a mim e meu irmão e nos informou sobre a morte. Ela o fez de forma muito gentil e delicada. Mas neste momento, por mais gentilmente que a notícia possa nos ser dada, a dor é cortante e temos a sensação de que as palavras que anunciam a morte são bolas de chumbo arremessadas contra nossos tímpanos.

Há uma confusão de emoções e sentimentos e/ou isolamento quando uma mãe morre. Naquele instante eu iniciava mais uma jornada pela dolorosa experiência de estar enlutada por alguém que eu amava e que me amava.

Exatos quatro meses após a morte de mamãe chegou o Natal, data tão aguardada pelas crianças da família. Todos nós sabíamos, inclusive as crianças, que aquele Natal seria muito diferente de todos os outros, afinal a matriarca dos de Paula não mais estaria lá fisicamente.

Perder um ente querido deixa tudo muito diferente. Mas a vida pode ser e é, na maioria das vezes, surpreendente. No início de dezembro fomos agraciados com um belo presente, minha amada sobrinha Milena nasceu. O nascimento daquela menininha linda fora como um bálsamo, que nos permitiu sentir uma certa leveza novamente.

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Ao olhar para ela eu tive a constatação de que vida e morte caminham juntas, quer queiramos quer não, e ambas nos trazem grandes aprendizados. Mas, precisamos estar receptivos a estes ensinamentos.

Um dos mais preciosos ensinamentos que aprendi fora que o amor – amor incondicional, não conhece fronteiras; ele nunca será perdido, independentemente da distância e/ou tempo.

Seguindo a tradição, no dia de Natal nos reunimos. Minha irmã preparou um delicioso almoço. Havia um misto de tristeza com saudade, mas também havia a alegria que emanava do sorriso ingênuo das crianças. Aliás, que poder mágico tem o sorriso de uma criança para curar as dores da alma.

A cada ano a tristeza cedia lugar à saudade e, como escreveu Adélia Prado, “o que a memória amou, fica eterno”. Como a memória é imperecível, aquela senhora que eu tive a honra de ter como mãe viverá eternamente por meio da nossa memória. A vida seguiu seu curso e, assim, se passaram vinte e seis anos. A família ganhou novos membros e, hoje, são os filhos dos meus sobrinhos que me propiciam um novo encantamento pelo viver.

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Com delicadeza – esta é a palavra-chave quando tocamos a alma de um enlutado – tentei sinalizar a cada pessoa que me escrevera que as festividades de final de ano podem remeter uma pessoa enlutada a um estado de profunda dor, mas tendo paciência para com seus sentimentos e vivenciando um dia de cada vez, esta pessoa um dia “morreria” para a condição de “ser só dor” e renasceria para a condição de “ser com a dor”.

No momento em que a pessoa consegue ressignificar o propósito de sua vida, ela pode novamente se encantar pelo viver. Claro, será um viver diferente, mas esta nova maneira de viver pode ser repleta de sentido, se ela permitir que o vazio deixado pelo ente querido seja preenchido com novos afetos, novos vínculos, novos olhares e perspectivas.

Afinal, assim como um rio, a vida continua a seguir seu curso perenemente…

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Nazaré Jacobucci
Psicóloga Especialista em Psicologia Hospitalar e Luto, Member of British Psychological Society. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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