O primeiro alimento ao qual todo pequenino ser humano é apresentado, na maioria das vezes, é o leite materno.

O leite, com seus nutrientes, sacia a fome dos primeiros tempos de vida, e na medida em que esta necessidade básica é saciada, a sensação do pequenino associa-se ao prazer. Um prazer que tem a ver com a ordem orgânica.

Mas, há que se considerar que é também pelas mamadas do bebê que ele desfruta de um outro tipo de prazer, e que este tem relação com o afeto, o carinho, a atenção que a mãe dispõe para sua cria. Nesse sentido, pode-se considerar que há sempre em jogo dois tipos de fome: a da ordem biológica e a da ordem emocional.

Se o bebê mamou há poucos instantes e em seguida chora, é possível que a mãe lhe oferece o peito ou a mamadeira novamente. Seguindo isso, ela estará inscrevendo marcas dentro do incipiente aparelho psíquico da criança de que sempre quando chorar é porque está com fome. Sobre isso, Sílvia Bleichmar (1994), psicanalista argentina, em seu livro A Fundação do Inconsciente, refere:

‘Do lado da mãe, ante o desprazer do bebê, qualificado como “fome”, organizar-se-á um circuito de alimentação-frustração com a constante sensação de um fracasso de entendimento materno a respeito das necessidades do incipiente sujeito.

A voracidade então será um efeito, não um a priori – como certos desenvolvimentos pós-freudianos pareceriam propiciar -, e esta voracidade é a que veremos reaparecer, logo, como “ponto de fixação”, quer dizer, como excesso de investimento que insiste, de um modo não ligado, nas patologias mais severas não apenas da infância, mas também da idade adulta. (p. 33)

O circuito ao qual a autora se refere tem que ver com o fato de a mãe entender que sempre quando o filho chora é porque está com fome, o que deixará registros psíquicos fixados na questão da alimentação. Quando este bebê tornar-se adulto, há uma grande possibilidade de que vá buscar sempre na alimentação uma via de satisfação, pois que foi esta a forma como aprendeu a descarregar seu desprazer/frustração.

Mas, em contrapartida, se a mãe possui a capacidade de perceber o choro por uma outra via: quem sabe a fralda esteja suja, ou o pequeno esteja com frio, chora porque ouviu barulhos que ainda lhe são estranhos, ou está se sentindo desprotegido/desamparado – via esta que está associada ao narcisismo transvazante da mãe, ela inscreverá marca diferentes das que uma mãe que entende o choro sempre como fome.

Esta capacidade da mãe em poder propor sentidos diferentes aos sinais de desconforto de seu bebê é o que marca a diferença para o destino do sujeito em questão. Tal diferença está entre a fome orgânica, que faz a barriga roncar, e a fome de amor, que dá a sensação de que o coração está vazio.

Na medida em que a mãe propôs, na maior parte das vezes, o peito para acalmar o filho, ela inscreveu marcas de satisfação de uma única ordem, ao passo que outra mãe, com uma capacidade de transvazar o seu amor para o filho, considerando-o diferente de si, com necessidade diferentes das dela, ofertou ao filho outras vias colaterais de ligação para o desconforto, ampliou a capacidade do filho de associar também seus sentimentos e sensações com outras questões além das da alimentação de nutrientes.

Pensa-se, por fim, que o perigo está em pensar apenas em saciar a fome orgânica do bebê, fechando assim os olhos para o que se passa pelo coração.




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