“Carnaval era meu, meu. No entanto, na realidade, eu dele pouco participava”, Clarice Lispector.

Qual o significado do carnaval? Carnavalizar é um estado de desordem, de subversão. Ao passarmos onze meses seguindo as regras do jogo social, o carnaval apresenta-se como uma espécie de libertação. Podemos ser aquilo que queremos. Entrar numa nova realidade.

Os problemas e dificuldades rotineiros do real podem esperar fevereiro passar, como o último carro alegórico, na avenida da vida.

No fim de semana de carnaval é permitido fantasiar. Falar mais alto. “A fantasia é um conceito desenvolvido por Freud. Ela é o substituto do que é o brincar para a criança, sendo que enquanto a criança exibe seu brinquedo, o adulto inibe suas fantasias”, segundo artigo publicado no rgpsicanalise.

Com o passar do tempo, na vida adulta, assumimos certos compromissos. Construímos uma identidade e tememos o olhar do outro. Somos cobrados o tempo todo. Mas no carnaval… A coisa muda de figura. Podemos liberar nossos mais profundos e secretos desejos.

A melhor síntese, sobre o carnaval, que encontrei foi na dissertação publicada por Raquel Gomes da Silva e Roberta Santos Gondim, sobre “O Carnaval e suas fantasias”: “(…) O carnaval provoca uma quebra na ordem social e permite inversão de papéis e valores: pobre vira rei e rainha, homem vira mulher e mulher vira homem, adultos pedem chupeta enquanto crianças se transformam em super-heróis, enfim, o carnaval é representado pela mistura de cores, classes sociais, diversão e cultura. O importante é que tudo é “permitido”.

Para as psicanalistas, a fantasia atrai o olhar do outro, faz chamar atenção. Há tanto prazer e felicidade em desfrutar deste momento que desejo e realidade se misturam por isso, o inconsciente pode fluir sem ultrapassar os limites da sociedade e de nossas cobranças pessoais.

O texto diz que as fantasias carnavalescas expõem o que muitas vezes ocultamos durante a nossa vida. As máscaras tomam o lugar das nossas dissimulações sociais, pois com os adereços nos disfarçamos ou nos revelamos, podendo brincar sem medos, independente de sermos lembrados no dia seguinte.

Mas, cuidado com os exageros. Diz o senso-comum que o superego é solúvel em álcool e ao renascermos das cinzas voltaremos a sambar ao som da batucada das angústias do cotidiano. Até fevereiro, é claro!

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Roney Moraes
Psicanalista; Especialista em Saúde Mental e Dependência Química; Mestre em Filosofia da Religião; Doutor em Psicologia (Dr.h.c); Doutorando em Psicanálise (Phd); Analista Didata da Escola Freudiana de Vitória (Acap); Ex-presidente e membro da Associação Psicanalítica do Estado do Espírito Santo (Apees); Coordenador do Centro Reviver de Estudos e Pesquisas sobre Álcool e outras Drogas (Crepad); Membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). É colunista do site Fãs da Psicanálise.



1 COMENTÁRIO

  1. Gostei de como foi exposto, assim invertemos papeis, nossas mascaras aparecem. Algumas pessoas são oprimidas e esperam este momento para se sentir realizadas, mas creio que não só no carnaval, mas em outros momentos mostramos nossas mascaras ocultas, exitem vários outros momentos oportunos. E na verdade deveríamos nos mostrar mais no cotidiano sem medo, apesar das “regras” que vivemos ou tais ditas correntes sociais.

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