Ontem conversando com uma conhecida ela contou sobre a loucura que está sendo para ela a questão dos vestibulares que a filha prestará neste final de ano. Conheço estes bem estes sintomas, são da TPVP: Tensão Pré Vestibular dos Pais!

Esta conhecida é uma mulher super bem resolvida, equilibrada e que entende os conflitos humanos. É psicanalista. Mas ao mesmo tempo é mãe! Sabe aquele ser dotado de complexidades, estranhezas, certezas permeadas por dúvidas, desejos, inseguranças e medos pelas incertezas do futuro dos empréstimos de Deus, aqueles seres que costumamos chamar de filhos? Pois é, eisminha conhecida.

Como mãe ela quer o melhor para a filha, quer que a menina se dê bem, que seja feliz. Como adulta, mulher racional, ela entende que a filha tem capacidade para dar certo e ter um futuro profissional e pessoal de sucesso. Acredita que a vida é inspiração, mas é também suor, esforço, investimento. E parte do problema começa justamente aí.

A filha está tranquila, meio que “deitada em berço esplêndido”, sem muita neura para estudar. Fazendo tudo no seu ritmo, curtindo a vida, acordando tarde e no meio disso tudo, estudando, se preparando para o desafio do vestibular, o desafio de, aos 17 anos, ter que escolher o que fará de seu futuro!

Minha conhecida entende a pressão que esta decisão traz para uma pessoa tão jovem. Ela mesma decidiu há pouco tempo o que a faz feliz profissionalmente. Mas…

Mãe que é mãe é desfocada por natureza. Somo seres emocionais. Por mais racionais que sejamos a maternidade nos amolece, nos faz tirar os pés do chão. Claro que cada mulher é um ser humano único, então isso não acontece com intensidade igual para todas nós, algumas são mais desfocadas que outras! Porém todas as mães que conheço são ansiosas e angustiadas em maior ou menor grau quando o assunto chama-se “filho”.

Na Psicanálise entendemos a angústia e a ansiedade como momentos psicológicos deslocados do presente. A angústia relaciona-se a algo desagradável, que já aconteceu ou pode vir a acontecer, sendo uma reação emocional que decorre das nossas inseguranças e frustrações,  intimamente relacionada à baixa autoestima. A ansiedade por sua vez está ligada ao agradável, a expectativas que temos diante de necessidades não satisfeitas ou decorrentes de vivências de satisfação agradáveis do passado e que desejamos reviver (saudade é o nome poético desta reação emocional!); relaciona-se a estados de autoestima mais elevada. Angústia e ansiedade são sentimentos que se vividos na intensidade certa não causam problemas mais sérios, porém se vividos de forma crônica (sempre e sempre!), causam muito sofrimento emocional aos envolvidos na situação.

Outra parte do problema está na preocupação que minha conhecida tem, e que muitos pais não têm, de saber o limite entre sua preocupação, a invasão exacerbada na vida da filha e os deslocamentos que podem estar interferindo nesse momento.

Vamos tentar entender por partes, embora estas coisas todas estejam super emboladas!

Qual o limite entre preocupação e invasão? É muito tênue! Estar preocupado revela uma ansiedade de futuro grande, ficamos fazendo conjecturas, imaginando tudo que pode dar errado, pensamos que o tempo está passando e que devemos plantar agora para colher depois. Neste caso, a mãe preocupa-se que a filha esteja perdendo um tempo valioso agora, que fará falta ali no frente!

Pais mais desavisados, menos empáticos, transformam a preocupação em invasão. Infernizam a vida dos filhos com cobranças, aumentando ainda mais a pressão do momento.

Muita calma nessa hora, gente boa!

Estes sentimentos fazem parte de um processo natural, mas se você estiver passando por isso de forma exagerada, pise no freio, pois aí pode entrar em cena a Transferência por Deslocamento, que é um mecanismo de defesa ligado à permissividade do ego em relação aos impulsos do id, ou seja, nós o usamos quando aceitamos os impulsos oriundos do inconsciente (nossos recalques!), em termos práticos o deslocamento acontece quando substituímos o principal objeto de satisfação por outro novo objeto. Este processo é inconsciente. Nesta conversa, o deslocamento pode traduzir desejos recalcados dos pais se atualizando sobre os filhos. Na verdade os pais gostariam de viver ou reviver esta fase de suas vidas, refazendo escolhas, revivendo emoções positivas e agradáveis daqueles tempos, evitando erros e situações desagradáveis, entre outras coisinhas.

Se você está vivenciando a TPVP busque entender o que está se passando com você, o motivo que está te fazendo sentir esta fase de modo emocionalmente descontrolado e tente ser mais racional consigo mesma(o), entendendo que seu/sua filho(a) é um ser diferente de você, com direito a escolhas e sofrimentos próprios. Eles precisam de apoio e não de pressão desmedida!

Vestibulares em nossa sociedade significam ritos de passagem para a vida adulta. Trazem consigo inseguranças e medos diante da grandeza do futuro que desponta. Carregam um turbilhão de emoções para os jovens e seus pais. É uma fase que deve ser vivida com a intensidade correta para não se transformar num pesadelo. Acreditem… é um tempo lindo e doloroso, gostoso e trabalhoso. Mas há vida e vida com qualidade após ele, pois novos desafios, descobertas e aprendizados se colocam. Mas esta é uma outra história!

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Claudia Pedrozo
Professora, coordenadora pedagógica, diretora de escola e atualmente está na Supervisão de Ensino do Estado de SP. Pedagoga de formação, pós graduada em Gestão Escolar pela Unicamp, em Psicopedagogia pelo CEUNSP e formada Psicanálise Clinica. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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