Pergunta típica em entrevista de emprego, acredito que transparência seja a minha maior qualidade (há quem acredite ser outra). Numa sociedade que costuma se utilizar de diversas máscaras, poucos são os que tem maturidade psicológica e emocional para se mostrar de verdade, em todos os âmbitos: profissional, pessoal, familiar ou simplesmente social.

Apesar da transparência ser realmente uma qualidade, me parece que a mesma, muitas vezes, pode ser um problema, para pessoas que não tem estrutura para lidar com a verdade nua e crua. Por vezes é mais fácil se esconder por trás do que se acredita ser melhor, do que uma realidade que se difere daquilo que se deseja ou se imagina.

Recentemente fui aconselhada por uma pessoa muito inteligente e competente a não ser tão transparente. Para a minha surpresa, percebi que mesmo aqueles que estão num nível elevado de conhecimento e posição, podem ter dificuldade para lidar com a tal da transparência. Isso porque lidar com a verdade em todos os níveis exige mais do que inteligência e conhecimento, exige controle e maturidade das emoções, do saber lidar com o que se sente, em relação a qualquer verdade que seja.

Pouco tempo depois, percebi alguém com alta inteligência emocional também com dificuldades de lidar com uma situação de maneira transparente. Nesse caso, faltou maturidade e conhecimento de si mesmo. E é impressionante como a ideia que se tem de alguém pode mudar radicalmente, quando vemos a mesma precisando se utilizar de máscaras.

Mas isso não é sinal de fraqueza ou mentira no sentido mais puro, mas de falta de maturidade e força, para se lidar com o que temos de mais humano: o que sentimos. Na prática, é mais fácil fingir que não gosto muito de alguém, se este alguém afirma não me querer ou não gostar de mim. Ou se finge não ter desejado tanto algo, no fracasso de não ter alcançado o mesmo.

Vivemos uma sociedade em que ela mesma nos induz a fingir. A vida seria mais fácil se todos pudéssemos viver de maneira transparente, ao menos com o que somos com nós mesmos. Porém, quando a maioria ainda finge, transparência passa a ser vista com um olhar negativo e falta de aceitação.

Finja ser o que não é, finja ser forte, finja saber, faça de conta que está feliz, que não gosta deste ou daquele, que não precisa disso ou daquilo. Numa dança cheia de passos falsos, as pessoas podem até parecer fortes e bonitas, mas quando param de se movimentar, não se reconhecem como verdadeiramente são.

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Fica faltando o se olhar no espelho e a ausência do autoconhecimento se faz presente. Se desmerecendo então a chance da própria evolução.

Transparência deveria ser ensinada desde cedo e sempre, através dos exemplos que nos cercam, mas como isto não acontece a maior parte do tempo, a minoria que se revela desta forma, torna-se a parte da sociedade que incomoda, mas que ao mesmo tempo se sobressai, numa estranha forma de autenticidade. Que é ao mesmo tempo desejada, desconhecida e admirada.

Felizmente me reconheço deste lado e regozijo por dentro a coragem de ser quem eu sou, sem máscaras, ainda que incomode os que sentem os olhos arder ao me verem assim.

Brindo a coragem dos poucos, que como eu, são autênticos simplesmente sendo o que são. Mesmo quando julgados pelos que não fazem ideia, do que é a liberdade de ser o que se é.

(Autora: Carolina Vila Nova)

*Texto publicado com autorização da autora.

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