Muitas mães veem a possibilidade de trabalhar de casa como a grande alternativa para passar mais tempo perto dos filhos. E é.

Você tem a chance de tomar café junto com as crias, dar uma ajudinha na lição de casa, arrumar a lancheira e a mochila e ainda fazer um olho no olho com a professora diariamente para saber se está tudo bem com seu filho na escola.

De quebra ainda foge do trânsito e de rotinas opressoras que acham normal marcar uma reunião para a hora em que você precisa sair do trabalho ou a babá/escola/avós desistem de te ajudar. Em troca jura produtividade eterna porque não quer perder a chance de aliar duas coisas tão importantes na sua vida: família e trabalho.

Corta para a realidade.

Você até consegue fazer todas as coisas que planejou com seu filho, mas trabalha menos do que precisaria. Ou gostaria. Acorda cedo, antes dele, e vai para o computador de pijama/roupão. O cabelo raramente vê um pente, mais fácil lavar e já prender em um coque (esqueça aquelas fotos de mulheres lindas trabalhando em casa com uma xícara de café chiquérrima em uma mão e um laptop na outra). Quando consegue falar por telefone com aquela pessoa que tentava há dias, ouve imediatamente um “mãaaae, eu fiz cocô!”. E para que seu interlocutor não perceba que você costuma escrever sobre células tronco enquanto limpa bumbum de criança tenta em um ato heroico que seu filho compreenda que o indicador em cima dos lábios é a senha para que ele pare de gritar “cocooooooô!” Até uma certa idade ele não vai entender que você está trabalhando e nem o que isso significa. Para ele a mamãe está por perto e isso é bom demais. E é mesmo.

Como você “está em casa” sempre vai achar que entre um telefonema e outro pode colocar aquela roupinha para lavar, “não me custa”. Ou lavar aquela louça que não desaparece da pia. Pode até ser, mas… O que que eu tava fazendo antes mesmo?

Como você está em casa sempre será a eleita da família para ir ao banco/cartório/mercado. Sabemos que uma passadinha no banco/cartório/mercado pode levar facilmente duas horas e emendar com a saída da escola/banho/jantar.

Como você está em casa pode dar uma olhadinha sem culpa no Facebook. Sabemos que uma olhadinha no Facebook pode levar facilmente duas horas e… O que eu tava fazendo antes mesmo?

Como você está em casa, e não no escritório, quando a internet cai não há como ligar para o ramal x e pedir que resolvam seu problema. O problema é todo seu. Só seu, aliás. E por isso você perde quase uma hora entre o atendimento eletrônico e o “estamos transferindo” e “estaremos enviando um técnico”. O que eu estava fazendo mesmo? Nada. Porque fiquei sem internet, oras.

Para conseguir trabalhar em casa você acaba fazendo coisas que jurava de pés juntos que não faria. Como deixar seu filho passar um tempão em frente a tv ou do computador. O YouTube vira o melhor amigo dele (e seu) porque emenda um desenho no outro e no outro e no outro e, olha só, assim você consegue trabalhar. Mas lá pelas tantas é retirada do estado de torpor em que estava ao ouvir uma série de palavrões saídos de um tutorial de vídeo game.

Você proíbe seu filho de assistir a coisas como aquela, denuncia o vídeo por conteúdo inadequado (sim, fui eu!) enquanto o guri aproveita a mãe por perto para avisar que adorou o tal jogo e por isso quer um vídeo game de presente. Ainda bem que você está em casa. Mas percebe que o projeto “trabalhar em casa” era para evitar que coisas como essas acontecessem.

Já vou te adiantar que lá pelas tantas você vai achar que o silêncio da madrugada é a solução para colocar o trabalho em dia. Duas noites mal dormidas depois você vai sentir saudade da vida de antes , ou seja, não adianta nada home office de madrugada porque jornada tripla por jornada tripla vai preferir aquela em que pelo menos dormia.

Claro que tem lado bom. Vários. Inúmeros. Lembra aquele momento sem internet? Você e seu filho decidem fazer um bolo juntos. Lembra a ida ao mercado? Idem, e você ainda pode escolher a comida da sua família com carinho, em vez de comprar coisas prontas sabe-se lá feitas como. As duas horas que perdia no trânsito podem ser trocadas por um passeio no parquinho.

E mesmo quando estiver louca e precisando trabalhar, quando se é interrompido por um “manhê” fica mais fácil encarar esses intervalos com bom humor. Enquanto eu escrevia esse texto levantei para limpar um cocô, preparar uma lancheira e para trocar meu filho para ir à escola. Demorei o triplo do tempo para terminar, mas o texto está aqui, prontinho, e eu estou feliz da vida por ter podido ter feito todas essas coisas por ele e com ele.

(Autor: Rita  Lisauskas)

(Fonte: vida-estilo.estadao.com.br)

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