Conexão Evidente

A conexão da pele e do psiquismo é um dos ramos da psicossomática que mais merece destaque. Tal disciplina recebe o nome de Psicodermatologia, que integra conhecimentos médicos e psicológicos no tratamento das doenças de pele. Isso vem sendo uma forte tendência, uma vez que os sintomas não podem ser entendidos de forma isolada, pois a ciência, bem como os avanços da psiconeuroimunologia, enxergam o ser humano de forma completa, através de uma interdependência mente-corpo (Ludwig et al., 2008).

Apesar disso, o tratamento das doenças de pele, especificamente do Vitiligo e da Psoríase, são difíceis, devido à cronicidade de tais enfermidades. Mesmo com décadas de pesquisa, pela indústria farmacêutica, a ciência médica não conseguiu atingir uma cura completa, pelo tratamento farmacológico. Entretanto, entender o significado do processo curativo e dos agravantes do estado físico do doente, é fundamental para que o tratamento seja bem sucedido, chegando, inclusive, à remissão total dos sintomas.

Pele: Contato com o mundo

A pele é o maior órgão do corpo humano. Ela representa o nosso primeiro contato com o mundo externo, com as pessoas ao nosso redor e ambiente em que estamos (Ludwig et al., 2008), apontando uma profunda relação entre o nosso ambiente interno com o externo. As primeiras relações de toque ocorrem, principalmente, pela função materna, pela amamentação e outros cuidados que o bebê recebe. Dessa forma, a internalização das relações com o outro, constitui a imagem corporal. Freud, inclusive, afirmou que o eu é, primeiramente, um eu corporal (1923/1976). O corpo, logo, é uma expressão dos elementos internalizados. É como um mapa, do que acontece em nosso cérebro e de que maneira as nossas conexões neuronais se organizam.

Na idade adulta temos a tendência de utilizarmos funções regressivas, quando enfrentamos algum conflito (Dias et al., 2007), ou seja, quando  não conseguimos expressar ou simbolizar algum sofrimento, que são funções adquiridas no decorrer do nosso desenvolvimento, o corpo revela a repressão de alguma raiva não elaborada, desviando a atenção da nossa consciência (Sarno, 2001). Na psicanálise, Winnicott definiu que a pele tem um papel que traz o limite entre o eu e o não-eu, deste modo, as doenças de pele podem significar um desejo regressivo aos cuidados maternos, de contato constante (Dias et al., 2007) . Em relação à sua formação, a pele tem a mesma origem embrionária que o sistema nervoso, o que possibilita compreender como o corpo pode representar os conflitos internos (Azambuja, 2000; Ballone, Netto & Ortolani, 2002).

Vitiligo e Perda de Alegria

As doenças psicossomáticas não se desenvolvem de forma exatamente linear, mecânica e previsível, uma vez que envolve a subjetividade, fatores individuais e únicos na história de vida do doente. Fatores estes que não podem ser generalizados para qualquer pessoa. Apesar disso, há um significado simbólico em relação as doenças de pele. No caso do Vitiligo, os próprios pacientes que são acometidos pela enfermidade, costumam relatar algum evento estressante em suas vidas, em paralelo com o desenvolvimento e surgimento das manchas.

O Vitiligo é a falta de pigmentação da pele, ou seja, a perda da melanina. Cientificamente, tem-se mostrado relevante os aspectos emocionais no desenvolvimento e da progressão do Vitiligo. Recentemente com a chegada da psiconeuroimunologia, que procura estabelecer um vínculo entre a liberação de substâncias cerebrais sobre o corpo, se discute como a depressão e o pessimismo podem contribuir para que um sistema imunológico fique enfraquecido, ocasionando uma expectativa de vida menor (Steptoe & Wardle, 2011). A perda de pigmentação pode ser classificada como uma doença auto-imune. É uma espécie de autoagressão. De uma forma simbólica, pode representar a perda de alegria, pois a “cor” nos dá vida.

O estudo na área ainda é precário, porém dados iniciais têm demonstrado que pacientes que realizam trabalho psicológico, em conjunto com o médico, obtêm melhores resultados e perspectivas de tratamento (Sant Anna et al., 2003). A explicação científica reside no fato de diversos neurotransmissores, que antigamente pensava-se estarem presentes apenas no cérebro, estão em outras partes do corpo. Por exemplo o neurotransmissor alfa-MSH  (melanocyte stimulating hormone), presente na pele, mas que sua produção é coordenada pelo cérebro. O alfa-MSH pode ter sensibilidade afetada pelo estresse, fazendo com que inflamações na pele fiquem fora de controle (Epel et al., 2004).

Psoríase e Enfrentamento do Estresse

A psoríase é uma enfermidade crônica, quando ocorre uma inflamação da pele. O seu surgimento tem sido relacionado também com fatores emocionais, seja diante de uma perda ou algum evento estressante. De acordo com a abordagem psicológica, os indivíduos que possuem psoríase têm uma tendência de não manifestar as suas emoções e, diante de um estresse, a fuga e o autocontrole são as estratégias utilizadas por tais pacientes (Muller, 2005).

Raramente, todavia, os médicos indicam algum tratamento psicológico, mesmo aceitando que o estresse e a ansiedade podem agravar o quadro dessas doenças. Por esse motivo, se faz necessário que a formação acadêmica e profissional possa oferecer aspectos para além do biológico, que se referem ao nosso lado social, de contato com o mundo. Novamente, é preciso lembrar que a saúde subsiste em um tratamento multidisciplinar, e não individual.

Placebo e Pele

A hipnose pode ser utilizada no tratamento das doenças de pele. O poder da autossugestão na cura de tais enfermidades é discutido há décadas. Em meados do século XX, um paciente apresentou um quadro de reversão da doença congênita Eritrodermia Ictiosiforme (Mason,1952).

Outros estudos têm demonstrado que pacientes submetidos à hipnose apresentam melhoras em quadros de vitiligo, herpes e, até mesmo, acnes (Zachariae, 2001). Esse tipo de pesquisa abre espaço para o gerenciamento do estresse, que pode ser feito pelo próprio paciente, através do aprendizado e do autoconhecimento, bem como a capacidade do seu organismo em reverter quadros rotulados como incuráveis e crônicos, quando, na verdade, a cronicidade está no comportamento do homem, seja ele visível ou encoberto.

Referências

COHEN, Sheldon; WILLS, Thomas A. Stress, social support, and the buffering hypothesis. Psychological bulletin, v. 98, n. 2, p. 310, 1985.

EPEL, Elissa S. et al. Accelerated telomere shortening in response to life stress. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 101, n. 49, p. 17312-17315, 2004. [Link]

Mason, A. A.; Case of Congenital Ichthyosiform Erythrodermia of Brocq treated by Hypnosis, British Medical Journal, 1952 August 23; 2(4781): 422–423. [Link]

MÜLLER, Marisa Campio. Psicossomática: uma visão simbólica do vitiligo. Vetor Editora, 2005.

SANT ANNA, Paulo Afrânio et al. A expressão de conflitos psíquicos em afecções dermatológicas: um estudo de caso de uma paciente com vitiligo atendida com o jogo de areia. Psicologia: teoria e prática, v. 5, n. 1, p. 81-96, 2003.

SARNO, John E. Healing back pain: The mind-body connection. Hachette Digital, Inc., 2001.

STEPTOE, Andrew; WARDLE, Jane. Positive affect measured using ecological momentary assessment and survival in older men and women.Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 108, n. 45, p. 18244-18248, 2011. [Link]

ZACHARIAE, R. et al. Skin reactions to histamine of healthy subjects after hypnotically induced emotions of sadness, anger, and happiness. Allergy, v. 56, n. 8, p. 734-740, 2001. [Link]

(Fonte: https://pensaralem.wordpress.com/2013/10/30/o-corpo-fala-vitiligo-psoriase-e-demais-doencas-de-pele/)

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Fãs da Psicanálise
A busca da homeostase através da psicanálise e suas respostas através do amor ao próximo.



6 COMENTÁRIOS

  1. Aos fãs da pisicanálise minha gratidão pela matéria e também pela oportunidade,

    Tenho vitiligo desde os 7 anos de idade , descobri aos 15 , chorei muito por 3 meses …até que me deparei com uma pessoa na rua , que mesmo ” aleijado” seguia sua jornada em cima de uma cadeira de rodas …

    Neste exato momento, refleti : o vitiligo não me impedirá de ser mãe, esposa, profissional, “pessoa” , portanto : seguirei com alegria.
    Não posso com ele, junto-me á ele rsrsrsrsrs

    Fiz a opção “ser feliz” e seguir normalmente minha vida.

    Graças á Deus com êxito !!! Já tenho 37 anos, desde a decisão, nunca mais me entristeci. Sinto – me satisfeita e despreendida .

    Entendi que o “meu melhor valor” está dentro de mim.

    Sei que algumas pessoas , “infelizmente” perdem a alegria “ou mais que isto”, e como sabemos , não existe uma explicação definitiva para a “causa” , portanto sigo á disposição para contribuir com possíveis estudos ou no que for necessário .

    Carinhosamente ,
    Lady

  2. Tive vitiligo faz 15 anos e no momento não soube como tratar..
    Fui ao um renomado dermatologista que asperamente começou um tratamento “externo” para as manchas brancas que surgiram. Claro com resultados limitadíssimos, creio que nenhum resultado, eram pomadas e líquidos pigmentantes creio.
    O interessante é que embora seja um profissional renomado, na época, não teve o tino de mostrar as causas do Vitiligo. Passei uns meses fazendo pesquisa por conta própria até descobrir que era a “falta de alegria”, ou algo que impedia essa felicidade surgir.
    Quando descobri o que estava acontecendo, decidi que esse problema não afetaria mais minha vida. Ainda que me custasse a vida. Não permiti mais que fatores externos afetem a minha vida. Desde esse momento as manchas que tinha em vários lugares da cabeça! foram desaparecendo paulatinamente, até desaparecer tudo. Só lamento a mecha branca de cabelo (charmosa), que tinha surgido no meio da minha cabeça…

  3. Muito interessante a abordagem da matéria. Tenho vitiligo desde os 7 anos de idade, e foi muito complicado na época o diagnóstico. Afinal uma criança com essa idade ter uma doença na qual os médicos associam a depressão e estresse. Nos primeiros anos foi um pouco difícil entender que seria necessário um longo tratamento, idas e vindas ao psicólogo e o pior aceitar a mudança da pele. Tenho 27 anos idade e hoje consigo relatar que a minha cura foi interna, foi quando aceitei que poderia ser feliz com o vitiligo ou sem ele. Após vários tratamentos minhas lesões pigmentaram, em algumas em uma tonalidade mais escura que a minha pele. Mas hoje não ha necessidade de esconder, pois entendi que o vitiligo não pode interferir no que eu quero ser. Sou Feliz e isso basta.

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