Quem nunca sonhou em pôr a mochila nas costas e deixar para trás as ruas, travessas, casas, mirantes que tanto conhecemos – para se perder (e se reencontrar) em paisagens nunca imaginadas, ouvindo a música de línguas estrangeiras, descobrindo cheiros, sabores, olhares e costumes que nem sabíamos que existia? Quem nunca dormiu numa cama, em outra cidade a horas da própria e, ao acordar, sentiu aqueles segundos mágicos de não reconhecimento, de não ter ideia de onde se está?

Wanderlust é uma palavra em alemão formada pela junção do verbo “wandern”, que significa andar sem rumo específico, perambular, explorar um lugar sem direção específica e “Lust”, que poderia ser traduzido como “drive”ou “craving” em inglês – ou seja, mais que um desejo, uma ânsia profunda.

Não há tradução específica para Wanderlust em português. Não no dicionário. Mas esse sentimento, que invade a gente, cutuca e nos promete maravilhas se ousarmos sairmos da zona de conforto, é tão comum que o termo já faz parte da cultura pop. Afinal, quantas vezes não sentimos esse desejo absurdo de voar sem rumo, largar as raízes e descobrir novos caminhos, descobrindo a nós próprios – na esquina de cada cidade desconhecida?

Abrir a janela e sentir o vento. Abrir o mapa e escolher, de olhos fechados. Ou com um desejo profundo – um desejo noturnamente gerado em sonhos, numa hiperatividade inconsciente de si.

Abrir os olhos e escolher o destino. Escolher partir. Sonhar com encostas, pedras, estrelas, conchas – seres estranhos, estrangeiros. Com cheiros e sabores que só se pressentem, que permanecem à espreita, à espera de existir no real. Sonhar com rostos róseos, em cores que explodem a simples menção de um poema.

Mas não é preciso ir embora. Wanderlust é como uma palavra mágica – ela carrega um sentido e um sentimento que preenche a nossa alma de um desejo, de uma fome, que pode ser satisfeita ou não. Que pode ser abafada/cultivada folheando guias de viagem, livros de fotos de países distantes, vendo filmes, ouvindo poemas em outras línguas que não se entenda. Esbarrando no estranhamento do cotidiano, que só nutre esse desejo de partir para qualquer lugar onde mais do que se sentir estrangeiro na terra natal, sejamos estrangeiros de verdade.

[Palavras são mágicas. Palavras são pedras, estrelas, conchas, mortos-vivos pesados e brilhantes, existindo muito além. Fazendo existir. Palavras são, muito mais do que nós, do que qualquer um de nós.]

Quando escrevo mar, o mar entra todo pela janela, diz Al Berto, o poeta português. Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas, diz Herberto Helder, outro poeta lusitano. Levanto os olhos para o mar, despeço-me. Escrevo Wanderlust no papel e o desejo me transporta para onde eu quiser.

Hoje vou partir para onde o sonho levar. Que seja ele, e só ele, a escolher o destino. Que seja.

(Autora: Cristina Parga)

(Fonte: obviousmag.org )

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