“O abuso emocional é um ataque à sua personalidade, e não ao seu corpo, e pode ser tão prejudicial quanto o abuso físico”, diz Sandra Horley, diretora-presidente da Refuge, um abrigo para mulheres vítimas de abuso.

Ela cita como um exemplo de abuso emocional o gaslighting. Gaslighting é um termo tirado do filme Gaslight, estrelado por Ingrid Bergman, no qual uma mulher é enlouquecida pelo marido, que a convence de que está sofrendo de delírios, quando, na verdade, ele está manipulando coisas para fazê-la sentir que está imaginando coisas. “Os abusadores manipulam suas vítimas de forma cuidadosa e proposital, alternam facilmente entre charme e raiva, como Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Na verdade, para um estranho, o perpetrador pode parecer o parceiro perfeito e atencioso”, acrescenta Horley.

Existem centenas de maneiras de praticar gaslight com uma pessoa. Maridos e esposas podem fazer isso uns com os outros e os pais podem fazer isso com seus filhos. Um pai, por exemplo, pode fazer seus filhos pensarem que seus julgamentos são estúpidos e rir deles sempre que dizem qualquer coisa sobre qualquer assunto, e também inspirar outros membros da família a tratar as vítimas de gaslight da mesma maneira. Isso afeta o desenvolvimento e a autoestima da criança de maneiras gravemente negativas.

Um dos meus clientes, a quem chamarei Robert, era o filho mais novo. Ele tinha duas irmãs mais velhas e um irmão mais velho e desde que nasceu ele era tratado como se fosse um estorvo, inadequado e teimoso, que só causava problemas para a família. Ele era o alvo da zombaria da família e sentia que não apenas seus julgamentos, mas também seus pensamentos, sentimentos e comportamento eram ridículos.

Uma vez, Robert não quis comer brócolis. Sua mãe disse a ele: “Você está apenas sendo teimoso porque quer me irritar. Tudo que você faz na vida é irritar sua mãe. Você vai comer esse brócolis, ainda que leve a noite toda.” Sua mãe ficou lá com ele por horas depois que seus irmãos e seu pai foram para a cama. Todos eles viram coisas pelo lado de sua mãe: ele era um garoto estupidamente teimoso.

Seu irmão mais velho foi encorajado e tratado com respeito, enquanto ele foi tratado como um cidadão de segunda classe. Como um jovem adulto, ele não tinha nenhuma autoestima e estava cheio de raiva que se acumulou ao longo dos anos. Ele mal conseguia conduzir sua vida. Estava sempre se metendo em confrontos na rua porque alguém cruzava com ele e não se movia para o lado para que ele passasse, e muitas vezes os confrontos levavam a brigas. Ele estava desesperado por aprovação das mulheres, mas elas muitas vezes o usavam como brinquedo, não o levavam a sério (espelhando sua família) e, por fim, o rejeitavam.

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Outro tipo de abuso emocional é chamado de “assassinato da alma”. “Assassinato da alma” é um termo cunhado por Leonard Shengold, um psicanalista. Ele definiu como “a tentativa deliberada de erradicar ou comprometer a identidade separada de outra pessoa”. Ele prossegue dizendo que as vítimas de assassinato da alma permanecem escravas de seus vitimizadores (geralmente seus pais). A criança se sente desamparada e aterrorizada, e sob essas condições, sofre uma lavagem cerebral dos pais tirânicos, que geralmente são psicóticos ou sociopatas (ele os comparou a guardas de prisioneiros de guerra). E, assim, a criança começa a pensar e ser do jeito que os pais querem que ela pense e seja.

Da mesma forma que o gaslight, o assassinato da alma afeta gravemente o desenvolvimento da autoestima e o funcionamento das vítimas no mundo. Muitas vezes, elas não têm a menor ideia de quem são e no que acreditam, pois nunca foram autorizadas a crescer e se individualizar. Quando se tornam adultas, não têm “alma”, e Sheldon quer dizer que elas não têm uma percepção real de si mesmas ou de seu lugar no mundo.

Uma jovem paciente tinha um padrão repetitivo de ir atrás de homens indisponíveis ou que viviam tão longe que ela não poderia ter um relacionamento com eles. Ela era a mais nova em uma família de três irmãos mais velhos. Seus pais vivam sempre brigando e nunca tinham nenhum tempo real para ela. No entanto, a mitologia da família era que sua família era uma grande família, no sentido de que eles estavam bem de vida e todos sabiam de tudo.

Minha jovem paciente, a quem chamarei Mary, sofria de ambos: gaslight e assassinato da alma. A mãe dela, que havia descoberto sua própria mãe morta (ela havia cometido suicídio) aos 12 anos e foi deixada sem os pais, teve que crescer sozinha. Ela desenvolveu uma personalidade compensatória na qual se tornou uma microgerente, especialmente de Mary. A mãe lidou com o trauma de encontrar sua própria mãe morta inculcando em sua filha o medo de “pessoas morrendo de repente na sua frente”. Como a mãe teve que crescer sem os pais, fez o melhor que soube fazer.

Assim, ela tratou sua filha, Mary, como se a garota nunca soubesse de nada. Era extremamente protetora e atacava qualquer problema em que ela se metesse. “Viu? Eu avisei!”, era sua reação frequente. Os pais de Mary, como mencionado antes, estavam sempre brigando, e só mais tarde a garota descobriu que o pai era um homossexual enrustido, que demonstrava seus desejos homossexuais desde o início do casamento.

Na época, Mary tinha 34 anos, nunca tinha sido casada e tinha fobia de compromisso. O casamento de seus pais, cheio de brigas e mentiras, não a encorajou a encontrar um parceiro, nem a estimulou a ter uma ideia de como é ter um relacionamento íntimo. Porque sua mãe sempre a fazia se sentir inadequada, ela também não tinha confiança real em si mesma, nem qualquer percepção real de quem ela era.

O abuso emocional pode ser ainda mais impactante do que o abuso físico ou sexual, pois é sutil e indetectável. É verdadeiramente um assassino oculto. Pode-se abusar de alguém sem saber, com consequências desastrosas. As vítimas de abuso emocional podem desenvolver todos os tipos de transtornos, e o abuso também pode levar a sentimentos suicidas e ao suicídio.

(Fonte: psychcentral)
*Traduzido e adaptado por Marcela Jahjah, da equipe Fãs da Psicanálise

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