Sou machista. Fui criado assim. Cresci, casei e tive uma filha. Sempre subjuguei a minha mulher, o que achava ser completamente natural. Afinal, o machismo é tão estrutural que se naturaliza. Usava adjetivos como incompetente, idiota, estúpida, para criticar muitas de suas falas e posturas, e assim a diminuir, apequenar. Nunca a agredi fisicamente, mas praticava a violência psicológica. Minha filha foi criada nesse ambiente.

Eu ria das piadas que humilham ou desqualificam as mulheres, e as reproduzia. Quando alguma se ofendia e reclamava, eu perguntava se não tinha senso de humor, era só uma piada, uma brincadeira. Além disso, sempre fui muito moralista, especialmente quando via mulheres com roupas muito curtas. Tantas vezes disse que estavam pedindo para serem estupradas. Lembro de uma vez que me contaram sobre um caso de estupro de uma moça “moderninha” do bairro onde moro, e questionei se foi estupro mesmo. Afinal, ela abusava, pedia, né? Minha filha ouvia tudo isso.

Defendia que homens e mulheres são muito diferentes e os direitos não poderiam ser iguais. Reproduzia as falácias de que homem é mais racional, mulher é mais sentimental; que um monte de mulher num mesmo ambiente de trabalho não dá certo; que mulher fala demais; que mulher gosta de fofoca; que homens são mais competentes para gerir negócios; que tem mulher que gosta de apanhar; que criança mal educada é culpa da mãe, etc. Minha filha aprendeu tudo isso.

Uma vez um vizinho agrediu fisicamente sua mulher. Minha esposa e minha filha falaram em chamar a polícia. lmpedi-as. Disse que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Quem sabe o que ela fez pra ele perder a cabeça? Minha filha introjetou essa ideia.

Eu desumanizava a figura feminina. As mulheres mais independentes e desprendidas das regras morais as quais eu defendia, eu chamava de vaca, piranha, galinha. Dizia que feminismo é coisa de mulher mal comida, feia, desajustada, recalcada. Ficava ofendido quando alguém me chamava de machista, dizia, “nem machismo, nem feminismo, nada de ismos”. Minha filha chegou até a reproduzir algumas dessas minhas falas.

Recordo quando ela me apresentou a ele. Estavam começando a namorar. Uma vez a ouvi conversando com uma amiga e dizia que ele era meio grosseiro às vezes, mas homem era assim mesmo, né? Eu era a sua referência.

Outra vez falava com uma prima sobre ter encontrado ele com outra, mas ele se desculpou e disse que a amava. Lembrou que há alguns anos, a mãe também havia descoberto algumas puladas de cerca minhas, e que isso era coisa de homens mesmo.

Eu gostava dele. Era um cara muito simpático e trabalhador. Ria muito das piadas que eu contava sobre mulheres e até trouxe algumas novas que ampliaram meu repertório.

Casaram-se. Com a minha bênção. Uma vez ela reclamou para a mãe que ele era muito ciumento e a cerceava. Envolvi-me na conversa e disse que ele era o homem da casa e ela tinha de respeitá-lo, e que ciúme era sinal de amor. Ela concordou. Percebi que algumas vezes ele falava com ela de uma forma agressiva. Chamei-o para uma conversa. Pediu-me desculpas, disse que ia se policiar, “mas que mulher falava demais, sabe como é, acaba deixando a gente nervoso”… Acabei concordando com ele.

Há pouco tempo ela chegou em casa com um hematoma no olho, o rosto inchado e marcas nos braços. Perguntei o que era aquilo e ela respondeu que havia caído das escadas, mas estava bem, que eu não precisava me preocupar. Perguntei se estava tudo bem entre ela e o marido. Ela disse que sim, que ele a amava.

Ontem recebi uma ligação da polícia. Soube que minha filha estava morta. O seu companheiro a havia atirado da varanda do apartamento no décimo andar, ou a esfaqueado, ou a alvejado, ou a estrangulado, ou a agredido até a morte, durante uma briga conjugal.

Vizinhos ouviram os gritos de socorro dela, mas ninguém se envolveu ou chamou a polícia, afinal, em briga de marido e mulher não se mete a colher.

Eu cai, ou fui esfaqueado, ou agredido, ou estrangulado, ou alvejado, junto com minha filha. Agora jazo neste chão frio. A queda, ou o tiro, ou o estrangulamento, ou a agressão, ou a facada, que destroçou minha alma, aguçou meus sentidos. Consigo ver, consigo ouvir. Vejo agora com uma clareza e lucidez que me lancinam: o machismo, que sempre naturalizei e reproduzi, oprime, fere, mata. Ouço o grito dos feminismos. É um grito de dor. É um grito ancestral. É um grito por igualdade de direitos e oportunidades. É um grito por respeito. É um grito pela vida. É o grito da minha fila, e da sua.

Agora é tarde para mim. Agora é tarde para ela. Matei minha filha. A cada ato machista eu matei minha filha. Matei também outras filhas, irmãs, mães… Reproduzir o machismo é sujar as mãos de sangue.

Aja antes que seja tarde.

* Deve estar se perguntando se esta história é verídica. Respondo: sim e não. Sim porque ela acontece todos os dias, em muitos lugares, com muitas famílias. Criamos uma série de feminicidas, e alguns feminicidas em série. O Brasil está entre os países com maior índice de feminicídios: ocupa a quinta posição em um ranking de 83 nações. Morrem 13 mulheres por dia vitimadas pelo feminicídio. Quase 80% das mortes são causadas pelo companheiro.

E não, não é verídica porque não aconteceu comigo.

Apenas escrevi esta crônica tocado por uma grave questão social: o machismo.

Tenho a felicidade de estar cercado por mulheres feministas. Esposa, filha, sobrinha, nora, primas, amigas.

Criei uma filha feminista. Desde pequena a ensinei a só aceitar um NÃO com uma justificativa coerente, de quem quer que fosse, inclusive eu.

Quando se criou a expectativa de que ela fosse bailarina, dei o apoio que ela queria para treinar Taekwondo. Ela é faixa preta segundo dan. Foi campeã brasileira disputando com homens (não havia mulheres para disputar com ela na época) e campeã panamericana. É casada com um cara maravilhoso. E agora esperamos a Mel, filha deles e minha primeira neta, que só de pensar me encho de amor e ternura.

Preciso lutar por um mundo melhor para ela. Preciso lutar por um mundo melhor para todas as mulheres. Aliás, presenteei minha filha, sobrinha e prima com o livro Uma breve história do feminismo, da professora Carla Cristina Garcia. Quero um mundo melhor para todas as pessoas.

E para isso, nós, homens, temos de travar uma luta ferrenha, que começa dentro de cada um de nós, contra o machismo nosso de cada dia.

Temos de (des)aprender o que somos.

Só os feminismos salvam! Essa luta é de todos nós. Ensino isso para o meu filho, que é um cara maravilhoso.

#NemUmaaMenos

Autor: Cadu Castro.

*Texto recebido através do grupo Fãs da Psicanálise. Qualquer semelhança à nomes e fatos, é de responsabilidade do autor.

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49 COMENTÁRIOS

  1. Esses homens criminosos põe a culpa na criação… Na forma como foi educado. Lembro-me que na época que aquele ator famoso da Globo assediou a colega de trabalho, a justificativa foi a forma que ele foi criado. Por pessoas machistas. A índole de uma pessoa é algo particular. Existem pessoas que foram educados com muito amor e viram bandidos. É muita hipocrisia. Meu pai foi um homem muito estúpido, tratava minha mãe como objeto e propriedade dele, no entanto meu irmão é o homem mais cavalheiro que conheço. Trata as mulheres com o maior respeito.

  2. Você é uma vergonha. Este seu texto ridículo. Marxista/comunista envergonha a Criação divina e sua sublime obra espiritual. Aaaffff

  3. Morre mais homem pelo cônjuge do que mulher. Femicidio é a resposta clara e concreta que a vida de uma mulher é valiosa perante a Lei, e que além de homens morrerem mais, ainda são sempre os culpados.

    • Na verdade não há nenhum dado atual que diga que homem morre mais, mas existem várias pesquisas que mostram que a morte de mulheresbrigas de relacionamento e nem maior! E outra coisa, o termo feminicidio só existe por conta dos números gritantes e também pela motivação do crime que é simples e puramente o fato de ser mulher!

  4. Bom , sou mulher e não acredito de feminismo salva vidas e muito menos o machismo é falta de respeito. A bíblia fala que uma boa esposa é submissa ao marido, e a mulher foi criada para ser auxiliadora e ajudar o homem não para ser igual ao homem porque o homem é o líder do lar . As únicas coisas que não devemos aceitar e falta de respeito como agressões físicas, traições . Mais devemos ser obedientes ao marido sim.

    • Parabéns, por mais homens e não “machos”,precisamos que homens se somem a luta, para que histórias como essas deixem de ser reais,para que cada mulher possa ter equidade social e que possa viver sem medo numa sociedade machista, obrigada,por ser diferente de homens e mulheres que postaram aqui,que não entenderam sua mensagem.Machismo mata e isso não é brincadeira,mil vezes obrigada pelo texto.

    • E o que Deus fala sobre o marido que mata a esposa? O que a Bíblia diz sobre isso?

      Vamos lá, estou sentada e quero ouvir sua versão da história.

    • Minha querida, de que tempo vc esta falando. Das metáforas da bíblia….vc ta de brincadeira…que Deus é esse???. Desse seu Deus aí eu quero distância, e sinceramente, eu preferiria o capeta. O meu Deus me ensina que somos todos iguais. Mais é cada uma hein?!?!

    • Machismo não é sinônimo de masculinidade, HOMENS! Os antigos ”machos” diziam ”HOMEM QUE É HOMEM não bate em mulher”. Entenderam? Deus, no livro de Gênesis diz “Ide, tornai-vos muitos, enchei a face da terra”. Ele não disse “Vão seus monstros e espanquem as gurias”. JC pregou o amor, não o preconceito, não alguma religião – aliás ele se afastou da religião da época, pois foram os prosélitos cúmplices da perseguição a Ele, JC. Entendam e não falem besteiras. Respeitem suas mães, suas irmãs, suas professoras e sejam felizes, até o dia em que escolherem suas namoradas ou esposas, que deverão ser respeitadas e amadas, como a Bíblia manda.

  5. Aqui quem fala é um pai, de um casal de filhos os quais eu os amo de todo meu coração, se alguém tenta algo contra eles darei minha vida! não aceito que macho encoste uma unha em seus cabelos,ela ainda é jovem porém se um dia chegar para mim e falar que gosta de outra jovem vou respeitar sua decisão não motivarei porém vou orientar como possa para mostrar o bom ou o ruim desta maldita vida, de pessoas sem Deus não digo para ela mais acharei a melhor decisão, porque criamos uma filha e entregamos nas mão de satanãses com cara de homem para depois vemos nossas casas cheia de netos,ou ela espancada envolvidas com bandidos safados, chegando em frente de nossas portas as destratar e nada poder fazer. Isto nunca! Digo que isto é um desabafo de um pai que nada tem com o acontecido.

  6. Amei esse texto, a crônica é triste, pois é a realidade de muitas famílias que criam seus filhos com o pensamento machista, e isso é muito triste…Devemos respeitar a todos!

  7. O autor (se verdadeiro), nem coragem teve de se nomear.”Cadu”é pseudônimo do inimigo da família. Do falso moralista. Do que há de mais tosco do pensamento politicamente correto. Estas matérias só servem para desinformar e atiçar pensadores medíocres e incapazes.

  8. Em uma página do face publicaram” coitado do pai dessa mulher, saber oq o cara fez e não puder fazer nada”.
    Tenho a impressão de q mulher que teve um bom pai não passa por esse tipo de situação sem pedir ajuda. Bem o caso da sua história.
    Obrigada

  9. Parabéns, Cadu, pela crônica MA-RA-VI-LHO-SA!!! Me emocionei! Por um mundo, com homens com esse pensamento, com esse sentimento, com essa ação….Por um mundo mais JUSTO e fraterno!

  10. Excelente crônica, aliás tema muito pertinente principalmente na era em que vivemos com mulheres se destacando em vários campos de trabalho, tecnologia, ciências etc. Porém o machismo é algo que infelizmente cresce à passos largos. E como construir uma sociedade próspera em todos os sentidos, se valores como a dignidade humana( aqui no caso, o respeito à mulher), estão sendo violados, massacrados enfim, é hora de rever conceitos e lutar pra que a justiça, a moral e a dignidade prevaleçam.

  11. Chocada com tanto comentário machista, de gente pequena e escrota. Seu texto é maravilhosamente escrito e além de retratar, resume bem o que muitas mulheres aturam (haja vista o posicionamento medíocre e ignorante, inclusive de mulheres). Isso tem que mudar!

  12. Texto mal escrito, mesmo assim tem o seu valor. O mau exemplo que você dá em casa será uma referência para seu(sua) filho(a). Seja para buscar alguém parecido ou completamente diferente de suas referências maternas/paternas. Mas, não e preciso esperar que a tragédia bata à nossa porta para ser mais sensível às lutas alheias.

  13. Esse texto retrata a realidade vivida pelas pessoas que são vítimas contumazes dessa doença degenerativa chamada ‘machismo’ ! Nossas mulheres estão morrendo aos montes.Todos os dias!…Não dá mais pra continuar assim!..Acorda, Brasil!!!!…

  14. “Cadu”, seu texto está maravilhoso. Ao começar a ler achei que fosse depoimento do pai que perdeu sua filha de forma tão brutal acontecido na semana passada ou mesmo de um parente da mãe que perdeu a vida por um marido machão na frente do filho, representou bem a expressão de revolta de todos os casos de covardia que a princípio começa com um “tapinha” mas que vai tomando culto e forma maior durante o tempo.
    Fico envergonhada com a maneira de certos Antônio Modaelli, Marcos, Newton, Sérgio Novak, Walmir Rodrigue; certas Rosiani, Elizeth Campos. O Brasil e o mundo infelizmente estão cheios de pessoas assim. Queria dizer para Angela, o texto está muito bem escrito, cheio de verdades onde o autor passou tanta emoção que chegou a me confundir, achei que tanta emoção era parte do sofrimento dele. Angela, não é pelo fato da mulher ter recebido boa educação não só do pai, digo dos pais que a colocam numa redoma ou a protejam de crueldades de homens “”machões”. Educação, boa situação financeira, nada nos protege quando estamos desprotegidas nesta sociedade, neste mundo
    cruel .Parabéns “Cadu” por nos fornecer texto bem escrito por você como este, seja Cadu, pseudônimo ou não, pena que existem casos como este na nossa realidade .

  15. Vão cortar um canavial com canivete, chega de ismos, não são leis que mudam uma sociedade doente, e sim a boa educação e uma cultura decente, parem de hipocrisia e vão trabalhar, perdi tempo lendo esse texto, e o pior é ver tanta gente achando lindo e maravilhoso e ainda compartilhando, lamentável.

  16. Excelente texto!!! Parabéns ao autor que de forma clara e realista, ainda que por meio de crônica, retratou a realidade em que vivem muitas mulheres brasileira. Vamos divulgar, precisamos de mais consciências como esta.

  17. Texto excelente, Cadu. Realmente acredito que alguns professores o utilizarão em sala de aula. Uma observação: os machistas que aqui se manifestaram, em sua maioria, nem a Língua Portuguesa conseguem escrever direito… Sinal de pouca educação em todos os sentidos.

  18. Se um homem me contasse essa história eu diria pra ele não usar a sociedade para justificar sua forma porca de viver, compreendo a intenção dessa história, acredito que há homens que pensem assim, mas o que vejo também é que há exageros, seu objetivo e tornar a sociedade mais igualitária certo? E se você exagera e dividir a sociedade? Brancos odiaram negros por causa das cotas homens odiaram mulheres por terem tantos benefícios desnecessário, uma polícia para o mulher? Pra que? Um hospital para a mulher? Homens tem a tendência de não ir á hospitais e você estará insentivando isso. O que estou dizendo é que sempre houve pessoas com uma forma desprezível de pensar e todo dia inventam uma nova forma de serem desprezíveis, se quer lutar contra tudo isso lute, mas reavaliem constantemente sua forma de pensar. Apenas não exagere.

  19. Vocês observaram como a maioria dos homens são preconceituosos, machistas? A educação se ensina em casa, não na sala de aula e nem em uma esquina qualquer. Sejamos rígidos para com as nossas crias, sem passar as mãos pela cabeça, educando-os, ensinando o moralismo, o humanismo, a dignidade da vida, o respeito. Assim teremos uma sociedade q respeita os direitos humanos, e também tudo o q é vida. Vamos fazer a nossa revolução humana, assim teremos um mundo de paz e tranquilidade. Vamos iluminar a nossa mente e acabar com essa escuridão fundamental, enchergando o amor a nossa volta.

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