A história de Sólon de Atenas e do rei Creso é uma história sobre a felicidade. Não vou te entediar com os detalhes, mas essencialmente Creso queria provar à Sólon que ele era o homem mais feliz do mundo, mas Sólon, pouco impressionado pela riqueza e pelo poder de Creso, afirmava que o homem mais feliz que conhecera era um fazendeiro. Este fazendeiro viveu feliz e morreu feliz e, portanto, poderia ser considerado feliz. Pois ninguém pode ser considerado feliz com segurança até que seu fim seja conhecido.

Creso não pôde aceitar esta resposta. Ele não conseguia entender como um humilde fazendeiro podia ser tão feliz quanto ele, que tinha tudo. Ele queria que a felicidade fosse algo que ele possuísse, algo que ele pudesse jogar entre suas montanhas de tesouros ou encomendar como um de seus criados. Mas ele não podia.

O caminho para a felicidade não pode ser mapeado. Será sempre aprendido: indo e vindo.

Hoje, a mídia social está fazendo tudo o que pode para nos convencer do contrário. Com o objetivo de atingir um bilhão de usuários este ano, o Instagram é de longe o maior culpado pela falsa felicidade atual, de acordo com um estudo da RSPH (The Royal Society for Public Health) sendo considerado a pior rede social para saúde mental.

Não é surpresa. Desde caminhadas no Grand Canyon até uma refeição com amigos, as vidas das pessoas raramente deixam de parecer épicas no Instagram. Um estudo recente descobriu que 56% dos jovens sentem medo de perder. Esse medo de perder, coloquialmente conhecido como FOMO (Fear of missing out) é literalmente um medo de perder algo que faz alguém – outra pessoa – feliz. Como se perdesse sua chance de ser feliz se você não estivesse lá quando a felicidade fosse disseminada.

No centro de tudo, está a figura do influenciador. Os influenciadores do Instagram são definidos como “usuários que têm credibilidade e público estabelecidos; quem pode persuadir os outros em virtude de sua confiabilidade e autenticidade”.

Influenciadores, direcionados por empresas que querem expandir suas marcas, são pagos para exibir produtos em seus feeds, 80% dos influenciadores preferem o Instagram para colaborações de marca. Está rapidamente se tornando o ponto crucial do marketing moderno. Encontre alguém que pareça ter uma vida desejável e faça com que ele conecte seu produto ao feed.

65% das postagens no Instagram de melhor desempenho apresentam produtos. Os influenciadores aspirantes não estão mais postando sua vida pessoal, mas sua vida profissional. Instagram se tornou uma carreira. Como em qualquer carreira, você tem que ficar à frente da concorrência, então os usuários começaram a contratar fotógrafos e editores profissionais para criar o feed mais atrativo possível. A perfeição lentamente substituiu a autenticidade como o padrão para os influenciadores. Eles estão vendendo um caminho para a felicidade.

Leia Mais: Instagram e a sua idealização de felicidade

Uma das maiores influenciadoras do Instagram no mundo é uma mulher chamada Alexis Ren. Ex-dançarina e modelo adolescente, Ren, de 21 anos, acumulou um patrimônio líquido de cerca de US$ 3 milhões de seus 12,7 milhões de seguidores no Instagram e sua linha de roupas ativas, Ren Active. No Instagram, ela pode comandar até US$ 25 mil por postagem.

Percorrendo o seu feed, entre as fotos dela segurando pacotes de chocolates de amêndoa ou comprimidos para dar volume em cabelo, você verá uma seleção bem cuidada de fotos de qualidade profissional da Sra. Ren, tomadas em resorts de luxo ou em praias imaculadas. Suas legendas dirão coisas como “a paz interior é o novo sucesso” ou “acordou ao lado de um pouco de água azul”. Todos os sinais externos apontam para uma jovem feliz e saudável que não está obtendo nada além da vida pública.

Então, em abril de 2018, Ren começou a lutar contra um distúrbio alimentar. Começou com alguns tweets (para ela, consideravelmente menores: 1,9 milhão de seguidores no Twitter), e culminou com ela dando várias entrevistas sobre estar lutando com a pressão para parecer perfeita, seu transtorno alimentar e a importância do amor-próprio em encontrar a felicidade.

Mas aqui está o tópico. Você não sabe disso pelo feed do Instagram. Em sua plataforma mais influente, abril e maio de Alexis Ren são indistinguíveis de qualquer outro mês; fotos de qualidade profissional bem editadas, um sorriso largo, legendas vagamente positivas e alguns produtos patrocinados.

Não há vestígios de imperfeição no próprio aplicativo que faz com que ela sinta a necessidade de ser perfeita. Anunciantes retratando um profissional remunerado como uma pessoa comum tem se importunado em nossa cultura desde antes da proliferação do smartphone. Mas agora, não passamos esses modelos de felicidade em cartazes enquanto dirigimos para o trabalho ou em anúncios enquanto percorremos os canais. Nós os vemos toda vez que abrimos nossos telefones.

A ansiedade nos jovens aumentou 70% nos últimos 25 anos. 91% dos jovens hoje usam a internet para redes sociais. Não é uma coincidência, é uma tendência.

Então, vamos inverter a tendência. A mídia social não é um reflexo da realidade. Vamos parar de fingir que é. Em vez de uma plataforma centrada em “blogueiros de estilo de vida”, o Instagram pode ser uma plataforma para artistas e criadores de conteúdo, um lugar onde compartilhamos nossas criações em vez de fingir que nos compartilhamos. Mas primeiro, como o rei Creso, nós, como sociedade, precisamos redefinir nossa compreensão da felicidade. Uma coisa é vender um produto, outro é vender a felicidade. Precisamos aliviar a pressão de ser feliz, para que possamos realmente dar espaço para a felicidade. Precisamos parar de olhar para outras pessoas para definir a nossa felicidade e começar a encontrá-la em nós mesmos.

Você não precisa ser feliz agora. Você apenas tem que buscar a felicidade. Isso é o que significa estar vivo. Para encontrar a felicidade, às vezes você tem que admitir que ainda não a encontrou. Muitas pessoas não são tão felizes quanto suas fotos de perfil.

(Autor: Edward Hoke)
(Fonte Original: thriveglobal)
*Texto traduzido e adaptado por Carolina Marucci da equipe Fãs da Psicanálise.

Imagem: Elijah O’Donnell

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