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Você já sentiu isso? Uma saudade sem fim, que chega a ficar com o coração apertado. Um nó na garganta da falta que ele faz. Uma ferida que não cicatriza.

Estes sentimentos são naturais e saudáveis diante de um processo de luto. Perder quem foi especial, responsável por ensinamentos e amor é algo devastador. E vários são os questionamentos de arrependimento “se desculpar pelos desentendimentos”, “ter passado mais tempo juntos” ou “ter apenas mais um minuto para dizer o quanto o amava”.

E poder lidar com essa saudade é algo delicado, mas necessário. Em que todo o contexto familiar será impactado após a perda de um pai. O filho assume um papel que antes não lhe cabia, a esposa enfrentará a dificuldade de lidar com o que era planejado pelo marido…

Diante de todo sofrimento, existe a possibilidade de enfrentamento através das “tarefas do luto”, descritas por Worden. Elas são as características do luto comuns em diferentes momentos de tempo. Vale salientar que sofrem variações de intensidade de pessoa para pessoa, mas de forma geral são caracterizadas do seguinte modo:

Primeira tarefa – Aceitar a realidade da perda
Talvez esta seja a mais delicada, pois não é simples aceitar a morte ou perda de uma pessoa ou algo que amamos, no entanto ainda que seja difícil, neste primeiro momento o desafio é encarar a realidade de que a pessoa está morta, que foi e não voltará mais. Isso pode levar dias, meses e é marcado por descrença e negação. Frases do tipo: “Como pode ter acontecido?”, “Não consigo acreditar”, “Parece que não aconteceu”, “Quero acordar deste pesadelo”… São comuns e importantes, pois ajudam a entender a realidade, com o tempo se vai entendendo que não tem volta e se torna aceitável acreditar que o reencontro concreto é impossível.

Segunda tarefa – Processar a dor do Luto
Reconhecer o sofrimento e expressá-lo é fundamental nesta tarefa. Qualquer evitação ou não reconhecimento pode gerar sintomas físicos, emocionais e cognitivos – e mais sofrimento. Às vezes este processo se torna mais difícil, pois as pessoas na tentativa de ajudar, falam: “A vida é para ser vivida”, “Ele não gostaria que você se sentisse assim”, exigindo uma reação que parece impossível neste momento. Essa maneira de “tentar ajudar” faz com que o enlutado negue a necessidade de vivenciar seu luto e a consequência pode ser a idealização do falecido, ou a evitação da dor fazendo uso de álcool e outras drogas, medicamentos ou viajando de um lugar para outro na tentativa de encontrar alívio para o seu sofrimento.

Terceira tarefa – Ajustar-se a um mundo sem a pessoa morta
Parece impossível pensar nisto num primeiro momento, mas após a perda do seu ente querido, a terceira tarefa será enfrentada através de três áreas de ajustamento.

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A primeira delas envolve ajustes externos, ou seja, como a morte afeta o funcionamento do cotidiano, essa situação descreve como será desenvolvido os novos papéis executados pelo falecido. Por exemplo, uma esposa que perde o marido e era ele quem organizava os pagamentos, quem planejava as viagens… após a morte essa esposa quem deverá se organizar com essa função.

A segunda área envolve ajustes internos, como a morte afeta a autoestima, o senso de autoeficácia, fazendo com que a pessoa se questione, “Nunca mais serei amada como fulano me amou”, “Nunca mais encontrarei outro lugar para pertencer novamente”, “Que sentido tem minha vida sem ele?”, “Alguém me amará como meus pais?”. E o enlutado vai conseguindo seguir em frente com suas tarefas quando consegue redescobrir o mundo após a morte do seu ente querido. É uma tarefa longa, intransferível e possível – acredite.

Por fim, os ajustes espirituais, como a morte influencia as crenças, valores e suposições da pessoa acerca do mundo. Algumas vezes a pessoa questiona o sentido da vida, mas esses ajustes são necessários para que a pessoa compreenda que a vida é benevolente, que o mundo faz sentido e que a pessoa é merecedora.

Quarta tarefa – Encontrar conexão duradoura com a pessoa morta em meio ao início de uma nova vida
Poderíamos dizer que esta é a tarefa da transformação. É o momento em que o enlutado encontra um lugar para quem morreu, um lugar em que o mantenha conectado emocionalmente. Entende-se que aceitar não é esquecer. Que esquecer é impossível e que amar o que foi perdido, pode fortalecer a vida de quem fica. Conseguir viver de maneira saudável sem a presença do seu ente querido, encerra um processo de luto e abre um espaço para viver a vida reconhecendo as coisas boas que ela ainda pode oferecer.

As tarefas não são sequências, elas vêm e vão, mas precisam passar. Se perceber dificuldade em lidar com alguma delas é importante procurar ajuda profissional.

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Cristiane Assumpção
Psicóloga Clínica, especialista em Luto. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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