“Ao fazer-se bela, bela para si mesma, para um homem ou para outras mulheres, uma mulher tenta tomar para si enquanto sujeito a beleza que é sua, enquanto mulher, mas que, no entanto lhe escapa. A manobra de sedução pela beleza é a tentativa de adivinhar, dar um nome, um atributo ao desejo enigmático do Outro.” (CARNEIRO RIBEIRO, 1995)

Há uma intima relação entre o belo e o desejo, porém esta é marcado por uma série de ambiguidades não? São inúmeros os pacientes que chegam aos consultórios de psicologia com queixas relacionadas a auto-estima e aparência. Quando as escutamos, logo se pode pensar “mas quando começou a mudar sua percepção sobre si?”. Ou seja, algum dia esse paciente já se sentiu belo? Quando isso mudou?

Certamente, haverá uma história ligada a algo marcante, no qual se sentiu menos do que alguém, como um patinho feio. Nesta os personagens serão sempre familiares e relacionamentos amorosos, o cenários será de contextos abusivos ou simplesmente se apresentará um paciente muito fragilizado com um discurso sobre enormes vazios que não sabe de onde surgiram, mas que ao longo de sua existência ouviu muitas coisas sobre si e as guardou com profunda dor.

Às vezes quem faz comentários sobre aparência não tem a noção do quão complexo podem ser os sentimentos envolvidos e as angústias causadas em quem receberá essas palavras, afinal, o sujeito pode saber o que disse, mas nunca como o outro escutou, não é?

Na psicanálise é importante que o analista trabalhe com o paciente sempre as subjetividades daquele sujeito, então juntos devem investigar seus sentimentos, angustias e trabalhar a desconstrução dessa ligação entre aparência e auto-estima.

Importante pensar no que a beleza remete a cada um. Quando se enxerga beleza em alguém, há certa idealização e muitos sentimentos relacionados a aquela figura. Para ela, o tempo todo o ser humano tenta criar algo belo como uma tentativa de reparar a violência de sentimentos destrutivos, como a cobiça. Ou seja, beleza estaria muito ligado a reparação, sendo o belo algo ligado ao bom, então ser considerado bonito seria como uma forma de fazer com que o outro enxergue somente qualidades no sujeito?

Talvez possa se pensar na beleza como uma tentativa de mascarar o que há de impulsos cruéis e destrutivos em todo o ser humano.

Podemos pensar também na seguinte frase: “Somos constituídos por uma falta que nos funda, mas nos condena à insatisfação estrutural e à infelicidade” (KUPFER, 2000). Esta talvez nos leve a pensar que responder ao ideal de beleza cultural seria uma possibilidade de gozar e recuperar um vazio muito marcado do ser humano.

Referências:
KUPFER, M.C., livro: “Educação para o futuro” Psicanálise e Educação, São Paulo, editora Escuta, 2000.

RIBEIRO, M. A. C. Ela anda em beleza, como a noite. In: Stella Jimenez e Glória Sadala. (Org.). Mulher: na psicanálise e na arte. 1995.

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Mariana Pavani
Psicóloga, estudante de Psicanálise. Colunista do site Fãs da Psicanálise.

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