A cocaína era fundamental para a Psicanálise, pelo menos era o que pensava aos 28 anos, o jovem médico vienense Sigmund Freud (1856-1939). Para curar as “doenças da alma” – ele inclusive usava a droga, diluída em água.

Naquela época Freud decidiu dedicar seus esforços ao estudo do uso terapêutico da cocaína, com o objetivo de aumentar o seu prestígio entre a comunidade científica vienense. Experiências anteriores haviam demonstrado, erroneamente, que a cocaína poderia curar a dependência da morfina (amplamente utilizada naqueles tempos como uma maneira caseira de aliviar a dor).

Por meio dessa base teórica, Freud receitou o estimulante a um paciente que sofria de dor crônica. Mais tarde, ele mesmo resolveu utilizar a droga. Freud então percebeu que ela tinha uma notável eficácia na prevenção da ansiedade e no aumento da libido. A simpatia de Freud com a droga foi total. Começou a prescrevê-la para a família e os amigos,  com o slogan: “transformar os dias ruins em dias bons”.

Os primeiros resultados foram animadores, mas aos poucos ele percebeu que os pacientes estavam virando viciados. Freud parou de usar cocaína em 1896, com 40 anos. Ele começou a sentir palpitações cardíacas e percebeu que o seu desempenho intelectual reduziu-se consideravelmente. A cocaína foi a causa da morte de um de seus amigos e pode ter sido também a causa da morte de vários de seus pacientes.

David Cohen, autor dos mais importantes perfis biográficos de psicólogos do século XX, segundo a respeitada revista “Psychology Today”, chega com seu novo livro “Freud e a Cocaína” (Record) a algumas conclusões sobre a relação de Freud com a droga que ele teria habilmente escondido do mundo.

O fracasso das teorias em defesa da coca na cura de histeria, problemas digestivos, asma e como um estimulante genérico levou o psicanalista a queimar dezenas de documentos sobre a droga quando a medicina reconheceu sua nocividade.

Mas Cohen vai além e mostra que Freud errou muito por não se reconhecer como viciado (apenas em charutos, o que lhe valeu o câncer de mandíbula, “causa mortis” oficial). Mais grave ainda, sugere que parte da obra que mudou a forma de tratamento de males da mente foi produzida sob a influência do pó, a euforia decorrente do seu uso ou mesmo do sentimento de derrota que acomete os abstinentes, ainda que livres da substância, vivendo os deprimidos “um dia depois do outro”.

“Ao examinar Freud e o seu legado, devemos recordar que a psicanálise, esse estranho exercício em que o paciente conta seus sonhos e abre sua alma deitado em um divã, foi inventada por um homem com um passado profundamente traumático”, escreve o autor.

“Um homem que se tornaria usuário habitual de cocaína. Freud era zeloso em ocultar o seu passado, difícil e marcado pela dor, e os seus leais seguidores não o inquiriam muito a respeito, por isso não costumamos pensar no jovem Freud como prejudicado, vulnerável e um candidato promissor à dependência química”, conclui.

Também formado em psicologia, Cohen é possivelmente o jornalista que coleciona o maior número de entrevistas com os grandes nomes dessa ciência. E muito do que ele traz de demeritório em relação às experiências que Freud justificou como testes científicos vem de detratores confessos do médico austríaco. Cohen entrevistou dezenas de cientistas e pensadores para a revista “New Scientist” e conta que Freud, mesmo fora da pauta, tornava-se uma questão em qualquer conversa sobre análise. No livro ele reúne alguns que o amam e outros que o odeiam. E ainda os que simplesmente o acusavam de assassinato, como o colega Eric Miller.

A coisa já estava saindo do controle quando Freud deu essa guinada: largou a droga para investigar o inconsciente de cara limpa. O próprio Freud reconheceu nos últimos anos de sua vida, como uma forma de clarear o seu passado: “Minha pesquisa sobre a cocaína foi uma distração que sempre me deixou ansioso para ser concluída”

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1 COMENTÁRIO

  1. Não posso ser sua colunista mediante tal tipo de linguagem que revela o desconhecimento de sua escrita jornalistica- biográfica em contraponto aos biógrafos por excelência, conhecedores das Obras Completas de Sigmund Freud e além desta, cartas, correspondências e tantos outros e, etc. Ernts Jones para citar um deles. Um blog que deveria preservar tal seriedade e, no mais suposicionista para aquecer um jornalismo que deve muito ao jornalismo! Quanto custar em dolares seu livro, irei debruçar-me sobre ele com muita atenção e dedicação, certamente! Abraços, psicóloga e psicanalista, Helani A.R.Nunes.

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