Comportamento

Deixe os pesos de sua infância para trás

Poderíamos “culpar” a psicanálise, livros de autoajuda ou redes sociais … O que é evidente é que é um fenômeno da modernidade, uma atitude que nasceu com a geração pós-boom (ou geração X *) e que minha faixa etária foi aperfeiçoada até o limite do não-mais. Refiro-me a críticas ferozes aos pais e ao costume de culpá-los irrestritamente pelos nossos erros presentes.

Por algum tempo essa parte foi considerada essencial, para o processo de autoconhecimento, a análise de nossa infância. Da mesma forma, tornou-se consciente da importância que esses primeiros anos de vida têm em relação às conquistas e falhas que obtemos quando adultos.

É um exercício de introspecção recorrer ao nosso passado para reconhecer fraturas e feridas, momentos que nos imobilizaram e dos quais não conseguimos nos recuperar. O valor disso é imenso e inegável; no entanto, o que muitos deixaram de fazer após esse estágio de confronto com o passado é passar para o próximo: superar o fato.

Para muitos, esse reconhecimento tornou-se um ponto de culpa para os pais : a aparente fragilidade da mãe, o afastamento emocional do pai, a violência de um ou outro ou a falta de contenção de ambos impediram o futuro de seu filho que, atualmente (como adulto), ele é incapaz de realizar esta ou aquela tarefa, manter um relacionamento saudável ou abandonar certos hábitos.

Ninguém nos disse que detectar esses momentos difíceis da infância resultou na renúncia à própria responsabilidade de transferi-lo para a família. Por mais difícil que pareça, a responsabilidade pelo momento atual que estamos passando é só nossa.

Se formos bem-sucedidos financeiramente no momento, poucos pensariam em transferir os méritos para o pai e dizer: “Tenho muito dinheiro, porque na infância meu pai era caloroso comigo e me abraçou muito”. Por outro lado, garantimos: “Eu tenho muito dinheiro porque trabalho duro, trabalhei duro e sou um bom administrador de meus ganhos”.

Da mesma forma, quando enfrentamos um fracasso, devemos estar cientes de que cometemos erros e estar dispostos a aprender com eles. Não é bom dizer a nós mesmos e aos que estão à nossa volta: “Não consigo manter um emprego porque minha mãe gritou muito comigo”.

Entenda: não estamos questionando o tremendo efeito das experiências infantis e do tratamento recebido em tenra idade. Hoje ninguém pensaria em colocar isso em dúvida. O que estamos considerando é que o significado de nossas experiências familiares decorre de uma construção cultural que atualmente está inclinada a nos libertar da responsabilidade.

Nossos avós, a geração nascida na primeira década do século XX e nas anteriores, separaram a infância do presente e forjaram o mito do homem feito por si, em que tanto os sucessos quanto os fracassos eram de responsabilidade exclusiva do indivíduo. É certo que essa apreciação não é inteiramente verdadeira e que o ponto saudável está no meio de ambas as atitudes.

Embora agora saibamos muito mais sobre como o comportamento e os riscos dos diagnósticos multifatoriais evoluem, devemos ser capazes de encontrar em nós as respostas para nossos problemas atuais. O autoconhecimento é extremamente útil e, para alcançá-lo, precisamos analisar nossos primeiros laços familiares, mas a capacidade de superar nosso passado é a única chave para alcançar uma vida bem-sucedida no único momento que importa: o presente.

* Geração X: grupo da população que viveu sua adolescência no período definido entre a década de 1980 e o início da década de 90, aproximadamente.

Fonte: lamenteesmaravillosa.com

*Texto traduzido e adaptado com exclusividade para o site Fãs da Psicanálise. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.

Fãs da Psicanálise

A busca da homeostase através da psicanálise e suas respostas através do amor ao próximo.

Share
Published by
Fãs da Psicanálise

Recent Posts

As suas necessidades não são as dos outros

Suas prioridades não são as dos outros. Suas verdades não são as dos outros. Então…

3 semanas ago

Quando nosso cérebro escolhe não sentir para não sofrer

O sofrimento não é uma escolha pessoal; ninguém escolhe a dor ou o isolamento emocional…

1 mês ago

Uma doença pouco conhecida que pode ser confundida com preguiça

Prolongar o tempo na cama por mais alguns minutinhos, logo após acordar, ou tirar algumas…

1 mês ago

Pare de mimimi e vá à luta!

Forças malignas sempre te impedem de cumprir prazos? Entrar no mestrado está sendo mais difícil…

1 mês ago

Os 5 Sinais do Transtorno de Ansiedade Generalizada

Ficar nervoso ou ansioso em algumas situações da vida como, por exemplo, antes de uma…

1 mês ago

Gentileza é a gente deixar o outro ser de carne e osso

Gentileza gera gentileza. Pois é, mas acho que ser gentil não é ser bem educado,…

1 mês ago