“Geralmente saio de circuito, desligo do mundo e procuro ficar sozinha. Gosto de ouvir o silêncio e entrar em sintonia com os meus pensamentos”, confessa a atriz e socióloga Noêmia Scaravelli, 55 anos. Optar pela solidão, em alguns momentos da vida, não é uma atitude considerada nociva.
Os momentos de real importância na transformação ou passagem de um momento para outro ao longo da vida são precedidos por pequenos períodos de auto-isolamento e esvaziamento de si”, explica o psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, que também é professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).
Por isso, “A boa solidão é sentida como uma necessidade de estar só; a má solidão, como uma impossibilidade de ficar sozinho”, completa Dunker.
Para a psicóloga Denise Diniz, coordenadora do Setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a solidão torna-se patológica quando vem associada a outros sentimentos, como tristeza, rejeição e sensação de abandono. “Neste caso, pode ser prejudicial ao indivíduo que, considerando que não pode ser aceito e amado, irá sofrer e até cair em depressão”, informa.
No entanto, isso não tem a ver com escolha. “A solidão benéfica nunca se estrutura em torno de ‘eu não preciso do outro’. É justamente quando me dou conta de que preciso do outro, mas não absolutamente, que a solidão torna-se um espaço criativo”, coloca Dunker. Aqui, a ideia não é querer se afastar do mundo, mas permitir-se ficar sozinho. “E qual de nós já não teve uma crise existencial?”, questiona Denise.
E para resolver a questão, não é preciso, necessariamente, ir para um retiro ou viajar para um lugar distante. Sabe aqueles dias em que a gente não tem vontade de conversar? “Isso deve ser respeitado. Se toda a turma está indo para a balada e você não está disposto, tudo bem!
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Ninguém deve se culpar por querer desfrutar de um período de isolamento”, enfatiza a psicóloga da Unifesp. Um momento para chamar de seu.
Denise afirma que vivemos em uma sociedade voltada para a indústria do lazer. “Ficar em silêncio, pensar na vida, colocar as ideias em ordem, são atitudes saudáveis e muito normais”, diz Denise. Ela explica que tal situação tem um nome: solitude. Aqui, há uma escolha consciente em querer ficar só.
Novo rumo
Foi o que aconteceu com o jornalista Rodrigo Rainho, 33 anos, que, para dar um rumo em sua vida, apostou em uma viagem sem acompanhante. “Em 2008, decidi me isolar para refletir sobre meu futuro e tentar esquecer de vez minha ex-namorada, da qual havia me separado em 2004. Estava vivenciando uma instabilidade afetiva e profissional, pois a empresa em que trabalhava passava por uma crise. Viajei para Arraial D’Ajuda, na Bahia, e fiquei 15 dias por lá em um quarto só meu”, relata.
Quando retornou de seu exílio, Rainho havia recuperado a energia positiva que precisava para tomar decisões importantes. “Pedi demissão e fui atrás de um emprego que me deixasse realizado. Sem contar que, na Bahia, conheci uma mulher maravilhosa que me ajudou a tocar a vida em frente e, isso me impulsionou a voltar a me relacionar e viver intensamente”, acrescenta.
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E tal atitude, segundo Dunker, é tida como uma condição para o desenvolvimento da autonomia, da independência e da emancipação. “O isolar-se é uma maneira de deixar a voz e o olhar do outro esvaziar-se, de ver nossa própria situação de longe, ou inversamente, em uma proximidade inexplorada. Isso permite reconhecer melhor o tipo de posição na qual nos encontramos em relação ao outro”, afirma.
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Quem tem medo da solidão?
Apesar de a solidão ter o seu lado positivo, ainda há um preconceito que só a associa a momentos de profundo abandono. “A solidão é tão fortemente repudiada pelo indivíduo porque se associa aos estados de desproteção e insegurança”, analisa Dunker. Entretanto, o auto-isolamento é uma experiência simbólica e não uma exclusão física.
O isolamento social pode ser nocivo”, diz Denise. E Dunker lembra que a solidão patológica é sentida como humilhação social, e este tipo de sensação causa temor. “Há pessoas que jamais vão a um cinema ou a um restaurante sozinhas, pois têm certeza de que todos à sua volta estão olhando e pensando: ‘Veja aquele solitário, um fracassado que não conseguiu respeito, amizade ou amor de ninguém’. Este é um exemplo da solidão patológica, ou seja, aquela que é sentida como deficitária”, exemplifica o psicanalista.
Porém, usufruir da própria companhia pode ser reconfortante em muitos momentos. Aproveitar este auto-isolamento, colocar a ideias em dia e tomar a decisão certa, por exemplo, pode ser muito prazeroso e satisfatório.
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“Se alguém não é capaz de inventar uma vida interessante sozinho, se a coisa mais interessante que pode acontecer na sua vida é encontrar alguém que te diga que você é interessante, isso acontece porque você não é interessante”, atenta Dunker.
E, pelo visto, Noêmia já aprendeu a lição. “Sempre acho positivo ficar sozinha. Se há muita balbúrdia em volta, me recolho para me encontrar”, finaliza.
(Autora: Simone Cunha)
(Fonte: ip.usp.br )
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