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O sofrimento nosso de cada dia

No início da vida, são os pais ou os adultos cuidadores, os responsáveis pelos primeiros tempos do pequeno ser que nasce. São eles que vão escrever as primeiras linhas na vida do pequenino ou pequenina do qual se encarregam e, nesse sentido, são os adultos os primeiros que pensam por ela ou por ele. Com o passar dos dias, marcas vão sendo inscritas dentro da cabecinha da criança – marcas que entram pelas palavras que ouve ou que não ouve; pelo cheiro que sente, bom ou ruim; pelo colo quentinho que desfruta, ou pelo braço espinhento dos pais; pelo amor transmitido que transborda dos olhos dos pais, ou pela falta de olhar. Isto tudo é o pano de fundo de cada um, e vai determinar, no futuro, como e o que cada um sente e como ou cada um sofre.

Sempre tem alguém sofrendo. Talvez a pessoa que sente ao teu lado, no ônibus, sinta. Mas não há como saber, ao olhá-la, o que faz ela sofrer. Tem pessoas que sofrem com a pobreza, tem outras que não sabem o que fazer com tanta riqueza. Tem pessoas que sofrem quando encontram um cãozinho na rua, com fome e num dia de chuva. Tem outras que se sensibilizam quando se deparam com idosos em situação de negligência. Tem solteira que sofre por estar solteira e tem homem casado que sofre em estar casado. Tem muita gente que gosta de gente e que sofre em razão do que sente.

Tem gente que não sofre, alguns dizem. Baseados no que, não se sabe, pois como é que se pode julgar o outro pelo que ele aparenta? Só ele mesmo pra saber se sofre, e do que sofre. Mas você, sente o quê? A capacidade de se pensar deveria ser o pano de fundo da vida de todo mundo, quando adulto, mas essa capacidade vai depender do quanto, quando pequeno, o sujeito fora pensado, cuidado e considerado como alguém com possibilidades, desejos e capacidades.

Pensar tem a ver, também, com poder montar teorias sobre si mesmo e sobre o mundo, o de dentro da gente e o que a gente vive. Hipotetizar possibilidades, sonhar com uma vida melhor, querer transformar aquilo que não nos agrada, desejar. Esse é o nosso pulo do gato, com perdão do trocadilho felino.

Entretanto, pensar não é tarefa fácil: é preciso ter tempo e coragem, muita coragem. Pensar é libertador, mas, por vezes, causa dor. É uma tarefa de revirar os sentimentos, lembrar que não se teve tudo aquilo que se quis, que não se pode fazer tudo aquilo que queria ter feito, que não se teve todo o olhar que se precisava ter tido, e que não se foi considerado dentro de toda a sua complexidade. Ainda, é pelo pensamento que se tem a possibilidade de rever a própria história, avaliar condutas, e descobrir ainda é tempo de reescrever capítulos que até então estavam rabiscados à lápis. Quem sabe ainda dá tempo de resgatar aquilo que tu não pudeste ter tido em outra época? Todo mundo sofre um tanto, se alegra outro tanto, chora outro tanto e ri em outra proporção, e segue a vida, a partir do que foi escrito outrora e que pode ser reescrito agora.

Fernanda de Felippo

Psicóloga. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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Fernanda de Felippo

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