Tem dias em que nada dá certo. O telefone celular, embora não surdo, fica mudo; o teleatendente da operadora lhe garante que o lugar onde o aparelho foi comprado será capaz de trocá-lo na garantia, mas, depois de atravessar a cidade para chegar à tal loja (que se recusa a divulgar um telefone para contato, então não há jeito senão ir até lá), você descobre que a informação era equivocada: você precisa ir a uma assistência técnica – e ao tentar telefonar para agendar uma visita você é deixado em espera na linha por looongos minutos. No mesmo dia descobre que as informações que recebeu para emplacar o carro novo não procedem. Assim, é preciso esperar ao menos uma semana para sair da cidade – ou seja, nada daquele passeio tão aguardado às montanhas no sábado.
Nesses momentos parece sair uma fumacinha do cérebro e ai de quem passar pela frente. Maldita hora (às vezes, literalmente) em que o cérebro vê suas expectativas positivas serem afundadas, uma a uma: o telefone não volta a funcionar, revela-se impossível reunir a papelada necessária para emplacar o carro e nada de passeio com a família no fim de semana.
É isto a frustração: a sensação negativa, física e mental, com que o cérebro registra o não cumprimento de uma expectativa positiva (ou mesmo várias, de uma só vez). Mas, por pior que seja o sentimento – na verdade, justamente por ser ruim –, ele tem sua função. Acusar com indignação que o esperado e aguardado não aconteceu é tão importante quanto registrar com prazer o cumprimento de uma expectativa positiva, função do sistema de recompensa.
É assim que aprendemos com os próprios erros, falta de preparação, expectativas infundadas, ou a dura realidade da vida, mesmo. A frustração é o sinal para que o sistema de recompensa atualize suas expectativas. Por sinal, vem daí nossa predisposição para achar que, após a primeira frustração, todo o resto também dará errado: de um estado otimista, animado por expectativas positivas, o sistema de recompensa passa ao pessimismo. Alimentada pela frustração, a nova expectativa é que tudo o que pode dar errado… dará errado.
Funciona como um sistema de autossabotagem. Frustrado e cheio de expectativas negativas, seu cérebro acaba poluindo suas emoções com mau humor e suas ações com agressividade, e colocando palavras grosseiras na sua boca, que não o ajudam em nada a ser bem atendido ou receber ajuda e solicitude dos outros. Assim como gentileza gera gentileza, frustração gera frustração, e expectativas negativas fomentam resultados negativos.
A não ser que… você consiga usar aquela outra capacidade extraordinária do cérebro, o insight; se flagrar em plena espiral descendente de autossabotagem; e virar o jogo a seu favor. Como? Encontrando, a jato, outras fontes de satisfação.
Por exemplo, um sorvete de chocolate na saída do banco. E puxa, sua loja favorita voltou a ter aquele casaquinho lindo, vermelho, que você deixou de comprar meses atrás. E por fim, você lembra que adora seu carro novo, as montanhas não sairão do lugar tão cedo, e aliás, seu carro agora toca música do seu iPod – por exemplo, aquela hilária, dos anos 80, que você volta para casa cantando às gargalhadas, berrando sozinha dentro do carro o refrão mais inusitado da história da MPB, imortalizado por Fausto Fawcett: “Calcinha!”. Não há frustração que um bom prazer alternativo não cure.
Fonte: www2.uol.com.br
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