Eu vou me virando como posso. Viro um bocado de coisas boas. Viro um trabalho para fazer. Final de tarde eu viro a inocência de uma criança, muito feliz pelo dia que se foi. Logo cedinho eu viro moça direita com uma pilha de tarefas e sonhos guardados por falta de tempo. Viro gente grande de roupa engomada e salto alto diante das responsabilidades.
Viro moleca lambuzada de sorvete, quando ganho uma batalha. Viro noturna silenciosa, quando cai a noite e a solidão toma conta de mim. Viro saudade de uma cor amarelada com vocação para a tristeza daquilo que não posso mais viver.
Viro romântica apaixonada quando o amor me intima com sua presença poética. Viro a manhã seguinte, anunciando um ciclo novo e cheio de esperança para um projeto bacana. Viro amiga dando colo pra quem gosto. Viro gata manhosa quando bate a carência. Viro ironia pra tristeza, enjoada para o cansaço, impaciente para a injustiça, ausente para a maldade, liberal para os desejos e teimosa para a fé.
Viro ousada para o inesperado. Curiosa para o futuro. Louca para a felicidade. Viro uma ciranda de cores para todas as minhas vontades. Viro testemunha para a alegria. Viro onça. Gigante. Viro menina insegura para quem se foi sem minha vontade. Viro tudo. Viro nada.
Viro dona do mundo pelos meus direitos. Viro indomada para a falta de solidariedade. Viro a mesa por causa da monotonia. Viro a cara por chateação. Viro meiga quando quero. Amante quando sou seduzida. Viro o caos ou a solução, dependendo da ocasião.
Se me faltar alguma coisa eu ainda viro a noite. Viro dia. Viro açúcar. Viro sal. Viro lua. Viro estrelas. Viro alguma coisa muito boa. Viro os olhos pra ternura. Viro a cabeça para o mundo. Viro afeto. Viro um pote de brigadeiro.
Viro amor e pode ser que misturando tudo eu acabe virando poeta. Caso a rima não dê certo, viro um enorme girassol despontando no jardim anunciando que cheguei. Corro o risco, viro tudo, viro o universo, viro eu, viro o mundo.
(Autora: Ita Portugal)
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