Filmes e Séries

A noiva cadáver e o amor na psicologia analítica

A Noiva Cadáver é uma animação de 2005 produzida por Tim Burton. A historia do filme é baseada em uma lenda russo-judaico do século XIX e é ambientada em uma fictícia Inglaterra da era vitoriana. A animação se inicia mostrando o jovem Victor Van Dort filho de novos ricos comerciantes de peixe, destinado a casar-se com Victoria Everglot, filha de aristocratas falidos, em uma pequena aldeia inglesa.

A ideia de um casamento arranjado angustia a ambos. Victoria se preocupa com o fato do noivo não vir a gostar dela. Instintivamente eles sabem que o amor é uma escolha pessoal e não um arranjo dos pais para se projetarem socialmente. E é em torno do tema do amor e união que o filme se baseia.

O amor para a psicologia analítica é um grande impulsionador do processo de individuação. Por meio dele há o encontro com o outro, que nos transporta para uma dimensão mais profunda de nós mesmos. Por essa razão o amor é pessoal, pois nos impulsiona a nos conhecermos e a sairmos de casa em busca da autonomia

.

Mas Victor e Victória se apaixonam e desejam realmente se casar. Mas como na vida real o amor causa medo, por se tratar de uma força transcendente, maior que o ego humano e assim Victor se amedronta e arruína o ensaio de casamento, o que o leva a ir tentar repetir os votos, sozinho, na floresta. E assim ele repete incansavelmente os votos sem sucesso. No entanto, no momento em que alcança a perfeição, finaliza colocando a aliança no que parece ser um velho galho em forma de mão, mas que na verdade é o braço esquelético de noiva cadáver.

A noiva então toma forma e sai do mundo dos mortos. Convencida que Victor lhe acabara de pedir em casamento, leva-o para o mundo dos mortos, onde este lhe tenta escapar, sem sucesso. Podemos observar na animação a presença da influencia de aspectos de dois contos de fadas. O primeiro que podemos observar é a lenda da Mulher esqueleto, que conta a historia de uma jovem morta por seu pai que é trazida a vida por um pescador.

Essa lenda foi analisada por Clarissa Pinkola Éstes no livro Mulheres que Correm com os lobos, e lá a autora enfatiza a importância da morte no relacionamento amoroso. Com ela, aprendemos quando um ciclo deve ou não morrer dentro do relacionamento.

A mulher, assim como a anima (componente feminino na psique do homem), diferentemente do masculino, está a serviço da vida. A anima liga o homem à vida. Nos contos onde existe a figura daanima, esta raramente aparece sob um aspecto inteiramente mortal; pois ela é, acima de tudo, o arquétipo da vida para o homem (Von Franz, 2005).

Von Franz (2002) também aponta que uma anima no aspecto negativo provoca no homem uma espécie de apatia, um medo a doenças, à impotência ou a acidentes. A vida adquire um aspecto tristonho e opressivo. Este clima psicológico sombrio pode, mesmo, levar um homem ao suicídio, e a anima torna-se então o demônio da morte.

Esse aspecto é trazido por uma relação negativa com a mãe, uma vez que o caráter dma a anima, em geral é determinado pela relação do homem com a mãe. Se o homem sente que a mãe teve sobre ele uma influência negativa, sua anima vai expressar-se, muitas vezes, de maneira irritada, depressiva, incerta, insegura e susceptível (Von Franz, 2002).

Na animação observamos que Victor carrega esse aspecto depressivo, inseguro e melancólico e que a relação com o aspecto negativo com a anima – em forma de morte -transforma sua personalidade, deixando-o mais seguro para um casamento e a formação de uma família. Victor passa por uma espécie de rito de iniciação, onde encara a morte de frente para  que sua infantilidade morra e assim se transforme em homem responsável.

Outro aspecto que essa mulher-morte nos apresenta é o medo aterrorizante que o ato de apaixonar-se causa. Ao se apaixonar por Victoria o terror tomou conta de Victor. O amor tem mesmo esse caráter monstruoso. No mito de Eros e Psique, o deus do Amor é tido como um monstro e Psique ao se casar com ele é levada por seu pai, como se fosse entregue a morte. Esse sentimento de terror e cegueira da paixão, Éstes (1994) descreve de forma intensa, na lenda da Mulher esqueleto:

“Ele não se dá conta de estar trazendo à superfície a criatura mais apavorante que jamais conheceu, de estar trazendo mais do que ele tem condição de manejar. Ele não sabe que terá de se entender com a criatura, que está a ponto de ter todos os seus poderes testados. E o que é pior, ele não sabe que não sabe. É esse o estado de todos os apaixonados no início: são todos cegos como morcegos.”

Éstes (1994) também aponta que a natureza da morte tem o estranho hábito de surgir nos casos de amor exatamente no instante em que temos a sensação de ter conquistado alguém, exatamente quando sentimos que fisgamos “um peixe grande”.

Isso ocorre, porque o amor é uma força transcendente, que abarca e engole o ego. Eros, o amor, é um forte agente da operação alquímica solutio (Erdinger, XX) e o ego nesse processo pode sentir como estivesse afogando e prestes a morrer, diluído no mar de sentimentos e afetos. Pois bem, Victor está no mundo dos mortos tentando escapar quando ficamos sabendo da historia da Noiva Cadáver, que se chama Emily. A moça se apaixonou e foi noiva de um jovem chamado Lorde Barkis, um estranho que enriqueceu após matar Emily, ficando então com o seu patrimônio.

Victor também descobre que Victoria irá se casar com Barkis forçada pelos pais, que acreditam que ele seja rico. No entanto, ele gastou o dinheiro de Emily e intenciona fazer o mesmo com Victoria. Vemos aqui referências a outro conto famoso: O Barba Azul. Diz a lenda que as freiras guardavam a barba no convento e que essa barba pertenceu um dia a alguém de quem se dizia ser um mágico fracassado, um homem gigantesco com uma queda pelas mulheres, um homem conhecido pelo nome de Barba-azul.

Barba Azul é um homem rico e sedutor que matava suas esposas e guardava seus corpos em um quarto, até que um dia uma jovem recém casada com ele descobre seu segredo. Conforme Éstes (1994) Barba Azul nos dá a idéia exata do que fazer a respeito de um ferimento que não pára de sangrar, pois a chave do quarto dos corpos não parava de sangrar. Lorde Barkis é análogo ao Barba Azul. No conto não se tem o motivo da matança, mas na animação Barkis é movido pelo dinheiro, ou seja, pelo poder.

Na Psicologia Analítica, o animus (personificação masculina do inconsciente na mulher), apresenta, assim como a anima no homem, aspectos positivos e negativos. No seu aspecto negativo ele se aproxima do arquétipo da morte, ou do assassino, sendo O Barba Azul, um representante desse aspecto sombrio doanimus.

Von Franz (2002) diz sobre essa manifestação:

“Sob esta forma, o animus personifica todas as reflexões semiconscientes, frias e destruidoras que invadem uma mulher durante as horas da madrugada, especialmente quando ela deixou de realizar alguma obrigação ditada pelos seus sentimentos. É então que ela se põe a pensar nas heranças de família e outros problemas do mesmo tipo — tecendo uma espécie de rede de pensamentos calculistas, de malícia e intriga, que a leva até mesmo a desejar a morte de outras pessoas.

É importante notar, e a animação mostra isso de forma bastante clara, que as figuras de anima eanimus são ativadas no momento da paixão. Esses aspectos negativos, sombrios e destrutivos vêm a tona, pois precisam ser compreendidos, integrados e diferenciados. Por essa razão o amor e a paixão causam tanto medo.

O pavor é causado pela não compreensão e pela inconsciência. Muitos fogem e se eximem de viverem essa experiência, fogem de medo, pois a sombra da morte está se aproximando. Mas essa é uma morte simbólica. A morte de aspectos do ego ainda infantilizados e presos em figuras parentais. Victoria, assim como Victor, cai presa na armadilha do animus negativo, ao se apaixonar. Ela precisará encará-lo, pois foi criada com pouco calor afetivo, pouco Eros, pouco sentimento. Sua mãe é uma mulher poderosa, rica e dominada pelo poder.

Os contos de fadas, que abordam o aspecto do animus, mostram que a mulher precisa cair presa dele para que possa desenvolver uma feminilidade mais profunda, um senso de valor a respeito dos seus sentimentos para conseguir “bancar” a escolha do parceiro. Victor, então ao saber do casamento de Victoria, decide se casar com Emily, abdicando assim da própria vida.

Ao decidir casar com a Noiva Cadáver, Victor desenvolve por ela sentimentos, como a compaixão. A história da Noiva Cadáver, assim como a da Mulher-esqueleto é uma dentre muitas histórias universais de “teste do pretendente”. Observamos esse teste em outros contos em que o belo assume a aparência de feio e monstruoso com o objetivo de pôr à prova a personalidade de alguém. Exemplo disso é A Bela e a Fera.

Éstes (1994) diz que em uma história desse tipo, os amantes precisam provar sua boa intenção e seu poder, demonstrando geralmente que têm os cojones ou ovários para encarar alguma força numinosa mais poderosa e assustadora, que transcende o ego humano. Victor fugiu dela, mas agora cogita se entregar a ela. Ela toca o coração dele e desperta o mundo dos sentimentos nele. Ele se enche de coragem, encara seus medos e passa no teste. Ele (e Victoria também) passa a entender que existe beleza no compromisso, e que o amor também é permeado pela realidade do dia a dia e que não é apenas romance.

Emily é então o símbolo de cura para o casal. Ao aceitar o sacrifício e a presença dela, Victor ganha a vida e é liberado do seu sacrifício. Aceitar a morte nos traz a vida. Ele então se torna o herói, salvando Victoria e dando a Emily a paz de espírito que tanto buscava. A vingança almejada.

Victor e Victoria podem se unir de forma mais amadurecida, ambos foram tocados pela morte, suas personalidades amadureceram, eles se afirmam diante dos pais, bancando o amor que sentem um pelo outro. Não precisam mais seguir convenções da sociedade e da família, dando assim,um grande passo rumo a individuação.

(Fonte: http://encenasaudemental.net/cinema-tv-e-literatura/a-noiva-cadaver-e-o-amor-na-psicologia-analitica/)

Hellen Reis Mourao

Hellen Reis Mourão é analista Junguiana e especialista em Mitologia e Contos de Fadas. Atua como psicoterapeuta, professora e palestrante de Psicologia Analítica em SP e RJ. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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