Categories: Cotidiano

Outdoor

Somos bombardeados por informações nas quais não estamos interessados. Mesmo assim, elas nos chegam sem pedir licença, interferindo em nosso raciocínio, manipulando os nossos desejos e nos deixando com cara de quem precisa de alguma coisa que não tem.

É o corpo de modelo, a viagem mais descolada, o emprego mais cobiçado, o carro do momento, a mansão mais confortável, a posse da sensualidade desmedida, que somente será alcançada com as roupas mais caras e outros apetrechos afins.

Sim, é claro que todos gostamos de ter um corpo bonito, de vestir roupas que combinem com nossa personalidade, de viajar para lugares mágicos que ainda não conhecemos. Gostamos de carrões também. E sim, sentir-se sensual é algo que nos faz bem, eleva a autoestima, a autoconfiança e nos dá prazer.

O problema não é esse. O problema é a ideia de que só seremos felizes, que só nos realizaremos como pessoas se tivermos tudo isso. E, de preferência, ao mesmo tempo. Outro problema é a concepção que nos trazem a respeito desses bens tão desejados. O que é ser belo, sensual? Será que a beleza padronizada é a única passível de contemplação? Que tipo de casa nos deixará mais satisfeitos? A enorme mansão cuja manutenção nos exigirá mais do que podemos, financeira e emocionalmente, ou uma casa menor cujas dimensões possam unir melhor os membros da família?

Bem, de forma consciente, cada um terá uma resposta diferente para todas essa indagações. E isso é bom. O ruim é quando não percebemos. O ruim é quando engolimos a comida, sem nos darmos conta de que estamos sonhando com uma vida que não é nossa, e ainda que a nossa seja a melhor que possa existir para cada um de nós.

O ruim é quando somos invadidos por um outdoor, no meio do trânsito infernal, que nos faz acreditar que o carro que nos carrega é excepcionalmente inferior àquele que não podemos comprar. O ruim é quando a vida dos outros é sempre melhor; quando erroneamente acreditamos que não somos capazes de seduzir o namorado, a namorada, o marido, a esposa ou quem quer que seja. E que nunca seremos, pasmem, amados porque não temos o corpo escultural, segundo os padrões da mídia.

O ruim é quando queremos a mansão e o carrão, sem os quais não poderemos atingir a plena satisfação, a qualquer preço. Vale dizer, a preço de perder os melhores momentos de nossas vidas nos lastimando com aquilo que não temos ou, então, nos arrastando em trabalhos, realmente homéricos, para comprar aquilo que não precisamos e que nos retiram a convivência com aqueles que mais amamos na vida.

Enfim, a casa será adquirida. O carro novo já está na garagem. Mas o tempo…

Ah, o tempo não volta.

 

Regiane Reis

Mestre em Direito Constitucional. Autora do livro "O empregado portador do vírus HIV/Aids". Criadora do site pausa virtual. "Buscando o autoconhecimento, entendi que precisava escrever sobre temas universais como a vida, o amor e a fé". É colunista do site Fãs da Psicanálise.

Recent Posts

As suas necessidades não são as dos outros

Suas prioridades não são as dos outros. Suas verdades não são as dos outros. Então…

4 semanas ago

Quando nosso cérebro escolhe não sentir para não sofrer

O sofrimento não é uma escolha pessoal; ninguém escolhe a dor ou o isolamento emocional…

1 mês ago

Uma doença pouco conhecida que pode ser confundida com preguiça

Prolongar o tempo na cama por mais alguns minutinhos, logo após acordar, ou tirar algumas…

2 meses ago

Pare de mimimi e vá à luta!

Forças malignas sempre te impedem de cumprir prazos? Entrar no mestrado está sendo mais difícil…

2 meses ago

Os 5 Sinais do Transtorno de Ansiedade Generalizada

Ficar nervoso ou ansioso em algumas situações da vida como, por exemplo, antes de uma…

2 meses ago

Gentileza é a gente deixar o outro ser de carne e osso

Gentileza gera gentileza. Pois é, mas acho que ser gentil não é ser bem educado,…

2 meses ago