Categories: Terapia

Que fim levaram os maníacos?

Quando a loucura se tornou objeto da consciência médica, em meados do século 18, ela era reconhecida, sobretudo, como uma forma de mania. Hoje, quando falamos que alguém tem uma mania, é apenas um modo de dizer que está apegado demais a um tema, assunto ou ideia.

Em uma época na qual nossa liberdade se define cada vez mais como uso desimpedido de nossos gostos, a mania quase se despatologizou. Por outro lado, o termo está reservado para um grau mais grave e elevado de inconveniência e periculosidade, presente na expressão “maníaco”.

A melancolia-mania tem uma origem grega, assim como a esquizofrenia-paranoia vem do universo judaico-cristão. Ela implica, de certa forma, alguém estar possuído pelos deuses sem perder sua humanidade.

Em seu Tratado médico filosófico, de 1801, Pinel distinguia entre os alienados que perderam a razão e os maníacos intermitentes, ou seja, aqueles para os quais não há nenhuma anomalia na qualidade no pensamento, na imaginação, na percepção ou na memória, mas apenas alterações quantitativas. Seu discípulo Esquirol acentuou essa diferença ao postular a distinção entre a lipemania (depressão) e as monomanias (delírios temáticos).

Logo em seguida, Jean-Pierre Falret mostra que depressão e mania formam um mesmo quadro, chegando à ideia de loucura circular, consagrada por Kraeplin, em 1889, como loucura maníaco-depressiva. Assim como a depressão, só que como seu contrário estrutural a mania acelera, intensifica ou adensa uma forma de vida que já estava lá, tornando-a mais vibrante. Ela não transporta o sujeito para outro mundo, mas faz com que esse mundo seja retinto de cores e brilhos, como que animado pelos deuses.

Uma descrição parcimoniosa de uma crise maníaca poderia ser a seguinte: a pessoa adquire um senso de ligação ou conexidade entre coisas, pensamentos e afetos. Isso a torna destemida e decidida habilitando-a a correr riscos e empreender desafios improváveis. Ao mesmo tempo, ela sente uma disposição inexaurível para o trabalho e uma implicação extremamente pessoal e envolvente em tudo que está fazendo. O ritmo de vida se acelera. O sono se torna quase desnecessário.

Caminhos e relações que não deram certo rapidamente são abandonados, sem custo, pois o importante é o futuro.  Sua atenção é ao mesmo tempo muito focal e periférica, e sua confiança em si, inabalável. Ela adquire uma alta estima invencível, um senso de produtividade aumentado e uma elevadíssima proatividade sentindo que a vida e o mundo lhe reservam com um destino grandioso.

Mudando um pouco os termos, é tudo o que um empregador gostaria de ouvir na entrevista de seleção de pessoal, com um bônus: é tudo verdade. Ou pelo menos o sujeito acredita e pratica o que diz, apesar das consequências desastrosas que uma atitude assim pode trazer. É o que se espera de nossos alunos, sem nos darmos conta de quanto isso é opressivo. O modelo redivivo e feliz do indivíduo empreendedor, e de seus ideais devastadores.

A máscara mais desejável para vestir em nossos amores e amigos que nos colocam “para cima”. O mandamento laico que se encontrará em todos os manuais de autoajuda e gestão organizacional. Todos estes que nada querem saber do terrível “amanhã” depressivo que espreita a mania. Ou seja, hoje a mania perdeu toda dignidade, restando-lhe esse estranho título de bipolaridade, apenas porque ela se tornou modelo e razão de nossa normalopatia.

(Autor: Christian Dunker)

(Fonte: Este artigo foi publicado originalmente na edição de março de Mente e Cérebro)

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