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Quem tem medo do Coringa?- Um olhar psicanalítico sobre o filme

“Você não escuta o que eu digo. Sempre pergunta como eu me sinto, se tenho pensamentos ruins. Eu sempre tenho pensamentos ruins. Sempre me senti como se não existisse. Você não me ouve”.

Nos personagens do Batman, a maldade tem enredo e no filme do “Coringa”, em cartaz nos cinemas, a interpretação de Joaquin Phoenix, traz um discurso que devia servir de advertência para entendermos o que acontece quando deixamos de cuidar da saúde mental.

No filme, os ricos vivem em lugares belos e seguros, enquanto os pobres vivem em meio ao lixo, ratos e violência.

O personagem principal, apesar de chamado de feliz pela mãe, é o “homem da casa”, mora na periferia com a mãe doente e trabalha como palhaço. Nas cenas parece estar sempre a beira de cair, tentando se equilibrar, sempre por um triz. O corpo é estranho, mas não é somente alguém que ri e faz os outros rirem das suas inadequações, mas um errante, desvalido, sendo mais um personagem trágico do que cômico.

Ao longo do filme vai tendo notícias sobre si mesmo, como sobre adoção e abusos da infância. Há uma realidade violenta que o constitui. “O Coringa” não é a história de alguém tentando sobreviver à síndrome pseudobulbar, mas sobre alguém a margem de tudo, sem esperanças de ser ouvido, além de vítima do sistema.

Arthur é branco, violentado, que busca ser aceito, não admite ser chamado de palhaço, assim não é aquele vilão clássico e mecânico, nem um filme cheio de efeitos especiais.

O filme ilustra sobre os tratamentos e a degradação desses dispositivos quando subitamente são retiradas sete medicações, os conselheiros que mais parecem robôs protocolares e que são incapazes de escutar Arthur. A escuta, que poderia ter sido uma grande proteção, não houve.

Muitas vezes, os transtornos mentais não constituem uma ameaça ou uma condição perigosa em si, contudo merecem atenção. Quando deixamos de cuidar da saúde mental, ignoramos sua importância na vida atual e no futuro, assim aquilo que poderia não ser tão grave, em si, vai progredindo e toma uma força devastadora.

Arthur gargalha, mas nunca tem graça.

“É muito difícil tentar ser feliz o tempo inteiro. Eu nunca fui feliz nesta minha vida desgraçada. Lembra quando você dizia que meu riso era um distúrbio? Eu descobri que não é, eu sou assim mesmo”

Acima de tudo é um personagem que reinvindica por amor. Quantos Coringas não estão perto de nós?

Mariana Pavani

Psicóloga, estudante de Psicanálise. Colunista do site Fãs da Psicanálise.

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