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Venenos

Quanto de veneno é preciso beber para saber que para curar-se basta parar de bebê-lo? Que não me seja desta vez a dose fatal. Será a cor do sangue que verte ou o profundo dos abismos aquilo que me despertará? Pois ignoro o aviso urgente das tonalidades. Qual será o degrau a iminência da queda? Pois os arrependimentos sempre me aconteceram tarde. Colecionei culpas e sufoquei alegrias. Acumulei tristezas e boicotei amores. Das dores distraí-me com outras e estas outras anestesiaram-me a vida. Os ressentimentos todos que guardei nos silêncios engessaram-me gravemente os papéis. Aliás, quantas violências permitimos após as primeiras? E qual delas servirá para estilhaçar de vez a autoestima? E o que mais então nos faltará para convocarmos o medo? Afinal, qual o preço que pagamos para quitar nossas ruínas? Confesso, adoeci severamente de mim mesmo. E o que ando a fazer? Curar-me usando de pontos finais nas histórias passadas que hoje encerro para salvar o protagonista. Assim não saberá a loucura ou o desespero os meus rastros. Será o tempo exato a mudar-me e não ser por eles encontrado: alterar o endereço das prioridades, descolorir os lados escuros de dentro e por-me inteiro do avesso. Quanto de vida apodrecida e sentimentos mofados não engoli! Poderia eu esperar por menos para limpar-me senão por agudasdores de parto das mágoas e raivas acumuladas que trago à tona para com a anuência do meu autoperdão poder cada uma delas matar e jogar no lixo? O que não descartei tornou-se poema triste e outros tristes sintomas. Enfeitei-me de feios frutos das minhas desordens somente para não aceitar minhas misérias. Compareci às festas fingindo equilíbrio. Acenei com charme pela janela apoiado nas angústias.
O lirismo tornou-se a beleza das tragédias. Para não aceitar minhas fraquezas, calei sofrimentos deixando-os somente falarem por versos. Amontoei rancores e orgulhos trincados por não me permitir ser outro. Creditei-me herói contra vilões que criei apenas para acreditar-me herói. Fechei os olhos para sombras e não enxerguei saída através da minha própria luz. Por isso quase me acabei num definitivo inverno a ouvir para sempre apenas meus próprios ecos. Mas quão generosa tem sido a vida a reensinar-me a não convocar tristezas, dispensar medos antes de quaisquer amanhãs e conjugar velhos erros somente na memória e não mais no coração.
Por ter o sofrimento tirado-me da órbita, trouxe-me a esperança novamente pro eixo.
Guilherme Antunes

Poeta, escritor e colunista do site Fãs da Psicanálise.

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Guilherme Antunes

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