É comum dizermos palavras pequenas quando o outro precisa de coisas maiores de nós. É comum colocarmos a aflição do outro na fila de espera enquanto carregamos a nossa. É comum passarmos por cima das dores do outro com as nossas próprias enquanto não paramos de perder a oportunidade de sermos amorosos.
Às vezes nosso egoísmo entende o que o outro é como ameaça; às vezes nossas raivas enxergam o que o outro não é como inimigo, e tudo por conta da semelhança dos sintomas que apresentam e que convocam aquilo que também nos falta para estarmos presentes e lidarmos. Talvez, por isto, seja mais simples medirmos o outro a partir do que não nos fará sair perdendo. Talvez, por isto, seja mais simples olharmos o outro a partir de nós mesmos, onde o outro sempre será o outro.
Por isso se faz essencial não buscarmos sempre entender ou analisar a dor do outro, mas sermos para ele aquilo que precisamos ser; aquilo que precisamos ser para nós mesmos: sujeitos de compreensão e compaixão. Ou do contrário gritarão nossas feridas, quando é a ferida do próximo quem tanto precisa dialogar. Ou do contrário aproveitaremos o momento do outro para expormos o nosso.
Parece-me que pela guarda baixa do outro aproveitamos para nos sentirmos um pouco melhores – ou menos piores – do que estamos, e por indigna comparação. Às vezes falta perceber que podemos nos deixar para depois para darmos a vez. A nossa mesquinhez veste-se com boas roupas apresentando-se com outros nomes para não nos sentirmos, assim, tão mesquinhos. E quando a deixamos de escolher, quando o outro mais precisa de nós, nós mais precisamos do outro: para lembrarmos que só somos amor quando na prática. E que sendo amor tornamo-nos via de mão dupla.
Às vezes quando mais precisamos de uma mão estendida é a nossa própria mão que devemos estender.
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