O processo de desfralde ocorre por volta dos 2 anos para as meninas e 2 anos e meio para os meninos, não sendo o mesmo uma regra, mas um parâmetro do desenvolvimento infantil. O que denota que a criança encontra-se pronta ao início deste aprendizado é a parte muscular da região denominada esfíncteres. Pode-se perceber que esta maturidade muscular ocorreu quando a criança consegue caminhar um trajeto com mais de 3 passos de forma agachada (igual patinho), ou como cita alguns pediatras, subir e descer mais de 5 degraus, sem segurar-se no corrimão, objeto ou pessoa em uma escada desconhecida da rotina da criança.
Importante ressaltar que o desfralde é um momento de grande aprendizado para as crianças e pais, visto que é uma marca social: deixar de usar fraldas significa passar de bebê à criança e essa nova situação modifica a relação familiar.
Sendo este um aprendizado exigido pela sociedade, é necessário que os pais, responsáveis e educadores tenham conhecimento que é algo que irá contra os instintos. Assim, a criança só solicitará a utilização do banheiro depois do aprendizado já sedimentado. Neste sentido, o adulto deve lembrar a criança de utilizar o banheiro, ou dito de outra forma, o adulto deve oferecer, acompanhar e aguardar que a criança faça as suas necessidades fisiológicas no banheiro em intervalos de 20 minutos e para que este seja um aprendizado harmonioso, a tranqüilidade deve vir do adulto. A assimilação desta rotina ocorre em tempo variado, mas dificilmente antes de 3 semanas. Após a criança ter se habituado a solicitar o banheiro e a controlar os esfíncteres, esse hábito será incorporado ao período da noite. Assim, a fralda torna-se desnecessária quando a criança passar a acordar com a mesma seca por vários dias. Com estimulação por parte dos pais com palavras de incentivo, este processo tende a ser mais rápido. Vale ressaltar que para ajudar o desfralde noturno, deve-se diminuir a ingestão de líquidos após as 18:00 horas.
Aos 2 anos, a criança já possui controle de muitos movimentos como subir, descer, escalar, jogar, correr, parar, segurar algum objeto por um tempo prolongado (dependendo da sua intenção para com o objeto), conter, executar curvas mais fechadas durante a corrida, etc. É uma idade na qual ela só aprende mexendo e se movendo. O parar, seja para ir ao banheiro, almoçar ou dormir é contra os seus impulsos. Assim, embora pare para ouvir o adulto, principalmente no momento de escutar histórias, ou ver televisão, são paradas momentâneas. Apesar do crescente controle de seu corpo, ela não deixa de ser impulsiva. Essa impulsividade só diminuirá com o crescimento e conseqüente aumento da idade, se tiver uma organização familiar e escolar adequada, com regras e limites esclarecidos e coerentes.
Devida ao maior controle muscular e cognitivo, crescente organização de seus pensamentos e compreensão de mundo, juntamente ao momento do desfralde, a criança passará a tentar controlar o outro para agir conforme seus desejos através de suas atitudes. Se ao “fazer” a birra, ela conseguir uma atenção maior de seus educadores do que quando está brincando adequadamente, utilizará a birra como forma de controle. Cabe então ao professor valorizar os momentos das brincadeiras, enriquecer e mostrar a criança suas conquistas obtidas.
A birra é um comportamento no qual o corpo se move e grita como conseqüência de toda uma sensação fisiológica de agitação. A criança quando está em birra, sente o mesmo que um adulto que quase provocou um acidente de carro, seu corpo pulsa, mas não pensa. Assim, é importante o adulto esperar passar a birra, não dando atenção a cena a qual a criança faz, ou contê-la num abraço firme, mas sem machucar, falando baixo, explicitando que aquela situação não auxilia a ninguém, que conversando haverá possibilidade de ela conseguir o que deseja, que nem o adulto quer machucá-la e não permitirá que a criança se ou o machuque. Depois de acalmar-se, deve-se conversar calmamente com a criança, questionando-a e aguardando até que ela se comprometa verbalmente em não repetir tal situação, bem como estabelecer, pensar e programar outras formas de resolver situações similares. Se possível, refazer a ação que ocasionou a birra juntamente com a verbalização do que está acontecendo e organizando o comportamento da criança de forma que ela consiga explicitar o que deseja e que o adulto mostre o porquê da não autorização da satisfação da vontade imediata da criança.
Em muitas ocasiões a criança repete que fará novamente a situação ou silencia. Nestes momentos é preciso que o adulto permaneça firme e demonstre que enquanto o infante não se comprometer verbalmente, ambos não brincarão novamente. Logicamente que esta situação demanda de um tempo que nem sempre o adulto tem. Desta forma, é importante que se a situação não se resolveu no instante, assim que o reencontro ocorrer, retome a situação para que a mesma se ajuste e ocorra o comprometimento verbal da criança. Exemplo: se a criança fez birra porque queria um doce antes da refeição e por este motivo jogou um talher no chão, após reencontrar a mesma em casa, o pai deve sentar-se a frente da filho, relembrar o que aconteceu e perguntar se a criança jogará novamente o talher quando ela quiser um doce. Se a criança responder simplesmente com um gesto de não, ou falar somente a palavra “não”, o adulto deve-lhe dizer que somente entenderá quando ela falar com palavras e a frase completa (eu não vou jogar o talher quando quiser doce). Depois da frase o adulto deve esclarecer quais objetos pode-se jogar (bola, bexigas, etc) e quais não se pode jogar (talher, pratos, vasilhas, brinquedos, comida). Ressalta-se que não se pode falar pela a criança, mesmo que ela demore a falar ou busque desviar a atenção, pois deve-se alertá-la que ambos não sairão daquela conversa até a criança comprometer-se.
As diferentes estratégias de conversa e a sinceridade do adulto quanto ao comportamento que ele espera de seus filhos e ou alunos facilita a relação entre ambos. Ressalta-se também que a criança organiza a compreensão de mundo e amplia seus conhecimentos muito intensamente pela linguagem recebida através da fala do adulto e de suas expressões. Desta forma, tudo que lhe for comunicado com antecedência, facilitará a ambos a organização interna e de seus pensamentos e ampliará suas compreensões. Exemplo disso, quando se for a um passeio, dizer para a criança que depois do almoço, pais e filhos escovarão os dentes, trocarão de roupa, pegarão o carro, chegarão ao local. Lá brincarão de bola, brincarão de correr, tomarão água de coco e voltarão para casa (felizes) sem brigar para que o passeio seja bem legal. Depois que terminar de falar, os pais devem perguntar a criança o que eles farão para ver a compreensão da mesma, bem como ao que ela está se comprometendo em fazer.
Para controlar o ambiente, inicia-se um período conhecido como “Fase da Oposição” que possui como característica essencial a criança negar a tudo, inclusive a alimentos e situações que até então aceitava e apreciava. Essa negação ocorre por duas especificidades: para a criança se diferenciar do adulto ela necessita opor-se ao mesmo, bem como encontrar a sua posição no seio familiar e estabelecer o seu lugar na sociedade. Neste diferenciar-se do outro, tentará impor a sua regra que ainda é regida pelo impulso e pelo desejo imediato. Importante ressaltar que se lhe é demonstrado que todos seguem regras dentro da família, constituir-se-á um ser que compreende a sua regra, a regra da sociedade e saberá como utilizar os limites sociais instituídos a seu favor, porém sem desafiá-las ou estando ciente e assumindo as conseqüências. Se há uma idade adequada para o desafio das regras sociais, esta é a idade dos 2 anos. O término desta fase depende muito de como a família estabelece e cumpre os limites estabelecidos. Caso ocorra de um dos pais estabelecer um combinado e o outro flexibilizá-lo, a criança ficará confusa e continuará desafiando ou se opondo as regras, justamente porque não percebe a importância da mesma. Quando ambos os pais cumpre as regras estabelecidas e não as flexibilizam, a criança terá mais facilidade em superar esta fase, bem como ter maior facilidade no convívio social.
Devido a ser uma etapa bastante complexa, inclusive pelo intenso desenvolvimento cerebral, ocorrem também alterações no sono, no qual a criança passará a sonhar muito, e por estar estimulada a ater-se às sensações esfincterianas, essas sensações lhe trarão um estágio no qual não estará nem dormindo e nem acordada, inclusiva abrindo às vezes os olhos e percebendo sombras visuais ou auditivas que a assustará, desencadeando assim o “Terror Noturno”, termo este utilizado para explicar as situações em que a criança acorda aos gritos, ou expressa os mesmos dormindo. Nestes momentos é de vital importância que o responsável a acalente e lhe transmita segurança. Em outro momento em que haja um tempo maior, preferencialmente durante o dia, o adulto pode explicar-lhe o que significa o sonho e para facilitar, brincar mais intensamente neste recinto, relatando o nome dos objetos que compõem o mesmo, bem como da sensação prazerosa de brincar naquele ambiente. Essas alterações no sono da noite, muitas vezes influenciam no humor da criança durante o dia e para que isso não provoque mais situações que disparem as birras, é preciso que o adulto atenha-se a este período de sono quanto à qualidade e quantidade do mesmo. Há algumas crianças que dorme com os olhos entreabertos e possuem boa qualidade de sono, mas é importante relatar esse aspecto ao pediatra, visto que pode ser um sintoma importante.
As alterações de humor também são expressas pelo sentimento de vergonha e medos, nos quais a criança utilizar-se-á de qualquer nomenclatura para expressar seu sentimento. A vergonha é importante para que o ser humano não se exponha a episódios constrangedores e para que a criança supere esse sentimento, no momento em que o demonstra, é imprescindível que o adulto a acolha e ressalte pela linguagem; exemplificando: se ao entrar no elevador ou ao receber uma visita, a criança demonstre vergonha em cumprimentar a pessoa, o responsável deve acolhê-la falando que em dias anteriores, a criança cumprimentava as pessoas e em momento seguinte, voltará a fazê-lo.
Em relação à alimentação, as recusas devem ser tratadas com firmeza, pois se a criança deixar de comer uma refeição e não receber outro alimento no lugar, após sentir fome comerá o que lhe for oferecido e não pulará mais as refeições. Ressaltas devem ser feitas, caso haja indisposição física!
Cuidados importantes no processo de desfralde:
– Ter de forma bem esclarecida que o desfralde é um processo de aprendizado individual e depende da orientação do adulto.
– Oferecer a ida ao banheiro de 30 em 30 minutos, de preferência com algum atrativo. Neste sentido, sugere-se livros que fiquem somente no banheiro, adesivos (deixando a criança tirar os mesmos da cartela, pois esta também será uma atividade que fará com que ele permaneça sentada). Se urinar ou evacuar, colar o adesivo na mão, senão, organize para que ele fique colado ao azulejo, utilizando o mesmo para contar histórias.
– Lembrar que o ser humano após iniciar o andar, somente consegue evacuar ou urinar se estiver com os pés apoiados. Assim é de vital importância um apoio para os pés.
– Para facilitar o desfralde noturno, diminuir a oferta de líquido após as 19:00 horas.
– A paciência dos pais influencia no processo de espera do funcionamento fisiológico.
– Estimule a permanência sentada da criança através de elogios e histórias que a encante, mas não a force. Lembre que se o adulto conversa com emoção, a criança possui vontade em obedecer e cumprir a solicitação que lhe é feita.
Como o desfralde é um processo que ativa várias áreas cerebrais sendo estas bem peculiares, bem como é um aprendizado que refere-se à intimidade, o mesmo deve ser iniciado em casa, num final de semana tranqüilo, nos quais os pais tenham uma dedicação integral a este momento. Depois de iniciado no aconchego do lar, a escola deve continuar o processo seguindo os mesmos cuidados acima relatados, bem como enviando na mochila escolar mais trocas de roupas: calças, roupas íntimas, meias e calçados.
Concluímos essa reflexão sobre o desfralde desfazendo 2 mitos:
* O primeiro diz respeito a que neste período não se pode mais colocar fraldas no infante. Caso o adulto sinta que o trajeto a ser executado seja longo de mais para a criança conseguir esperar a chegada até o banheiro, ou mesmo, o banheiro mais próximo não tenha uma higiene adequada para a utilização de uma criança, o educador deve assumir essa responsabilidade quanto ao seu receio, falando para a criança que ela está em processo de aprendizagem e a dúvida, o receio, a decisão da fralda é do adulto, mas que a criança já consegue ficar sem a fralda
* Outro mito é quanto ao inverno ou temperaturas mais frias. O tempo investido numa troca de fraldas e numa roupa molhada é o mesmo. O importante no desfralde é a organização do adulto quanto a constante oferta das idas ao banheiro. Assim, a estação do ano não compromete o processo.
Quando houver o escape na roupa, as broncas poderão assustar a criança e assim, devem ser evitadas. Como a criança possui um vocabulário compreensível, basta-lhe perguntar onde é o local que todas as pessoas usam para urinar ou evacuar. Se ela responder, elogiar o conhecimento citado e demonstrar que confia que ela utilizará o local adequado nas próximas vezes. Caso não responda, o adulto deve responder. No momento desta higienização, o adulto não deve fazer do mesmo uma grande festa com a criança, pois assim a mesma perceberá que terá uma atenção especial para si. Sendo assim, a higienização deve ser feita de forma carinhosa, mas ao mesmo tempo séria, tendo o desenvolvimento da conversa acima.
Finalizamos com 2 pensamentos de Paulo Freire:
“Ninguém nasce feito, é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos.”.
“Não se pode falar de educação sem amor.”.
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