Terapia

Sobre a técnica da Psicanálise

Quando um paciente nos procura ele traz uma frase, é a sua “queixa”. O analista deve pegar a frase e virá-la do avesso. Toda frase comporta buracos entre uma palavra e outra, enfie o dedo no buraco da frase e vire. Desta forma o paciente poderá ficar com um ponto de interrogação sobre os motivos que o levaram a procurar a psicanálise. Em geral ele chegará não só com uma frase, mas com um emaranhado delas. O analista precisa ser paciente, pois com o tempo poderá revirar uma por uma.

A partir dos primeiros avessamentos, nas entrevistas iniciais, se o paciente pensar que este outro lado é possível e que foi ele quem avessou as frases, transforma sua queixa em demanda de análise. Na interpretação, o analista poderá utilizar algumas técnicas. Uma delas é a citação, na qual ele deverá lançar luz sobre as palavras do paciente. Com uma lanterna, ou algo mais forte, isso depende do estilo do analista, deverá destacar do próprio discurso do paciente alguma frase atravessada.

O analista pode mudar alguma vírgula de lugar, ou outra pontuação da frase. Outro tipo de interpretação é a escansão, nesta o analista esquarteja a palavra, secciona de forma a possibilitar o advento de outra significação. Também o analista trabalha com o corte, ele interrompe a frase no meio, mas esse corte não é aleatório, ele é feito depois de alguma palavra importante na história do paciente, que aponte para suas repetições, por exemplo. Na interpretação dos sonhos e na interpretação em geral, depois que o paciente recebe a instrução de que fale sem censurar o que vier à cabeça, o analista catará palavras: as repetidas, as falhadas, as engraçadas, e outras muitas.

São muitos os emaranhados de frases, por isso o tempo de uma análise, em geral, é longo. O analista não pode ter pressa e querer desemaranhar pelo paciente, caso faça isso correrá o risco de emaranhar mais ainda. Quanto à posição do analista, ele fará este trabalho de catador, escandidor, esquartejador, iluminador de palavras, mas em momento algum deverá colocar palavras suas nas frases do paciente, caso faça isso, estará dando seus sentidos e a análise é pra que o paciente reescreva sua história com seus próprios significantes e não com os do analista.

É importante saber que o paciente às vezes pede palavras emprestadas, mas quando o analista não o faz, causa angústia no paciente, que tenta se agarrar nas palavras, mas escorrega pelos vãos que existem entre uma e outra, nos avessos. E dos buracos sai a angústia. O analista não deverá estancá-la e nem deixar que se torne uma hemorragia. Mas dos mesmos buracos que sai a angústia, sai também o desejo. E depois de muitos avessamentos, o paciente poderá construir novas frases, que comportarão ainda avessos, mas com eles há que se lidar sempre.

O processo é interminável, mas depois de um tempo as palavras estarão mais gastas e as angústias menores. Ao fim se descobre que não há um fim, os buracos são infindáveis. Mas agora o paciente já sabe muitas coisas sobre seus lados direito e avesso, e sabe da parte que lhe cabe em suas construções sintáticas, morfológicas, fonéticas, gramaticais, enfim, sintomáticas. Mestre d’alíngua própria, ele constrói novas possibilidades. Também é importante destacar que neste processo, o analista já está do avesso ou em processo e, a partir disso aprende a avessar as frases dos outros. O analista é um dispensador da ciência.

Isloany Machado

Psicóloga clínica, psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - Fórum do Campo Lacaniano de MS. Revisora de textos na Oficina do Texto. Especialista em Direitos Humanos pela UFGD e em Avessos Humanos pelo Ágora Instituto Lacaniano. Mestre em Psicologia pela UFMS. Despensadora da ciência e costuradora de palavras por opção. Autora dos livros Costurando Palavras: contos e crônicas (2012), Em defesa dos avessos humanos: crônicas psicanaliterárias (2014) e do romance Nau dos Amoucos (2017). Mãe do Adriano.

View Comments

  • Por que minha analista nunca fez anotações nas secções?!Fiz análise por quase 10 anos e nunca vi ela fazer anotação nenhuma! Sempre de mais vazias! Preocupada agora!!!

  • Porque o analista tem que ter a atençào flutuante... Freud mesmo não recomendava fazer anotações no meio da sessão, podendo anotar posteriormente. A questão no texto não indique que o analista anote, mas sim dê o devido valor aos significantes que são expostos durante a análise.

Recent Posts

As suas necessidades não são as dos outros

Suas prioridades não são as dos outros. Suas verdades não são as dos outros. Então…

3 semanas ago

Quando nosso cérebro escolhe não sentir para não sofrer

O sofrimento não é uma escolha pessoal; ninguém escolhe a dor ou o isolamento emocional…

1 mês ago

Uma doença pouco conhecida que pode ser confundida com preguiça

Prolongar o tempo na cama por mais alguns minutinhos, logo após acordar, ou tirar algumas…

1 mês ago

Pare de mimimi e vá à luta!

Forças malignas sempre te impedem de cumprir prazos? Entrar no mestrado está sendo mais difícil…

1 mês ago

Os 5 Sinais do Transtorno de Ansiedade Generalizada

Ficar nervoso ou ansioso em algumas situações da vida como, por exemplo, antes de uma…

2 meses ago

Gentileza é a gente deixar o outro ser de carne e osso

Gentileza gera gentileza. Pois é, mas acho que ser gentil não é ser bem educado,…

2 meses ago