“Precisamos transformar a desesperança em esperança. Mesmo que leve tempo”, disse Roudinesco para a plateia reunida no teatro do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, defendendo os ideais de uma sociedade livre e igualitária.

Na conferência intitulada “Ainda Podemos Sonhar com uma Outra Vida?”, a autora da recém lançada biografia “Sigmundo Freud na sua Época e em Nosso Tempo” (ed. Zahar) iniciou sua fala com uma referência ao escritor francês Romain Rolland, segundo o qual era preciso cultivar “o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade.”

“Por que a inteligência acompanha o pessimismo? Porque toda reflexão significa que adotamos uma distância crítica, e não nos deixamos levar por ilusões“, afirmou ela.

De acordo com a intelectual, porém, estimular apenas esse pessimismo é afirmar que “o velho mundo era melhor” e os homens não terão vontade de mudar o curso da história.

Esse pensamento resumia a reflexão que a autora desenvolveu ao longo de quase duas horas em que defendeu os valores humanistas desenvolvidos na civilização ocidental.

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Roudinesco analisou momentos de “grandes viradas” na história, a começar pela Revolução Russa e pela chegada de Stálin ao poder na União Soviética.

“[A ascensão de Stálin] foi o fim de um acontecimento que se filiava à Revolução Francesa como matriz história. Depois disso, nenhuma outra revolução se filiou a ela”, afirmou.

Ela descreveu o que considera outras pontos de inflexão, como a crise econômica mundial que se iniciou em 1919. Na contemporaneidade, porém, ela percebe uma “virada” que perdura no tempo, demora mais a se concretizar — tendo como marcos os atentados de 11 de setembro de 2001, a evolução da ciência e dos costumes, a globalização. E a crise da cultura ocidental.

Sobre essa crise —que inclui uma rejeição à cultura francesa, por encarnar esses ideais—, Roudinesco desenvolveu uma análise sobre o terrorismo. “A loucura religiosa é uma guerra declarada à modernidade ocidental.”

“A escolha terrorista não tem a ver com o heroísmo revolucionário, é uma escolha exterminadora. Esses fanáticos morrem por ideais pelos quais não vale a pena viver.”

A essa tensão com os valores ocidentais, a psicanalista relaciona a ascensão de forças populistas pelo mundo, com “um desejo de fascismo”.

“Há uma contra-revolução obscurantista [no mundo]”, disse. “É um populismo que existe dentro e fora da Europa, como demonstra o sucesso de Vladimir Putin e Donald Trump.”

A escritora enumerou o que considera, além do fanatismo, outros flagelos contemporâneos. Entre eles, ela inclui o pessimismo gerado “pela valorização do poder do dinheiro”.

“É a famosa lei dos mercados em detrimento do valor atribuído ao saber e à cultura.”

Para ela, as elites dizem que o povo não pode se modernizar, e o povo acusa as elites de se render a um “cosmopolitismo norte-americano”, preocupando-se com a evolução dos costumes sem dar atenção ao sofrimento dos pobres.

Outro flagelo seria a morte de ideias revolucionárias. “Muitos começaram a dizer que a ideia de revolta era inútil, porque as revoluções levam a ditaduras. Não serviria de nada se rebelar, porque o gulag já estaria em Marx. Dizem que os povos não desejam mais a revolução.”

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Um terceiro flagelo contemporâneo, de acordo com Roudinesco, seria a redução da subjetividade humana a uma “norma química.”

“Os problemas psíquicos são tratados por substâncias de eficácia extraordinária. Mas, no plano ideológico, essas drogas estão acompanhadas de um abandono da liberdade e da vontade”, disse.

A autora defende que os remédios psiquiátricos não podem curar o sofrimento da morte, da paixão ou da loucura. Os medicamentos se contentariam, dessa forma, com o otimismo da vontade, ignorando o pessimismo da inteligência.

Diante do fracasso do comunismo e do “sonho de igualdade”, do fanatismo, do capitalismo que “favorece a miséria” e do consumo de remédios, porém, Roudinesco deixou uma mensagem de que é possível ao homem sonhar com uma nova vida.

“Precisamos saber sonhar antes de qualquer ação. Temos que contribuir [para o mundo] sem o otimismo excessivo nem o pessimismo destruidor. Devemos resistir pela vontade”, disse.

(Autor: Maurício Meireles)
(Fonte:folha.uol.com.br)

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