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A SOMBRA NOS CONTOS DE FADAS

Os vilões geralmente são figuras que nos causam emoções fortes e antagônicas. Torcemos para que sofram e recebam o castigo que merecem, no entanto, sentimos um fascínio inexplicável por essa figura sombria.

Nos contos de fadas clássicos, observamos que as figuras dos heróis e vilões representam o bem e mal de forma bastante acentuada. O mocinho, ou mocinha, nos contos parece irreal e “bonzinho” ao extremo.

Parecendo que essas figuras nucleares dos contos de fada não têm emoções e que são abstratas e não humanas.

Ele, ou ela, é completamente no preto ou completamente no branco e tem reações estereotipadas: ele salva a dama e mata o leão, não teme a velha da floresta etc. Sendo algo completamente esquemático.

É importante termos em mente que as princesas e os heróis nos contos de fadas são figuras simbólicas e não seres humano comuns.

Se tomarmos essa figura de forma literal, ela não fará nenhum sentido e perdemos a essência do aprendizado que a história nos traz. São modelos ideias que servem de parâmetro para que possamos atuar de forma melhor em determinada situação.

O mesmo ocorre nos sonhos. Na psicologia analítica, não analisamos os sonhos de forma literal, pois se trata de um material simbólico e uma metáfora para anunciar uma mensagem do inconsciente e mostrar a situação psíquica do sonhador.

Podemos supor, então, que o vilão faça esse contraponto da maldade que falta nos heróis. Que bruxas, magos, ogros e outros antagonistas sejam a sombra do herói ou da princesa.

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Para isso, é importante que saibamos do que se trata a sombra, que não é um conceito tão simples.

Na psicologia junguiana, definimos sombra como a personificação de certos aspectos inconscientes da personalidade que poderiam ser acrescentados ao ego, mas que, por várias razões, não o são.

O ego humano tem a tendência – à medida que vai se desenvolvendo – de se identificar com características ideias de personalidade, com aquilo que é valorizado pela família, pelo meio e pela cultura. Somos condicionados a sermos polidos, generosos, educados e, assim, nos revestimos com uma persona adequada ao convívio com a sociedade e com os valores coletivos.

Com isso, características que não são adequadas à nossa autoimagem, como agressividade, egoísmo e inveja, são relegadas à penumbra do inconsciente. Ego e sombra formam pares de opostos e se desenvolvem a partir da mesma experiência de vida.

Contudo, geralmente, quando investigamos a fundo a sombra, descobrimos que consiste em parte de elementos pessoais e em parte de elementos coletivos. Aquilo que foi reprimido pelo coletivo é assimilado pela sombra pessoal.

É relativamente fácil reconhecer esses elementos e é isto que chamamos de “tornar a sombra consciente”, através de uma certa dose de insight, com a ajuda de sonhos e assim por diante — e é normalmente nesse ponto que a análise é interrompida, porque é doloroso nos darmos conta de nosso lado não aceito.

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No entanto, as pessoas podem até saber qual é a sua sombra – observando suas projeções de defeitos em outras pessoas, por exemplo – mas não sabem integrá-la nem expressá-la de forma adequada na vida cotidiana.

É um ato de grande coragem enfrentar e aceitar uma qualidade que não nos é agradável, que se escondeu por muito tempo. O grande problema ético surge quando se decide expressar a sombra conscientemente. Isso requer grande cuidado e reflexão para que não se produza uma reação perturbadora e uma autodestruição.

Nos contos de fadas, o herói espelha a forma ideal de integração com a sombra. Ele tem a capacidade de saber lidar com a sombra de forma ideal e ainda assimilar seu conteúdo sem ser destruído por ela.

E geralmente vemos a sombra, ou seja, o lado não desenvolvido da personalidade, na figura do vilão.

No entanto, a sombra nos contos de fadas tem um caráter mais coletivo, ou seja, aspectos sombrios que foram relegados e reprimidos e são comuns a toda a humanidade.

Quando partes de nossa sombra pessoal não estão suficientemente integradas, a sombra coletiva pode passar furtivamente por essa porta. Por isso temos nossa parcela de responsabilidade na sombra coletiva, pois, quanto mais nos tornamos conscientes de nosso lado obscuro, mais diminuímos a força da sombra coletiva.

Os contos de fadas podem na auxiliar na conscientização de nossos aspectos sombrios e assim integrarmos esses aspectos e nós.

Gostaria de usar como exemplo, para observarmos a questão da sombra, um dos contos de fadas mais famosos da humanidade: Cinderela. Podemos ver no conto a questão da sombra entre irmãs.

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Para uma mulher, a irmã é a outra pessoa mais semelhante a ela mesma dentre todas as criaturas do mundo. Ela é do nosso mesmo sexo e geração, carrega a mesma herança biológica e social. Tem os mesmos pais; cresce na mesma família e é exposta aos mesmos valores, premissas e padrões de interação.

Ainda assim, essa outra pessoa tão semelhante é, indiscutivelmente, outra. E que serve como comparação com a qual se define a si mesma.

Irmãos/irmãs do mesmo sexo parecem ser um para o outro, paradoxalmente, tanto o eu ideal quanto “a sombra”. Eles estão envolvidos num processo mútuo, único e recíproco de autodefinição. Embora a filha conceba a mãe tanto quanto a mãe concebe a filha, o relacionamento mãe-filha não é tão simétrico quanto o relacionamento irmã-irmã.

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Percebemos nas famílias que há uma polarização entre as irmãs e uma competição entre elas. Uma é tida como “a mais bonita” enquanto a outra é a “mais inteligente” por exemplo.

A dinâmica se reflete da seguinte forma: “Eu sou quem ela não é. Ela é o que eu mais gostaria de ser, mas acho que nunca serei, e também o que mais me orgulho de não ser mas tenho medo de vir a ser.”

“Eu sou quem ela não é. Ela é o que eu mais gostaria de ser, mas acho que nunca serei, e também o que mais me orgulho de não ser mas tenho medo de vir a ser.”

Em Cinderela, essa dinâmica é visualizada no relacionamento dela com as irmãs, através da inveja, sentimento sombrio que se desdobra com facilidade nas relações entre irmãos do mesmo sexo. A sombra invejosa de Cinderela se projeta nas irmãs. No fundo, ela também gostaria de ter o amor materno e a atenção que não tem.

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No conto, podemos observar que essa relação entre irmãs é bastante influenciada pela mãe. Se uma mãe anseia por uma irmã que não teve, pode idealizar a relação de suas filhas e tentar manter submersa a rivalidade entre elas, o que pode prejudicar em muito a assimilação da sombra das meninas, pois na sombra está aquilo que a garota deseja e teme ser.

Segundo Freud, embora tenhamos transformado o amor pais-filhos em algo sagrado, mantivemos o caráter profano do amor fraterno. O arquétipo da irmã para mulher pode ser vivenciado como algo menos esmagador que o arquétipo da Mãe. A irmã é uma mulher e não uma deusa, algo comum de ocorrer na projeção do amor mãe-filha.

Com a irmã, é possível para a mulher compreender aquilo que a torna humana, pois é esta uma das funções mais importantes da sombra: impedir a inflação do ego e a identificação com conteúdos do inconsciente.

A humilhação de Cinderela com essa sombra fraterna permitiu que ela se tornasse mais humana, mais tridimensional. A inveja que ela sentiu das irmãs mobilizou Cinderela à ação (ir ao baile).

Para finalizar, Carl Jung comumente denomina a sombra como “irmã” ou “irmão”, o nosso duplo, aquele com o qual somos obrigados a conviver, não podemos nos separar completamente e ao qual fatalmente nos renderemos por amor em nosso processo de individuação.

Por exemplo, no conto de fadas A Princesa Enfeitiçada, dos Grimm, o herói recebe a ajuda de um espírito que age como seu irmão de jornada, auxiliando no salvamento e confronto com a princesa, que simboliza seu lado feminino.

Portanto, é esse irmão-irmã que pode se transformar em nosso auxiliar e trazer o lado positivo da irmandade para nós.

Hellen Reis Mourao

Hellen Reis Mourão é analista Junguiana e especialista em Mitologia e Contos de Fadas. Atua como psicoterapeuta, professora e palestrante de Psicologia Analítica em SP e RJ. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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