Amor

Depois de você

Depois que você foi embora, confesso que eu me desesperei um pouco. As lembranças foram se amontoando num cantinho da sala, sendo encobertas por um tanto de poeira enquanto eu remoía o passado. Me peguei chorando, olhei no espelho e vi tudo que você nunca enxergou, mas fui além: vi uma menina que eu mesma não reconheci.

Era preciso me reerguer. Então, me reergui.

Depois que você foi embora eu mudei o sofá de lugar, troquei os tapetes e coloquei flores sob a mesa de jantar. Aprendi a dançar e a dormir sozinha no escuro. Aprendi a trocar a resistência do chuveiro e a trocar lâmpadas também. Aprendi a perder o controle, para ter boas histórias pra contar, e aprendi a enlouquecer pra me curar. Aprendi que mentiras bonitas ainda são mentiras e que remoer o passado tem um peso que não nos cabe.

Depois que você foi embora, eu enxerguei infinitas possibilidades com direito a beijos com gosto de algodão doce e abraços de dissolver angústias. Enxerguei movimentos encantadoramente sutis que transparecem bondade. Enxerguei intermináveis caminhos com direito a trilhas traçadas por pedrinhas de açúcar, não enjoa e não machuca. Só é preciso escolher qual rota seguir, em todos há começos. Lindos começos!

Depois que você foi embora, eu descobri que existe lugares bacanas, recheados de pessoas que sorriem com os olhos e que são gentis por puro gosto. Descobri que tenho poucos amigos — poucos e incansavelmente bons. Descobri que deixar claro quem sou eu, sem máscaras, não me faz chata — me faz sincera. Descobri que há infinitas formas de gostar de alguém e que é estupidez rejeitar afetos. Descobri também que borboletas quando pousam em nós, nos deixam sem fala e enfraquecem nossos joelhos. Mas tudo bem, não tem problema, nosso estômago vira ninho.

Depois que você foi embora, eu reorganizei prioridades, preenchi lacunas e descartei o peso. Ganhei o mundo, tracei metas e reescrevi as estrelinhas. Eu aprendi, descobri e experimentei um montão de coisas novas, que se eu ainda estivesse com você seriam improváveis ou até ruins. Limitar o novo é burrice e o medo de ter coragem é o maior obstáculo para seguir em frente.

Tentar esquecer o que se lembra a cada segundo demanda muito trabalho, a saudade fica insuportável quando damos atenção à ela. Devagarinho a gente vai esquecendo os socos, os arranhões, as dores e a vida vai ganhando cor conforme a gente conduz os sentimentos. Depois de você, me restou a melhor companhia que eu poderia ter: a minha.

Ana Carolina da Mata

Ela ama comer. Tem medo de apontar para uma estrela no céu e acordar com uma verruga no dedo. E também ama comer. Acredita que troca de olhares, às vezes, são mais bem dados que beijos de cinema. Não confia em pessoas que não gostam de animais. E ama comer. Tem medo do escuro e acha normal falar sozinha. Vive no mundo da lua e adora comer por lá também. É sagitariana, paulista, teimosa, devoradora de filmes, gulosa por livros e por comida também. Mas acha tolice tudo acabar em pizza, porque com ela, acaba em texto. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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Ana Carolina da Mata

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