Saúde

Dor e certo prazer nas automutilações

Freud afirma em “O problema econômico do masoquismo” que o ser humano muitas vezes faz a transformação da dor e do desprazer em alvos. Algo aparentemente inverso a lógica de ter a satisfação no prazer. A contemporaneidade nos mostra diversas patologias as quais remetem a Freud quando diz: “o masoquismo nos aparece como um grande perigo”.

O prazer na dor deixa o ser humano completamente desprotegido, afinal nem sempre sentir dor é algo ruim. Lembremos dos leprosos os quais morriam por não ter a dor como sinalização do perigo, pior ainda então seria gozar da dor. O masoquista parece buscar o castigo, algo que remete a uma criança a qual se comportou mal.

Sobre a automutilação a maioria dos praticantes são mulheres e adolescentes. As formas mais comuns são uso de lâminas, unhas, queimar o corpo, entre outras formas de ataque ao próprio corpo. Há uma relação entre essas agressões e experiências emocionais de frustração, como no ambiente familiar ou escolar, além de questões como isolamento social, términos de relacionamentos e uso de substâncias.

Vivenciam sentimento de culpa excessivos, além de muito ódio represado, são bastante cruéis consigo mesmos, exigindo padrões de perfeição e cada vez mais frustrados pela distância entre a realidade e o ideal de eu. De certa forma, há um outro introjetado nesse eu, assim as ações agressivas contra si seriam uma tentativa de destruir o objeto de amor/ódio internalizado.

As cicatrizes e marcas seriam uma tentativa de marcar uma separação do eu e o outro, remetendo a uma certeza de que o sujeito está vivo. Por isso quando a dor psíquica é intensa, é comum a pessoa dizer que nem sentiu a dor mínima da autoagressão.

Esse eu estaria identificado com o outro, sem uma forma própria, fragmentado, sem a possibilidade de determinar os limites… Há uma intensa busca de um contorno próprio, pois por enquanto só há um eu corporal.

Leia Mais: Principais tipos de dor: nociceptiva, neuropática e psicogênica

A automutilação seria uma tentativa de cura ou diferenciação, contudo até que ponto não se deve temer um excesso de machucados que podem levar a morte?

O ódio deve ser colocado em palavras numa psicoterapia, assim como a culpa e o prazer. Importante buscar ajuda psicológica e psiquiátrica, afinal para essas pessoas se automutilar parece sempre uma carta na manga, um meio de escapar da severidade de alguém internalizado e cruel.

Há muita dor, prazer e principalmente ódio. Um pedido de socorro é feito e marcado na pele, assim como esse é o modo de se sentirem vivos.

Mariana Pavani

Psicóloga, estudante de Psicanálise. Colunista do site Fãs da Psicanálise.

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Mariana Pavani

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