Muitos pais não sabem distinguir a diferença entre o que significa ensinar a criança a se defender e o que é revidar. Enquanto o primeiro consiste em devolver a agressão, o outro, ensina a não fugir do agressor: DEFESA. São lados extremamente opostos.
Fico indignada com a errônea e estapafúrdia idéia de que, ensinar a criança a se defender é sinônimo de falta de educação. NÃO! Ao ensinar a criança a se deixar ser agredida, física e/ou verbalmente, você a educa a ser permissiva com a forma como as pessoas vão trata- la por toda a vida.
Ensina a criança a ser conivente com abusos e que ela pode ser sim desrespeitada. Se você tem filha, Parabéns: você a está preparando como um suculento cordeiro pronto para o banquete de um parceiro tóxico, e ela, com ” sorte”, entrará para a triste estatística das vítimas de feminicídio.
Palmas para aqueles pais, mães ” de bem”, que deixam seus filhos irem à escola com tremores de medo todos os dias pensando se aquele coleguinha vai bater nele se não der o seu lanche ou se você estiver na frente dele na cantina . O índice de suicídio infantil aumenta a cada dia. Crianças de 8,10 anos, tirando suas vidas porque não souberam lidar com medos e inseguranças causados pelo outro e sabe de quem é a culpa? SUA! Que achou que era ” bobeira”, ” brincadeira de criança”. Pois bem, o tal “amiguinho”, não é um bom amiguinho se causa pânico em seu filho, se deita na cama com ele à noite e o faz companhia nas lágrimas de medo, na solitária calada da noite, no terror noturno que não deixa o sono tranquilo ser ninado pelo travesseiro. OUÇA o seu filho!
Quando eu tinha 9 anos, haviam dois moleques que eram o terror da sala. Eu e outras meninas morríamos de medo deles. Os garotos, eram todos capachos. Os pais dos dois, bom, nem ligavam para as suspensões deles. Ou seja, dois casos ” perdidos”,tanto para a escola, quando para os responsáveis, cujos filhos eram vitimados.
Certa vez, eles costumaram a adotar o hábito de entrar no banheiro das meninas. E levantavam as saias delas. A primeira vez que vi fazerem com uma amiga muito querida, eu chorei tanto, mas, tanto, nem por medo, mas, por culpa, por eu ter me trancado no banheiro e ficado olhando pela fresta enquanto ela era alvo da chacota dos dois moleques.
Neste dia, à saída da escola, como de praxe, meu irmão fora me buscar .Ele revezava com a minha irmã e com minha mãe. E eu, chorando muito, contei tudo a ele chegando em casa, almoçamos e ele colocou uns 2 filmes de Bruce Lee, que ele fascinava. Meu irmão sabia bastante karatê e, após a sessão, fomos os dois para exercitarmos o que havíamos visto nos filmes. Eu morava numa casa de vila que tinha um grande espaço, na Tijuca, e ele começou a me ensinar defesa pessoal. Ficamos até a noite treinando por dias consecutivos.
Ele era meu Mestre Miyagi, e eu, a Dani San. Chegou um dia em que, à saída da escola, os dois vinham gritando um monte de baboseiras para mim e outras meninas, mas, neste dia, cismaram comigo. Minha irmã mandou os dois “catarem coquinho” várias vezes, disse que ia falar com os pais, que o Capitão Planeta estava vendo tudo, mas, em vão.
Chegou à altura do mercado, os dois , começaram a levantar a minha saia enquanto riam debochadamente horrores.
Sendo muito honesta, mas, já na primeira levantada, subiu um calor grande, um furor de raiva, mas eu ainda estava elevando meu Cosmo à sétima potência. Na segunda, pensei: -Dane-se a sétima, vou dar uma lição nesses camaradas- . Dei o primeiro empurrão. como aviso para manterem distância e comecei a ser socada e chutada, dos dois lados, simultaneamente. E foi soco, pontapé, para todos os lados. Minha irmã, só gritava para pararmos, e os dois, nada. Nenhum sinal de piedade. Vinham em cima me chutando E eu, palavra de honra, de tanta adrenalina, não sentia nada, só falava: -Eles são meus! Deixa comigo! Não se mete! – Eu falava para eles pararem, e eles, continuavam. Só me restava a defesa .Moral da história : dois moleques envergonhados, sentados no chão, derrotados por uma menina de 9 anos.
Lembro que os funcionários do mercado só me aplaudiram e falaram que eu era muito corajosa .À época, eu fiquei toda orgulhosa, mas, hoje, percebe-se claramente a falta de cavalheirismo e covardia dos adultos que ficaram como contemplativos espectadores de uma briga feia entre crianças que poderia ter acabado muito mal, caso eu não soubesse me defender. Sim, foi legítima defesa. E nem por isso me tornei uma pessoa violenta, ao contrário. Ensinar seu filho a defender sua integridade física é um DEVER! Olho para minha filha e vejo que é muito parecida comigo, na idade dela. Doce, sensível.
Assim como eu era, perdeu seu lanche pois não sabia dizer duas palavras que também são necessárias para a nossa sobrevivência: NÃO e PARE . Na verdade, ainda não sabe. Mas estou ensinando a ela que, ser bom , é também impor limites. A ensino a cultivar os bons modos, ter educação, respeito, empatia e gentileza. Mas também a ensino a se respeitar e a lutar pelos direitos dela, comum a todos. Ensino que a escola é uma instituição que ela tem que enxergar como uma segunda casa, e que ela deve se sentir bem ao ir para lá, ao estar neste segundo lar.
Se eu não a ensinasse a não fugir dos problemas, mas, sim, enfrenta-los, ela iria continuar nutrindo pânico ao ir à escola por conta de uma amiguinha que causa pânico nas outras. Aos poucos, reforçando sua segurança e elevando sua autoestima, sinto que tenho criado, passo a passo, uma garotinha de 7 anos confiante, que vai e volta da escola com um sorriso no rosto, plena e tranquila. Claro que, vez ou outra, ela volta com questões e conflitos próprios da idade e aflita, mas, basta uma conversa que o semblante triste logo se ilumina.
Ensine seu filho permissivo a ser bom, mas não a ser bobo. Ensine ao seu filho agressivo a se colocar no lugar do outro. Por trás de toda criança praticante de bullying, existe um ser profundamente manipulador ou inseguro. O corpo, emite sinais. Saiba distinguir, com a auxílio de um profissional, qual a mensagem que seu filho passa e o ajude a se preparar para esta jornada. Uma criança segura de si é um adulto preparado para a Vida.
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