Eu fiz uma escolha. Mas percebo, um tempo depois, que os resultados que dela advém não são exatamente os que almejava. Arrependo-me da escolha que fiz. Mais do que isso: Começo a questionar “e se eu tivesse feito outra escolha? E se eu tivesse enxergado melhor?”. Dessa forma começo a me aprisionar em algo que não existe.

A existência é feita de escolhas. Elas que nos fizeram chegar até onde estamos e saber o que sabemos no dia de hoje. Se hoje sou um psicólogo formado, é porque escolhi, dentro das possibilidades que a vida me ofereceu, fazer uma graduação em Psicologia. Se hoje tenho algum conhecimento sobre vegetais é porque na minha infância escolhi estudar sobre essas coisas.

Se hoje tomo cuidado ao ir tomar banho de rio ou mar é porque no passado escolhi tomar banho sem cuidado e quase me afoguei. Tenha eu me arrependido ou não do que escolhi, hoje sou consequência disso.

Entretanto, o ser humano, diante de uma frustração decorrente de uma escolha, pode cair em uma armadilha. Quando me arrependo de uma escolha – e arrepender-se é sempre algo saudável, afinal é importante reconhecer o que não me serve – posso acabar me prendendo à escolha que não fiz.

Vamos supor que, eu, Vitor, descobri que sinto muito prazer ao desenhar plantas de casas e me arrependo da minha escolha profissional. Eu poderia me prender a isso, pensando: “Ah, se eu tivesse escolhido me dedicar a Arquitetura, talvez estivesse mais feliz profissionalmente.” Todavia, a escolha já foi feita. Nada pode mudar o que já aconteceu. Foi engrandecedor para mim ter escolhido Psicologia. O próprio fato de eu estar me questionando é consequência dessa escolha. Afinal, só se reconhece um engano quando ele é vivenciado.

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Prender-se ao “e se” é como se acorrentar em correntes que você mesmo imagina que existem. Ah, e se eu tivesse dado uma chance para fulano? Se eu tivesse pego aquele ônibus e não esse? Se eu tivesse lido outro texto e não este? Tais perguntas dizem respeito a algo que nem você nem ninguém nunca saberia responder. E na medida em que não me fazem tomar novos caminhos, são pura e simples tortura voluntária.

Você nunca poderá voltar atrás para dar uma nova chance para fulano, naquela época. Nem poderá voltar e pegar o ônibus que já passou. Muito menos pode apagar da memória o que leu agora ou fazer o tempo voltar para ler outro artigo.

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Mas a existência é muito mais ampla do que as escolhas já feitas. Águas passadas não voltam, porém o rio prossegue em seu leito. Novas águas sempre surgem. Talvez hoje eu possa me reaproximar de fulano, ou se não der, tomar uma nova decisão caso surja um “outro fulano”. Posso, no dia seguinte, pegar o ônibus que deixei de pegar no dia anterior. Tenho a possibilidade também, após ler esse texto, ler o que deixei de ler anteriormente. Da mesma forma poderia eu pensar até mesmo em fazer outra graduação, e me dedicar a Arquitetura.

O que passou não volta. O “e se” me remete a algo impossível, que nunca existirá. Agora, um saudável arrependimento me faz tomar novas decisões, a partir de agora. O que passou é um quadro na parede da sala da existência, o qual me faz recordar do que aprendi, do que me fez bem e do que me fez mal. E tal como toda obra de arte, o quadro me inspira a pintar novas possibilidades. O que passou não volta, mas invariavelmente renasce na forma de novas oportunidades de escolher.

Vitor de Moraes Silva

Psicólogo, reside no Rio de Janeiro e é colunista do site Fãs da Psicanálise.

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Vitor de Moraes Silva

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