Quem nunca se viu vítima de uma boa e velha ideia mental, não é mesmo?
Alguém comenta sobre o desenho de uma banana e lá está você imaginando como é esse tal desenho, sendo que, se esta mesma pessoa te mostrar os verdadeiros traços que deram origem à representação da fruta, é bem provável que ela não seja lá tão igual ao que tinha sido imaginada.
E, mesmo que neste caso seja algo bobinho, pode acabar gerando uma pequena frustração: “Poxa, não era bem isso que eu tinha imaginado”. Agora troque o desenho da banana pela visualização de uma pessoa, um lugar novo ou um emprego perfeito e a frustração se mostrará exponencialmente maior.
Podemos utilizar como um exemplo típico o mundo real e o mundo ideal de Platão. Para o filósofo, existia uma realidade além desta física na qual todas as coisas eram criadas em suas formas ideias e depois eram reproduzidas imperfeitamente no nosso mundo físico.
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Em tal raciocínio, no mundo ideal haveria a ideia perfeita de uma flor, sendo que, ao ser reproduzida aqui, perderia seu caráter de perfeição.
Platão também falou do Mito da Caverna, cuja ideia seria a de que estamos aprisionados numa caverna na qual vemos apenas sombras projetadas na parede geradas pela luz de uma fogueira. As sombras projetam o que há de real além da caverna. Haveriam pessoas de fora nos prendendo e mantendo um sistema no qual nos achássemos vivos numa realidade supostamente verdadeira, enquanto só eles teriam acesso ao lado de fora. Assim, o intuito seria o de escapar desses grilhões para alcançarmos a iluminação do que é idealmente verdadeiro.
Ok., ok. Legal, lindo, maravilhoso. Realmente devemos de fato nos livrar de imagens falsas que nos prendem a ideias erradas e buscar o verdadeiro. No entanto, uma coisa é correr atrás da verdade e sofrer com os olhos doendo de tanto ver a luz do dia, e outra bem diferente é imaginar que as sombras criadas por uma chama flamejante são reais e passar a sonhar com elas. Estas sombras não são palpáveis, não são reais. A realidade está lá fora nos esperando, com todas as suas dores do processo de nos des-iludir.
E por que des-iludir?
Se pensarmos um pouco no conteúdo emocional desta palavra, a maioria das pessoas vai se deparar com um sentimento que dói no peito só de pensar/lembrar. Era aquele amigo que te deu as costas, ou o emprego que parecia ser lindo, mas te consome a vida toda. “Nada passou de uma desilusão”, talvez alguém pense. E vê-la cara a cara dói. Porém, olhar a verdade de frente pode doer até na alma, mas vale a pena para enxergarmos o que é real em sua totalidade.
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Ao menos que você queira se manter na ignorância – que, sejamos sinceros, é bem mais confortável e aconchegante -, não pensar no que nos frusta parece ser uma boa pedida para o dia, mas não nos ajuda a crescer. E é nessa hora que parece ser pertinente pensar sobre aquela pessoa maravilhosa que você conheceu ontem e já está idealizando. Já posso até imaginar: a pessoa era incrível, tinha bom papo, uma química legal. Vocês saíram duas vezes e ela parecia ser p-e-r-f-e-i-t-a pra você.
P-E-R-F-E-I-T-A.
Uns dias depois, conversa vai, conversa vem e aí um dos dois começa a perceber que o outro é um ser de carne e osso e com defeitos, problemas e grilos. Em nossa sociedade líquida, como diria Bauman, na qual tudo é consumo, renovação, produto novo no mercado, qualquer sinal de defeito justificaria uma substituição. Inclusive nas nossas relações.
E lá se vai outra desilusão, outra expectativa de uma idealização que só trouxe frustração. Um dos dois achou o outro tão perfeito que fez com que a pessoa no pedestal quisesse sair de lá. Tal posição era tão alta, tão absurdamente fora da realidade que ela preferiu ir embora porque não poderia (e talvez nem gostaria) corresponder a tais visualizações mentais do outro.
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Imaginar o outro num pedestal e depois perceber que ele é um ser de carne e osso dói e assusta, porque significa que teríamos que lidar com os nossos medos, defeitos e problemas junto com os do outro. E ele não deveria vir com este pacote. A embalagem não me advertiu sobre contraindicações ou um manual de instruções. Não me disse que a pessoa poderia reagir mal numa situação A ou B e que eu não saberia lidar com isso.
Idealizações são criadas quando há uma lacuna/um vazio que ainda não conhecemos ainda, do que pode ser fantasiado com qualquer imagem justamente por conta do não-saber a realidade. O desconhecimento que vem do vazio gera a visualização mirabolante. Vai saber o que cada um imagina conforme seus desejos a serem supridos, não é mesmo?
De qualquer forma, idealizações caminham em direção à frustração numa estrada que pode se bifurcar: seja um dos dois se frustrando ao descobrir que a pessoa não corresponde às suas expectativas ou o outro tentando corresponder ao lugar esplendoroso do pedestal e tentando arcar com o ônus dele – o de abdicar da própria natureza para suprir as ideias mirabolantes do idealizador.
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Ambas as cenas são meio cruéis e passíveis de dor. E, numa sociedade como a nossa, não sabemos lidar direito com o que vai além da propaganda, da idealização. As pessoas não leem o manual ou olham resenhas sobre o que estão adquirindo; apenas possuem o que parecia ser magicamente perfeito e depois descobrem coisinhas chatas não esperadas.
Cabe a cada um de nós ter a maturidade para aceitar que tudo o que é real vem acompanhado de aspectos positivos e negativos, sejam pessoas ou situações diversas. Ir para o próximo da fila e imaginar as mesmas cenas irreais só vai gerar as mesmas frustrações anteriores.
Ser uma pessoa inteira e não somente uma projeção bonita de si mesmo demanda coragem. É preciso ter coragem para mostrar as próprias fragilidades para o outro e esperar o mesmo. É preciso ter coragem para aceitar que o outro também é um ser humano inteiro com suas luzes e sombras. E é preciso ter duplamente mais coragem para não ir embora/fugir/descartar a pessoa no menor perigo de frustração (de qualquer um dos dois).
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Sair com uma pessoa apenas duas vezes e já imaginar o nome dos filhos sem nem ter uma mínima noção de como ela é de fato, entrar num emprego dos sonhos e imaginar que com ele não virão grandes responsabilidades, começar um curso na ideia de que ele será o mais perfeito de todos ou visualizar que as filhas serão eternas princesinhas e pais seus eternos super-heróis invencíveis, tudo isso só vai causará mais dor.
Cada imagem criada do nada sem levar em consideração a outra parte, vem acompanhada da dor da realidade de não condizer ao que foi imaginado.
E exigir que a pessoa cumpra com o papel que foi imaginado para ela por causa da sua idealização é muito egoísta. Imagina se fizessem isso com você: seria mancada, não?
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Olhar para o que é real dói. Perceber a realidade das coisas e pessoas dói, mas é bem melhor do que sonhar acordado com o mundo inatingível do que não existe, da idealização. Tudo o que é verdadeiramente bom em seu cerne vem acompanhado de um ônus, mas é verdadeiro, é inteiro.
Ideias de “felizes para sempre” são bonitinhas, mas não vão além desta frase. O que é verdadeiro exige esforço para ser apreciado em sua totalidade.
*Texto publicado originalmente por Marcella de Carvalho no Site Lado M e reeditado pelo Fãs da Psicanálise com autorização do administrador do site
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