Sentir-se útil é algo de que todos precisamos para a harmonia de nosso estado mental e físico.      Acreditar que o nosso trabalho ou nossas atividades fazem alguma diferença para as pessoas, apesar de todas as nossas limitações, é necessário para a manutenção de nossa estabilidade interna.

O descompasso ocorre quando não nos reconhecemos realmente úteis e quando percebemos que estamos perdendo o nosso tempo com ocupações que poderiam ser realizadas por qualquer outra pessoa no mundo. Vale dizer, quando sentimos que a utilidade daquilo que fazemos mais parece um teatro que justifica às pessoas que somos importantes mas não nos traz essa mesma convicção íntima a respeito de nós mesmos.

Sentimos uma dor sufocada no peito, às vezes transmutada em vazio existencial, quando temos de justificar posicionamentos que não condizem com aquilo em que verdadeiramente acreditamos. Choramos quando somos obrigados a usar máscaras para atingir objetivos que não nos satisfazem plenamente, pelo menos não do jeito como direcionados pela sociedade em que vivemos.

Largar tudo e viver como um nômade?

Não, quem realmente busca a si próprio não tem receio do trabalho árduo e da determinação e disciplina necessários para realizar-se. Embora nada de errado exista com quem precise passar por esse momento “zen”, nessa incessante busca por si mesmo.

O que precisamos delinear é que o assunto é muito sério, mal absorvido por inúmeras pessoas, deixando em cada um de nós um certo vazio existencial, que pode desabar para a depressão.

Não se sentir útil, importante dentro do compromisso profissional que assumimos, diante das peculiaridades intrínsecas a cada diferente ser humano, e trabalhar apenas pelo dinheiro que se ganha no final do mês, sendo até indiferente se esse é raso ou substancial, faz com que nos apercebamos vendidos naquilo que possuímos de mais belo, mais genuíno. Sentimo-nos prostituídos em nossos talentos mais preciosos, saindo do foco quanto àquilo que realmente nos traz satisfação e motivação na vida. Tudo para conseguir sobreviver, seja pagando o aluguel no fim do mês (diante de consideráveis dificuldades financeiras), seja para manter o alto padrão de vida que acreditamos ser imprescindível para a nossa felicidade.

Sentir-se vendido faz com que não alinhemos o nosso equilíbrio íntimo com o nosso relógio interno e, com isso, muitas vezes, o corpo nos mostra alguns sintomas. Somatizamos em nosso corpo físico aquilo que nosso corpo mental não conseguiu entender ou equilibrar.

Portanto, se vivenciamos um vazio existencial, há de se perscrutar a causa dessa ocorrência e procurar modificar a realidade. Se deixarmos a bola de neve aumentar, uma hora a avalanche nos alcançará e, talvez, mal conseguiremos levantar da cama, vitimizando-nos com nossos próprios pensamentos desalentadores. Que saibamos buscar ajuda no início de nossas dores internas, quando ainda temos forçar para gritar, para pedir socorro. Não esperemos que as pessoas adivinhem os nossos problemas interiores. Não nos esqueçamos que, por mais aguda que seja a nossa dor, usamos as máscaras sociais até para os mais íntimos. Além disso, eles também têm as suas dores. Quem não as tem?

Que saibamos expressar a quem nos ama a dor que não se mostra aparente. Que saibamos compreender a dor invisível de quem nos pede ajuda, ainda que de maneira indireta. Não subestimemos a dor da alma. Ela também precisa ser tratada.

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Regiane Reis
Mestre em Direito Constitucional. Autora do livro "O empregado portador do vírus HIV/Aids". Criadora do site pausa virtual. "Buscando o autoconhecimento, entendi que precisava escrever sobre temas universais como a vida, o amor e a fé". É colunista do site Fãs da Psicanálise.



2 COMENTÁRIOS

  1. Quando a dor é insistentemente expressa, direta e indiretamente, mas a resposta é a indiferença, a máscara da indiferença recíproca também se torna uma opção. A atitude de fingir que não viu que eles, os seres amados e afastados, não te viram, não se sustenta por muito tempo. E pensar que o meu afastamento se deu justamente quando resolvi encontrar-me comigo mesmo. Tudo tem um preço, foi alto, e temo morrer sem pagá-lo, já que o vazio decorrente da ausência de outras pessoas não será preenchido. Ser útil, é só o que resta, nem que seja de graça, por gratidão, a quem compensou e se fez espontaneamente presente sem exigir o que eu não tinha em troca. – Parabéns pelo artigo. Colocarei um link para ele em meu blog.

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