No séc XX, o termo “complexo” começou a difundir-se, oriundo da psicanálise e estudado a fundo e amplificado por Jung. Este termo, atualmente é utilizado em nosso vocabulário cotidiano. “Você tem complexo de inferioridade”, “Fulano só pode ter complexo de superioridade”. Mas o que realmente é um complexo?
Para Freud, o complexo tem nome “de Édipo”. Resumidamente, Édipo é uma figura da mitologia grega que matou seu pai biológico (sem o conhecimento de que era seu filho) e casou-se com sua própria mãe (também sem a consciência disso) pela honraria de haver salvo a cidade de Tebas. Seu reinado, a princípio, foi tranquilo, porém, após algum tempo instalou-se na cidade uma peste e através da consulta ao oráculo, Édipo descobriu que esta só cessaria quando o assassino de Laio (antigo rei) saísse da cidade. Édipo pela revelação do oráculo dá-se conta de que ele é o filho do rei, e que havia matado seu pai e casado com sua mãe. Arrepende-se fere seus olhos e passa a andar cego pelas ruas. Do erro, da culpa nasce, então, a consciência.
O complexo de Édipo para Freud seria um determinante no desenvolvimento psicológico, no qual o menino apaixona-se pela mãe e “mata” o pai de modo inconsciente, e a menina apaixona-se pelo pai e “mata” a mãe, da mesma maneira. Apaixonam-se no sentido de escolher seu objeto de amor e afastar outro. Porém, a culpa faz com que se arrependam e passem a usar as figuras de mesmo sexo como base para moldar sua personalidade. Este mito, para Freud, então, funda a consciência.
Entretanto, de acordo com Jung, complexo é parte da psique do homem, um núcleo de energia autônomo, e por ser autônomo, não somos nós que temos o complexo, mas ele que nos possui, somos envolvidos pela energia que advém dele. Este é formado pelos afetos advindos de nossas vivências, nossas experiências. Para Carl Gustav Jung, não há complexo e sim complexos. Estes têm como base as imagens arquetípicas, que são figuras que tem representações em todo o mundo, por exemplo: figura do herói, da mãe, do pai, do salvador, do mal, do divino, etc…
Ou seja, nossos complexos são formados a partir da relação que temos com estas imagens arquetípicas por meio das vivências pessoais (dos encontros que vivemos com esses diversos e infindos temas que nos perpassam) e das relações com nossa família. Assim, há quem diga que seu pai é um herói e realmente sente que em sua psique (alma) ele atua como herói, mas para outros seu pai é o pior vilão e sua vida psíquica revela isso. Desse modo, nessa linha de pensamento existe não só o complexo de Édipo, mas muitos outros que atuam em nós e em todas as áreas de nossas vidas, não somente na familiar.
No entanto, a Psicologia Analítica fundada por Jung não vê a estruturação fundada pelo mito de Édipo como “normal” e sim como patológico, pois se pararmos para analisar Édipo foi fruto de Laio, alguém a quem fora revelado que não podia ter filhos e caso tivesse um, seu filho seria seu assassino. O temor fez com que Laio mandasse matar seu filho, porém ele não acreditou e teve um bebê, mas arrependido abandonou a criança em uma montanha com os tornozelos furados para que morresse. Mas, isso não aconteceu pois o menino foi achado por pastores que o criaram. E, o desfecho da história nós vimos.
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Nesse sentido, a Psicologia Analítica vê esse mito como a estruturação de uma consciência, sim, mas não como regra para estruturação de todas. Pois, a criança em questão é fruto de uma relação disfuncional. Entende-se a construção da personalidade como fruto do quaterno primário, conforme aponta Carlos Byington, neste estão presentes quatro “peças” fundamentais: significados da figura da mãe, do pai, do vínculo entre eles e das reações da criança. Ou seja, a criança não é um mero resultado ou tem seu destino dado, mas é o que é: um ser em constante relação com os significados mais profundos que adquire em suas experiências no mundo.
A contribuição de Freud, ao vislumbrar o Complexo de Édipo tal como o fez, foi de extrema importância para que percebamos o quanto nossas relações afetivas primárias podem pré-moldar concepções de quem somos, apesar de não sermos somente isso. Quando Freud trouxe à tona o quanto podemos ser influenciados pelas relações primais abriu-se mais um campo de extrema importância para a psicologia, agora além do inconsciente pessoal via-se o campo das relações familiares como plano de fundo para muitas das questões que abarcam o humano.
A expansão do conceito de complexo feita por Jung, que outrora fora discípulo de Freud e considerado príncipe herdeiro da psicanálise, ampliou ainda mais tanto o campo das pesquisas quanto o entendimento, nada fechado, do que é o ser humano. Trazendo para a discussão os arquétipos por trás dos complexos, ou seja, o inconsciente coletivo e sua união com o inconsciente pessoal. Uma vez que os complexos são formados por arquétipos trazidos à luz por meio das vivências de símbolos e estes desvelam parte do que somos.
Tanto Freud quanto Jung postularam importantes conceitos e fundaram suas linhas de pensamento, porém ambas são chamadas psicologias profundas, uma vez que revelam a complexidade que somos nós, constelações diversas, combinados de complexos que formam um céu particular, porém com o dom de expandir-se ao encontrar outras pessoas e formar galáxias mais brilhantes quando trabalhamos juntos.
(Autora: Laís Sales)
(Fonte: genialmentelouco)
*Texto reproduzido com autorização da administração do site.
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