Dê uma boa olhada na família Darwin. Charles Darwin publicou uma série de trabalhos, foi o pioneiro na observação do mundo natural e no desenvolvimento das teorias da seleção natural e seleção sexual. Seu primo, Francis Galton, estima-se que possuía um QI de quase 200 pontos (a média populacional é cerca de 100), foi um polímata prolífico com centenas de trabalhos publicados e com importância fundamental no ramo da estatística.

Dê agora uma boa olhada na família Huxley. Aldous Huxley foi um escritor, autor do famoso Admirável Mundo Novo, além de diversos ensaios. Foi neto de Thomas Henry Huxley, o Buldogue de Darwin, partidário da teoria da evolução numa época em que todos torciam o nariz para a proposta. Escreveu trabalhos sobre teoria da evolução, altruísmo e natureza humana.

Essas podem ser evidências anedóticas, mas servem para ilustrar a hereditariedade de traços psicológicos como a inteligência. Em alguns círculos ainda existe certa resistência em aceitar as pesquisas que mostram relação entre genética e comportamento. Se dizer que a hipótese das múltiplas inteligências é um engodo já ferve os ânimos, imagine as consequências de se alegar que a inteligência é hereditária.

O fato é que a maioria parece não entender o que é exatamente hereditariedade. Não tem nada a ver com a inteligência ser determinada geneticamente, por exemplo — muito embora poucas pessoas saibam o que realmente significa determinação genética. O mais complicado talvez seja compreender que a variação de inteligência e a hereditariedade é uma propriedade de populações, não de indivíduos (seria impossível estabelecer o quanto a inteligência de um indivíduo é explicada pela hereditariedade e quanto, pelo ambiente), então seria incorreto discutir essa questão tomando como ponto de partida questões de natureza individual.

Sendo assim, ao longo desse texto tentarei mostrar o que significa atribuir hereditariedade a traços psicológicos, e como isso é diferente de determinação genética (não confundir com determinismo genético), e quais as consequências para nossa compreensão da inteligência.

Traços psicológicos podem ser tão hereditários quanto a altura

O termo hereditariedade remete popularmente a características que são passadas entre gerações, de pai para filho, por herança genética. Isso explica a cor do olhos dos filhos, cor de pele, altura e até mesmo a probabilidade de desenvolverem alguma doença, como câncer de mama e depressão.

Nenhum desses exemplos, no entanto, são 100% explicados pela genética. Por exemplo, o câncer de mama parece ser 30% hereditário, o que é um percentual baixo. O índice de massa corporal, por outro lado, é quase 60% explicado pela hereditariedade, o que é uma porcentagem moderada. A diabetes é quase 90% explicada pela hereditariedade, número alto. Isso significa que fenômenos “bem biológicos” são explicados em diferentes graus de importância pela hereditariedade.

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Apesar de contra intuitivo, traços psicológicos podem variar da mesma maneira. Por exemplo, a esquizofrenia tem um índice de hereditariedade moderada de pouco mais de 60%, enquanto depressão e alcoolismo, de 50%. Nunca vi sérios problemas na aceitação do fato de que transtornos como depressão e esquizofrenia são parcialmente explicados pela genética — exceto talvez psicanalistas e relativistas pós-modernos. Mas o mesmo não vale para traços como a inteligência.

O que é inteligência/QI?

Para começar, a maioria ainda se debate sobre o significado dessa palavra. A inteligência é uma das variáveis psicológicas mais estudadas e mais consistentes cientificamente. Tecnicamente, inteligência é um construto relacionado à capacidade de resolver problemas. O que chamamos de inteligência na verdade é uma consequência operacional de uma série de outros atributos psicológicos, como a capacidade de usar conhecimentos adquiridos para resolver problemas, memória, controle cognitivo e habilidade verbal (dos traços associados à inteligência, o raciocínio verbal é o que chega mais perto do QI geral). Diferentes pessoas têm diferentes níveis de cada uma dessas habilidades.

A forma como essas habilidades variam em cada indivíduo é explicada estatisticamente por um fator chamado inteligência geral ou QI. É mais ou menos o raciocínio utilizado em relação à depressão. Pessoas deprimidas costumam ter falta ou excesso de apetite, tristeza persistente e ideação suicida. Esses elementos variam um em relação ao outro consistentemente, de modo que podemos estatisticamente estabelecer uma única variável que explica a covariação consistente entre eles, a depressão.

A variação desses elementos, que formam o construto inteligência, ocorre por razões ambientais e hereditárias. Por exemplo, grau educacional e índice nutricional parecem explicar bastante a variação da inteligência entre os indivíduos. A porcentagem de explicação fornecida pela hereditariedade muda conforme a idade. Em crianças o estímulo dos pais e do ambiente familiar conta muito mais, mas quanto mais velhas as pessoas se tornam, mais seu nível de inteligência passa a ser explicado pela hereditariedade. Isso ocorre principalmente por causa do amadurecimento cognitivo que vem com a idade. Considerando 100 pessoas de 50 anos com níveis educacionais muito semelhantes, a diferença de inteligência entre elas vai ser explicada mais por fatores hereditários do que ambientais. A maioria dos estudos mensura a hereditariedade da inteligência entre 80% e 90%.

Hereditariedade, um conceito populacional

A hereditariedade é um conceito estatístico usado na genética populacional. A inteligência ser 80% explicada pela hereditariedade não quer dizer que um indivíduo tem 80% da sua inteligência explicada pela genética. Essa porcentagem só pode ser encontrada em estudos populacionais (ou melhor, amostras populacionais).

Hereditariedade diz respeito à variação. Calcula-se o quanto fatores hereditários e ambientais explicam a variação do grau de QI em determinada recorte populacional. Não existe uma medida mágica e essencial da inteligência de cada indivíduo para pesar o que é hereditário e o que é ambiental; o que fazemos é mensurar a variação do nível de QI na população. Quando um teste dá um resultado para o seu QI, o que ele está dizendo é em que posição você está em relação ao QI populacional médio (que hoje é 100).

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Sim, é estranho, mas hereditariedade e determinação genética são conceitos completamente diferentes. Um traço X pode ser altamente determinado geneticamente, mas muito pouco explicado pela hereditariedade. Por exemplo, seres humanos possuem 5 dedos em cada mão porque isso está inscrito nos seus genes como característica da espécie. No entanto, a variação dessa característica na população é muito pouco explicada pela hereditariedade.

Em outras palavras, apesar de uma mão com 5 dedos ser um produto da programação genética típica da espécie, os indivíduos podem acabar com 4 dedos nas mãos ao longo da vida por alguma causa ambiental (como amputação). A determinação genética explica por que nascemos com 5 dedos em cada mão, mas o ambiente explica muito melhor por que continuamos ou não tendo essa mesma característica ao longo da vida.

Um elixir contra mitos populares a respeito da hereditariedade do QI

Em resumo, esse texto deve deixar clara cinco mensagens essenciais. Primeiro, algumas variáveis psicológicas são causadas pela genética. Segundo, certas variáveis psicológicas podem variar ao longo da vida dos indivíduos, e entre indivíduos, por motivos hereditários. Coincidentemente, o melhor exemplo para ambos os casos é a inteligência. Terceiro, certos fenômenos psicológicos podem ter origem genética, mas isso não significa que sua variação se deva a motivos hereditários, e vice-versa.

Quarto, variar devido à hereditariedade não é o mesmo que desprezar causas ambientais, afinal, fenômenos como a inteligência parecem sofrer influência tanto do ambiente quanto da genética; portanto, a dicotomia nature X nurture aqui é inútil. Quinto, as diferenças de inteligência são fundamentalmente entre-indivíduos, portanto, não faz sentido falar do QI como um valor intrínseco ao indivíduo.

Esses pontos devem ser tomados como uma espécie de antídoto contra mitos muito comuns ao se considerar a hereditariedade de qualquer característica.

(Autor: Felipe Novaes)

(Fonte: ano-zero)

*Texto publicado com a autorização da administração do site.

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