A Comunicação Não-Violenta (CNV) é um modelo de comunicação poderoso e eficaz, com certeza, mas vai muito além disso. Trata-se de um jeito de ser, pensar e viver. É uma linguagem que inspira conexões genuínas entre as pessoas, conexões que nos ajudam a reconhecer as necessidades de todos, inclusive as nossas.

Não basta compreender intelectualmente os componentes da CNV. Para que se torne parte da sua prática diária, é preciso ter clareza das próprias escolhas e manter-se presente ao longo do dia. Passamos a viver não-violentamente à medida que transformamos nossa relação consigo mesmo, nossa atitude diante das pessoas, nossas relações interpessoais e nossa postura perante a vida. Embora essas dimensões estejam interligadas e influenciem umas às outras, a relação consigo mesmo oferece mais oportunidades de prática e aprendizado. Além disso, acredito que toda mudança mais natural e profunda tende a acontecer de dentro para fora.

Antes de qualquer coisa, e contrariando o senso comum, te convido a abandonar qualquer noção de compromisso. Não há nenhum dever nem obrigação a cumprir. Porém, é preciso mais do que apenas “intenção”. A CNV nos ensina a assumir responsabilidade pelas próprias escolhas, e não seria diferente quando se trata de aplicá-la no dia a dia. Portanto, tenha clareza do que você quer fazer, e não do que deveria.

Ao cuidar da relação consigo mesmo, resgatamos parte da liberdade, autenticidade, curiosidade e autoestima que perdemos durante o processo de socialização. Se libertar das estruturas que reforçam a separação, a escassez, a impotência e a indiferença requer consciência, vontade e esforço. Assim, para integrar a CNV na minha vida, penso a prática de 6 maneiras diferentes: aceitar a si mesmo, abertura para experimentar qualquer sentimento, assumir riscos, ser responsável pelas próprias escolhas, cuidar de si mesmo e manter o equilíbrio.

Aceitar a si mesmo inclusive, e principalmente, quando fizer algo que não gosta. Se perceber que está julgando a si mesmo, busque apoio (numa dose de silêncio ou empatia de alguém) para se restabelecer e tente reconhecer: 1) as necessidades que motivaram suas ações e 2) as necessidades que não foram atendidas pelo que você fez. Os sentimentos que motivaram a sua autocrítica vieram dessas necessidades não atendidas.

Mesmo que alguns sentimentos te pareçam desconfortáveis, mantenha-se presente (consciência do aqui e agora) e abra espaço para experimentar todo o espectro de sentimentos. Se perceber que está resistindo, evitando ou ignorando alguma experiência ou sentimento, busque apoio para abandonar suas defesas e entrar em contato com o que está emergindo em você. Todo sentimento é importante, por mais que a gente prefira um ou outro, porque sempre sinalizam quando alguma necessidade é atendida ou não.

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Permita-se assumir riscos e ofereça algo seu para o mundo, mesmo quando tiver dúvidas. Se perceber que sua autoestima está baixa e achar que não é alguém importante ou que suas ações não têm significado, busque apoio para se reencontrar e reconhecer que a sua mera presença e o que você tem a oferecer aos outros são relevantes. E não só os seus talentos e ideias, mas a sua alegria e tristeza também. Experimente seus sentimentos, esteja aberto ao que mais emergir e vá além. Arrisque se expor e confie que alguém é capaz de se importar o suficiente para saber dessas coisas e estar com você quando quiser expressá-las.

Mesmo quando estiver sobrecarregado de dificuldades ou emoções, assuma responsabilidade pelos seus sentimentos, suas escolhas e sua vida. Se perceber que está abrindo mão da sua responsabilidade em nome de outras pessoas, instituições ou abstrações (rótulos que aceitou, seu jeito de olhar para o passado, etc.), busque apoio para reencontrar a fonte das suas escolhas. Não há nada que você tenha que fazer. Temos o hábito de fazer as coisas com base nas consequências que antecipamos, mas a escolha é sempre nossa.

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Cuide de si mesmo, especialmente em fases de estresse, sobrecarga emocional ou desconexão consigo mesmo e com os outros. Evite fazer isso por obrigação. Deixe que o cuidado venha de querer o próprio bem-estar e se traduza em estratégias para suprir a sua vida. Se perceber que não está conseguindo lidar com a situação, busque apoio para redescobrir o valor da sua vida e a vontade de cuidar de si mesmo. Faça isso simplesmente porque você tem valor e está vivo, sem nenhum propósito ou motivo além de que todo ser vivo precisa de cuidado.

Mesmo que você queira se esforçar ao máximo para lidar com tudo o que foi dito até agora, mantenha o equilíbrio e esteja atento aos seus próprios limites. Se perceber que está querendo fazer mais do que consegue dar conta, busque apoio para respeitar a sabedoria natural do seu próprio corpo. Confie na sua capacidade; ela vai aumentar à medida que você permanecer dentro dos seus próprios limites. Lembre-se que você só consegue fazer uma coisa de cada vez, até mesmo quando apela para o multitasking — nossa mente só dá atenção a uma única coisa, mesmo que consiga mudar o foco a cada fração de segundo. Quanto mais multitasking, menos presença naquilo que se faz.

Viver a essência da Comunicação Não-Violenta será sempre um desafio enquanto estivermos inseridos numa sociedade violenta. Precisamos uns dos outros para suportar esse caminho e seguirmos juntos, independente do que os outros façam, independente da força das instituições ao nosso redor, não importa as circunstâncias.

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Bruno Braz

Engenheiro Químico (UFSCar-SP) e graduando em Psicologia (FMU-SP). É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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