Família

Quando um pai se despede do filho

Pensei que seguraria nas mãos do meu filho e o ensinaria a caminhar além dos muros da nossa casa. Vibraria com suas conquistas, seguras e, noutras vezes, recheadas de lágrimas. Eu, como pai, seria um lugar de força, um cais, uma estação de pausa e de fôlego para as andanças que o cansariam.

Pensei que envelheceria, teria domingos barulhentos, netos correndo pelo quintal, cansaço após o barulho do carro se despedindo, casa em desordem sinalizando a vida que vinha lá de fora. Meus cabelos brancos e minha voz, mudados pelos anos passados, sendo cuidados, cotidianamente, pela minha continuidade, você, meu filho.

A vida, essa senhora esquisita, sem cerimônias, linda em alguns dias e assustadora em outros, rindo dos meus sonhos presumidos me pediu outra alma, outro coração. Amanheço e preciso trocar de sonhos, de pés, mãos e coração, Senhor, trocar tudo. Meu filho você não chegará, alguns sonhos nem foram alçados. Eu, seu lugar de segurança, seu norte, me vejo frágil, com medo da hora seguinte.

Eu, pai, com lugares tão pouco povoados para a existência de dores masculinas, sigo. Meu silêncio, minhas mudanças de assunto e essa forma de trabalhar incessantemente, vão dando o tom da minha dor, sim, modos particulares de falar desse amor. Eu, herói nos seus medos, espantador dos monstros que habitavam os escuros do seu quarto, me apego a algo muito maior, no meu próprio silêncio, para cuidar das minhas dores e de sua mãe. Sim, meu filho, sinto medo quando não tenho você. Ore por mim, ore por nós, precisamos espantar os monstros do desassossego, precisamos que os vazios sejam apenas fora de nós, precisamos de você em nossas almas. Me ensina daí a ser forte…

(Imagem: acervo da internet)

Teresa Vera de Sousa Gouvea

Psicóloga Clínica Especialista em Família pela PUC SP, especialista em Luto pelo 4 Estações Instituto de Psicologia SP.

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Teresa Vera de Sousa Gouvea

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