Se não tiver em casa, procura fora! Esse é o ditado que determina culturalmente a posição da mulher quanto ao sexo: tem que fazer. Essa concepção remonta há vários séculos. O casamento nem sempre foi associado a necessidade de monogamia. Tratava-se de um contrato social, no qual o homem garantia seus direitos sucessórios e a mulher garantia proteção e um teto sobre sua cabeça. Que arranjo!

Com o fortalecimento da igreja cristã, e, também, o aumento das doenças venéreas (sífilis e gonorreia, principalmente), foi reafirmada a importância da monogamia como proteção à saúde e integridade do seio familiar. Porém, junto com isso veio a “responsabilidade feminina” de saciar todo o desejo do homem, que agora teria que ser satisfeito apenas em casa.

O homem sempre foi visto como o varão, aquele com energia sexual constante e pronto para transar a qualquer hora. Isso também trouxe suas consequências e pretendo abordá-las num texto futuro. Por ora, vamos focar no que isso interfere no exercício da sexualidade feminina. O homem precisa saciar suas vontades. Melhor, necessidades! Se não faz, seu estresse aumenta, suas bolas doem (perdão pelo palavreado, mas não havia outro jeito), e é “obrigado” a procurar escape em outro lugar, caso não encontre com sua parceira (o). Os meios escolhidos mais comuns são pornografia, profissionais do sexo e um relacionamento extra.

Independente do que acontece na vida do casal, a responsabilidade por manter a fidelidade do homem e consequentemente a manutenção da relação é da mulher. Mesmo que isso não seja falado abertamente é possível perceber isso. A maioria dos clientes de sex shops são mulheres (ou homens gays), a pornografia tem seu maior publico consumidor o masculino (porque eles tem “mais desejo”), além do maior público a fazer cirurgias plásticas ser de mulheres. O mercado é feito para que as mulheres sempre sejam desejáveis para seus parceiros.

Outro ponto que precisa ser levantado é a ideia de que o homem envelhece melhor, então a mulher sempre tem que correr atrás do prejuízo. Ouvi certa vez uma frase que dizia “homem envelhece como vinho e mulher como maionese”. Ou seja, mulher só se estraga, embaranga. Mesmo quando a mulher mais velha é valorizada (como em “panela velha é que faz comida boa”), não se trata de sua imagem, mas sim de sua vasta experiência.

Tendo em vista esse contexto, é possível entender o peso que as mulheres carregam nas relações. Além de estarem correndo contra o tempo para manter sua beleza, elas tem que prover atração e novidade. Isso é muito pesado! Mais do que isso, é horrível! A mulher, independente do tipo de engajamento que tenha, tem que garantir que seu homem não fuja. Nem parece que estamos no século XXI. Mesmo com anos de desenvolvimento, ainda tratamos sexo como mantenedor ou garantia de relações e como questão de propriedade. Parece uso capeão, se alguém usar mais que você, é dele (a).

Leia Mais: 6 Reclamações sobre sexo que os terapeutas de casais mais ouvem

Se tudo isso não bastasse fazer, ainda há a cobrança de que as mulheres desejem sexo! Tenho recebido no consultório, desde que comecei a atuar como terapeuta, várias mulheres com “problemas sexuais”. A queixa é de que elas não querem transar e querem ter desejo. Quando investigo o que acontece com elas, observo várias das coisas que pontuei acima. Elas devem estar sempre lindas, cheirosas, depiladas e desejosas. Sentem-se obrigadas a cumprir seus “deveres maritais”. Além do cuidado da casa (que ainda é responsabilidade da mulher, cabe ao homem apenas “ajudar”), educação dos filhos e colaboração financeira.

Claro que cada caso é específico, no entanto um padrão é perceptível. As mulheres sentem-se obrigadas a fornecer prazer, mas não necessariamente o recebem de volta. Seus companheiros não se depilam para receber sexo, não compram roupas especiais, não participam ativamente das atividades da casa de forma a dividir as tarefas. Obviamente que estou generalizando, mas não existe a mesma cobrança. Mesmo quando o casal não transa, quem geralmente busca ajuda é a esposa ou companheira.

Não excluo as hipóteses orgânicas da falta de desejo. Doenças como depressão, ansiedade, Burnout e o uso de alguns medicamentos de uso contínuo interferem para a diminuição da libido. No entanto, elas precisam ser investigadas por um profissional e não podem ser tomadas como único determinante.

Não é possível configurar que o desejo se construa ou desconstrua como algo individual. Somos seres complexos e muitas são as variáveis que interferem. Porém, algumas delas foram citadas aqui e precisam ser discutidas e abordadas antes de culpabilizar a mulher.

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4 COMENTÁRIOS

  1. G-zus! Quanta falta de informação, machismo e moralismo. Que desserviço para as mulheres isso, e que reafirma que homem tem NECESSIDADE de sexo. PESSOAS podem ter necessidade de sexo. Aliás, que tal fazer um artigo discutindo sobre o contrario? De homens que não têm MAIS interesse sexual (seja pela parceira ou qq namorada etc)? Elas tbm devem procurar fora? Pelo amor de Deus… estou abismada com o que li. Se eu falo isso pra um paciente, no que tô ajudando ele? Pq só vejo prejuízo nessa abordagem. E se minha analista fala isso pra mim, eu troco de analista. Fica a dica. Numa boa.

  2. Meninas, o texto desconstrói um ditado popular. Em nenhum momento o defende, pelo contrário.
    O texto responsabiliza a cultura machista expressada no ditado.
    Convido vocês a lê-lo novamente com essa ideia.

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