Sabe o que é mais difícil no fim de um relacionamento abusivo? No início, é o fim em si. É aceitar a ideia de que não terá mais. E que outra pessoa ocupará o “seu lugar” (isso se já não ocupou). É perder aquele beijo, aquele abraço, aquele corpo que era “seu”.

No início o que mais incomoda é a mudança brusca de algo que você já tinha se acostumado. Amando ainda a pessoa ou não, mas se acostumado a ela, certamente. Sair da zona de conforto é um desafio para todo ser humano, por isso fins de relacionamentos são sempre dolorosos, por pior que o relacionamento tenha sido. Geralmente, quanto mais tempo mais difícil é, mas não depende somente disso.

Depende muito da intensidade da pessoa. Amor e sentimento de posse se misturam e/ou se confundem (muitas vezes é só posse mesmo, mas acreditamos piamente ser amor). Isso é muito comum, pois fomos ensinadas que se você ama tem que fazer mil coisas pela pessoa: cuidar, respeitar, abrir mão, agradar… A posse vem seguida da expectativa, afinal se você faz de tudo pelo outro, espera que ele retribua na mesma proporção. Acontece que nem sempre (aliás, quase nunca) o que esperamos do outro é o que ele pode/quer nos dar e vice versa.

Depois que passa essa fase bem fossa do “não consigo viver sem ele” você começa a cansar de sofrer tanto. Embora talvez não quisesse muito, continua viva. E o que mais entristece e revolta é pensar em quanto tempo você perdeu em um relacionamento ruim. Porque quando acaba, muitas vezes, já estava “acabando” há certo tempo. Talvez já tivesse até acabado algumas vezes ou nunca “foi” de fato (só nas ilusões da sua cabeça).

Mas o “amor” é a desculpa para tudo. E quando de fato acaba você vê o quanto perdeu tempo. E não é só tempo. Você desperdiçou carinho com quem não merecia, chorou por quem não estava nem aí, se humilhou por quem não te valorizou, abriu mão de tanta coisa pra lutar por alguém que por escolha própria preferiu (ou não se importou em) viver sem você. Você se sente estúpida, ingênua, usada. E admitir isso pra si mesma é complicado.

Ainda tem o detalhe de pensar que o outro já superou “e eu estou aqui ainda sofrendo”. Isso faz nos sentirmos bobas… E isso dá tristeza, que faz a gente sofrer… Por quem? Por quem não merece, o que faz nos sentirmos bobas… É um ciclo vicioso. Que só para quando a gente REALMENTE cansa de sofrer. Quando você para de se fazer de vítima pra si mesmo e pros outros.

Tem uma hora que você tem que falar um F***-se bem grande pra sociedade! “F***- se se meu ex já está com outra!” “F***-se se todos à minha volta estão namorando!” “F***-se se não tenho companhia pra hoje à noite!” Nada dura pra sempre, nem mesmo o sofrimento que parece muito que vai durar… Um conselho que eu daria: permita-se sofrer um pouco, tenha o seu momento de luto, curta sua fossa. Mas saiba o seu momento de cansar dela e de seguir em frente.

Acredito que cada pessoa tem o seu tempo, mas quem define isso é você mesma. É você que tem que tomar de novo as rédeas da sua vida.

Não acredito nem acho saudável quem termina um relacionamento e está todo dia na balada. Acho mentiroso para si. A pessoa está lá não porque superou, mas porque quer mostrar para os outros que superou, mas quando está sozinha em casa desaba em choro e solidão… Do que adianta? Não se trata do que você passa para os outros, do que pensam sobre você.

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O que importa é o que você sente, o que você está passando. Se você for feita de carne, osso e sentimentos, vai sofrer como qualquer mortal, se enganando ou não quanto a isso… Mas não importa quanto tempo tenha ficado mergulhado na autoenganação, só depende de você sair. E sabe por que e por quem? Por VOCÊ! Exclusivamente por você. Se amar é importante.

Quando ficamos muito tempo em relacionamentos abusivos, acabamos depositando no outro a responsabilidade por nos amar. Está errado! Quem tem que nos amar somos nós mesmas! Outra pessoa pode nos amar também, mas isso é consequência…

Não quer dizer que você não deva sair e se divertir. É óbvio que deve! Só estou dizendo que existe momento para tudo: para chorar, comer chocolate e desabafar com as amigas e momento para sair, beber, espairecer… O que não é saudável é mentir para si mesma que está tudo bem quando ainda não está, é fazer uma coisa para mostrar para o mundo sendo que não é o que você queria verdadeiramente fazer…

Você vai ficar chata, vai alugar o ouvido dos amigos sim e tudo bem… Se for religiosa vai ficar apelando pra Deus em frases nas redes sociais. Mas nada disso resolve. Traz alívio momentâneo, mas ninguém vai te tirar da fossa. Você tem que aceitar que seu príncipe virou sapo (talvez nunca deixou de ser) e a vida continua. Você fez planos que não se concretizaram, mas fazer o que? Você se livrou foi de um problema!

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E a vida vai seguindo, dia após dia. E ela não tem que ter uma razão, um propósito. Ela só tem que ser vivida. Talvez não seja tão agradável, mas está aí, é o que tem. Ocupe-a, sempre que possível, com coisas que você goste. Porque 80% da sua vida você já vai ter que ocupar com obrigações: trabalho, estudos, organização… Então quando puder faça algo que goste, seja o que for.

Sim, com o tempo as coisas que você gosta vão voltando a ter graça novamente: ler, escrever, ver filmes, ficar em casa jogada no sofá, conversar, flertar, sair, comer, dormir, dançar, beber, transar… Enfim. Faça o que você estiver a fim de fazer, sem culpa. Não se sinta obrigada a fazer algo que faça sentido para os outros. Não faça nada para agradar ou para desagradar ninguém. Só faça o que estiver afim, sempre que possível. Permita-se matar as vontades e realizar os desejos. Você é uma pessoa, não um robô programado. Aliás, isso vale para a vida toda.

Uma hora um relacionamento legal pode aparecer na sua vida. Ou não. Mas de qualquer forma, não procure desesperadamente. A regra da vida parece ser essa: não procure nada (exceto emprego, esse não tem jeito, tem que procurar). Deixe que as coisas aconteçam, esteja aberta para o novo.

As melhores amizades e relacionamentos acontecem por acaso… Do nada você conhece alguém que muda sua vida. Claro, use sua experiência adquirida nas próximas vezes. Não deposite no outro todas a expectativas de ser feliz. Até porque ser feliz o tempo todo não é uma obrigação. Sair todo fim de semana não é uma obrigação. Ter muitos amigos não é uma obrigação. Ter um namorado não é uma obrigação. Casar e ter filhos não é obrigação. E nada disso precisa ter a ver com ser feliz ou não, mas que também (como eu já disse), não é uma obrigação.

Se estiver com dificuldade de lidar com isso sozinha, procure ajuda profissional.

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Ellen Dutra de Oliveira
Graduada em Engenharia Civil, atua como militante em movimento social. É apaixonada por animais, livros, música, filmes, séries e pelos mistérios da mente humana. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


2 COMENTÁRIOS

  1. A vida se resume as experiências passadas. Por mais que tenha sido um relacionamento abusivo, você não perdeu tempo, vc adquiriu bagagem e seja grata por isso, pois ela é quem vai te salvar de futuros relacionamentos que tenham esse perfil. Com certeza, hoje você sabe o tipo de pessoa que vc não quer na sua vida e tudo isso graças ao seu passado. Realmente, é muito difícil aceitar o término, mas veja pelo lado bom, o relacionamento durou o tempo que tinha que durar, agora vc está livre para conhecer alguém legal ou para se curtir mais.

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