Gostaria de começar esse texto agradecendo a todo mundo que leu meu texto anterior, sobre por que sair de um relacionamento abusivo não é tão simples assim e que, de alguma forma se sentiu melhor, ou que tiveram forças para reconhecer algo que até então era muito difícil. Sinto-me plena de verdade quando vejo que posso ajudar alguém, mesmo que à distância.

Mas vamos lá. A pedidos, estou fazendo um texto que serviria para qualquer gênero, mas fiz principalmente para as mulheres, que são o meu público alvo. Confesso que é complicado apontar passos, porque, quando falamos de sentimentos, relacionamentos e pessoas, nada é garantido. Felicidade não é receita de bolo, e às vezes o que funciona para certas pessoas não funciona para outras e vice-versa. Sendo assim, darei alguns exemplos que funcionaram para mim e também para outras garotas que sofreram outros tipos de situações pelas quais eu não passei, mas que compartilharam comigo suas experiências para que esse texto fosse possível.

Como nenhuma verdade é absoluta, leiam os passos seguintes como conselhos, e sintam-se à vontade para pensar sobre como cada um pode ajudar vocês!

1 – Procurar ajuda:
Se você está numa situação incômoda, abusiva, violenta, enfim, em que você se sinta desconfortável, procure ajuda. Muita gente omite a realidade (principalmente de si) e não procura ajuda por vergonha, mas pense que você não está sendo julgada, e sim que você está buscando melhorar algo que você ainda não consegue sozinha. O ideal é fazer um tratamento psicológico durante um tempo, isso ajuda a gente a se entender e se conhecer melhor, podendo ver com mais clareza a realidade como ela é, além de ajudar a gente a se preparar para tomar decisões, como dar um término ao relacionamento e enfrentar o abusador. Mas, como eu sei que nem todo mundo tem condições de pagar esse tipo de tratamento, procure ajuda em alguém que você confie e possa conversar abertamente: mãe, amiga, professora, irmã. Qualquer pessoa que te escute e que você possa se sentir a vontade para por para fora a sua dor.

Se não há pessoas assim na sua vida, eu aconselho que você escreva, ou grave a sua voz quando você estiver aflita, e depois leia/escute e reflita sobre tudo que está ali, e tente encontrar o que está te incomodando de verdade. Além disso, você pode ligar para o Centro de Valorização da Vida, o CVV, pelo número 141. No CVV, há pessoas preparadas para oferecer suporte emocional para pessoas que estão passando por situações que envolvem a sua integridade emocional ou física, como o suicídio.

2 – Encontrar algo que você gosta, e fazer:
É clichê essa segunda dica, mas eu vou explicar por que ela é tão importante. Às vezes, quando entramos num relacionamento, tendemos a por certas coisas de lado por que, em um compromisso, muitas vezes acreditamos que é importante dedicar-se apenas a ele. Porém, um relacionamento não pode te impedir de fazer o que você gosta: as suas coisas não são menos importantes. Perceba, não estou falando para você ser egoísta e ignorar as necessidades alheias, estou dizendo que só você sabe o valor das coisas na sua vida, e ninguém pode tentar mudar isso.

Sendo assim, cuidado com frases desmerecedoras como: “Isso é inútil”, “Qualquer um pode fazer isso”, “Deixa isso pra lá e faça tal coisa agora”. As coisas que você ama são as coisas que traduzem um pouco de você, logo, se você curte desenhar, desenhe. Pintar? Pinte. Escrever? Escreva. Fazer planilhas no Excel??? FAÇA. Quando você faz o que você ama, você se fortifica e se distancia de pessoas que te põe pra baixo.

3 – Se informar sobre feminismo:
Esse é um tópico complicado, por que o feminismo às vezes é associado a partidos políticos, mas não é esse meu intuito: quando eu falo em feminismo, falo em ter uma visão mais crítica sobre a realidade que temos ao nosso redor e sobre o papel que nós, mulheres, desempenhamos na sociedade – incluindo os nossos relacionamentos. Depois que eu pesquisei e comecei a ler sobre o feminismo, minha visão sobre muita coisa mudou e muitas situações que, para mim, eram normais, muitas das vezes contribuem para um relacionamento conturbado – porque, para a maioria das pessoas, também são situações normais.

Por exemplo: o cara te humilha ou joga piadinhas por que você teve muitos parceiros; o marido que diz que as tarefas de casa devem ser exclusivamente da mulher, já que ele trabalha fora; a exigência da sociedade de que nós, mulheres, somos as responsáveis por evitar gravidez indesejada. Tudo isso, e muito mais, é diariamente entendido como situações comuns e por isso as aceitamos, porque, quando não temos consciência do nosso poder de fala, o machismo nos silencia e nos objetifica.

Então, enquanto feminista e eterna aprendiz estou aqui para dizer: quer sair com vários? Saia. Quer casar virgem? Case. Não quer se depilar? Não depile. Quer? Siga em frente. Quer ser mãe? Maravilha. Não quer? Maravilha também. O corpo é seu, a voz é sua, e você deve viver do jeito que te faz mais feliz. Num relacionamento saudável, há compreensão, e não controle. Se assumindo do jeito que se é, abusos se tornam bem menos toleráveis. Deixo aqui o link da ma-ra-vi-lho-sa Chimamanda Ngozi, ela conhecida como uma das maiores “representantes” do feminismo da atualidade. Aconselho muito que vocês vejam quando tiverem um tempinho:

4 – Observar de forma crítica certos tipos de comportamento.
Durante um relacionamento, fechamos os olhos para alguns defeitos do parceiro (até certo ponto é normal, todo mundo passa por isso no processo de paixão), mas, em alguns casos, tente perceber de forma mais crítica as situações em que o seu parceiro te coloca. Quem fala sobre seu exemplo pessoal é a Fernanda Pimenta, que inclusive não pôde trabalhar durante o relacionamento:

“Só tive um relacionamento até hoje, que durou quase três anos. Na época, eu era muito nova e inexperiente e desde o início do relacionamento (…) passei quase um ano tentando terminar amigavelmente e tentando fazer ele entender que não dava mas certo, mas ele sempre invertia a situação a favor dele, fazia muita pressão psicológica falando que iria se matar, que não ia conseguir viver sem mim e eu acabava deixando pra lá e continuava o relacionamento mesmo que muito desgastado, e a essa altura eu já não tinha mas amigos e ninguém com quem conversar por que me afastei de todos por causa dele, mas ele foi piorando cada vez mais.(…) Eu decidi dar um basta e terminei, mas ele fez todo aquele drama, muita pressão psicológica, chegou até a me ameaçar dizendo que eu iria pagar pelo que tinha feito com ele, porém eu não me deixei intimidar com isso. (…) Com certeza se em um relacionamento o seu parceiro usa de chantagem com você para conseguir algo, já é um sinal.”

5 – Desconstruir a ideia de que outras mulheres, (principalmente as ex do seu atual) são suas inimigas.
É, é difícil: quem nunca sentiu uma pontinha de ciúme, que atire a primeira pedra. E sim, existem casos em que a ex sempre arranja uma forma de “cutucar” a atual e vice-versa. Mas a questão é: já paramos para analisar o porquê de toda essa competição? A não ser que uma mulher tenha feito algo consciente para te machucar, tente começar a lidar com a ideia de que outras mulheres a priori não são suas inimigas, que todas têm o seu valor e beleza, e que é possível sim haver união e cumplicidade entre mulheres. O melhor exemplo que eu cito agora aconteceu com a Cínthia Casagrande e a Daniela Barbosa: elas foram enganadas pelo mesmo rapaz, e após outra menina contar para as duas o que houve, elas puderam tirar dessa experiência traumática não uma rivalidade, mas sim apoio mútuo.

“Ele e a Cínthia foram casados por quatro anos, num relacionamento abusivo horrível cheio de mentira e traição. Só que a Cínthia nunca desconfiou dele, por ele ser extremamente manipulador e sempre fazia ela acreditar que ela era a louca e errada da história. Em dezembro do ano passado, ela descobriu que ele tinha outra namorada em outra cidade, e eles terminaram. Foi depois disso que ele começou a sair comigo. A gente começou nosso relacionamento em fevereiro desse ano, e estávamos juntos até umas três semanas atrás. A história que ele me contava é que desde dezembro nunca tinha tido mais nada com a Cínthia. A parte que ele não me contou, é que eles acabaram voltando e tava praticamente morando juntos de novo.

Como moramos em cidades diferentes, a gente só se via nos finais de semana, e durante a semana, ele ficava com ela. Só que uma nem sonhava com a outra. Ele ficou durantes uns três meses namorando com nós duas. Eu já conhecia eles desde 2014 e sempre me dei bem com a Cínthia. Só que depois que comecei esse relacionamento com ele, ele minou minha cabeça contra ela. Dizia que ela nunca tinha gostado de mim, que ela era maluca etc. (…) Aí uma amiga dele, que sempre soube todos os podres dele, que viu que eu tava sofrendo nessa situação, resolveu me ajudar. Veio falar comigo e me contou que ele falava coisas absurdas de mim. (…) E essa amiga dele contou pra Cínthia o que tava rolando comigo, e a gente acabou se encontrando pra contar tudo uma pra outra o que a gente sabia sobre ele e o que ele fazia com cada uma. Antes de deixar o cara criar uma imagem das ex dele, a gente que tem que conhecer com nossos próprios olhos, e jamais ver uma ex como inimiga, elas podem ser muito amigas, e ainda podem te ajudar.”– Daniela Barbosa.

Conversamos muito, e tudo foi se encaixando. Ela me contou coisas que eu não sabia e eu pra ela. Enfrentamos juntas, rebatemos todas as tentativas de vitimização perante a gente. Agora estamos construindo uma amizade que poderia ter rolado há muito tempo, mas que não rolou porque ele nunca permitiu que a gente se aproximasse. Juntas, e nos apoiando, acredito que será menos dolorido passar por isso. (…) “Ai Cínthia, pra que se expor dessa maneira???” Porque eu não quero que outras meninas passem pelo que eu passei. Agora nós estamos juntas nessa, sabemos que não tivemos culpa de nada e que não sabíamos uma da outra. Estamos juntas pra nos apoiar, pra nos darmos força pra superar esse show de horrores. Eu agradeço por ter conhecido melhor essa menina maravilhosa e sei que podemos ser grandes amigas a partir de agora. E que vamos superar tudo porque somos fortes, JUNTAS SOMOS MAIS FORTES! Quando as mulheres se unem, nada pode contra elas <3 – Cínthia Casagrande.

6 – Tente manter uma vida independente.
Essa dica parece com a segunda, mas nesse caso me refiro à questão financeira. Quando você tem o seu dinheiro (mesmo que seja pouco), você mantém sua independência e se sente mais segura caso precise tomar alguma decisão mais emergencial, como uma viagem ou mudar de endereço para recomeçar sua vida. Kátia Oliveira falou um pouco como isso funcionou para ela:

“No começo eu era apenas uma dona de casa, não podia trabalhar, sair pra lugar nenhum, nem mesmo na casa da minha mãe ou minhas irmãs. Eu vivia apenas pra cuidar da casa e dos filhos e do tal marido. Mas chegou um momento em que eu me revoltei com aquela situação e vi que estava tudo errado, e somente eu poderia fazer alguma coisa pra mudar, então resolvi começar do zero. A primeira coisa que fiz foi voltar a estudar, foi complicado demais, pois estava sozinha, mas não desisti. Depois comecei a trabalhar, e aí não teve jeito as coisas pioraram mais, porém eu não queria mais viver daquele jeito, tendo que depender de alguém e dar satisfação de tudo que queria fazer (…) Pra mim o mais difícil com certeza era a dependência financeira, por isso resolvi estudar e graças a isso hoje tenho uma profissão e um emprego estável e não dependo de ninguém. (…) Acho que quem está numa situação dessas não deve fazer tudo o que a outra pessoa quer, cada um tem que ter o seu espaço e tempo, tudo dividido. Esse papo de não poder sair sozinha ou com uma amiga, não poder usar uma roupa ou maquiagem… se começar assim já deve cair fora logo, porque não vai parar…mulher aceita porque tem medo de ficar sozinha, mas isso tá errado. Qual o problema em ficar sozinha?” – Kátia Oliveira.

Karin Müller, formada em psicologia pela PUC-RIO, nos informa melhor de que forma esses abusos podem se apresentar numa relação amorosa (a priori heterossexual):

“Existem aspectos biológicos, psicológicos e sociais envolvidos em relações humanas. Não é diferente para relacionamentos abusivos. Quando uma pessoa se apaixona, há áreas do cérebro relacionadas com a recompensa e a motivação que se ativam. Além disso, o objeto de amor parece perfeito, os pensamentos negativos e o julgamento são diminuídos. Pode ser estimulada, inclusive, a produção da dopamina, neurotransmissor responsável por uma sensação de prazer intensa e pela dependência, pelo vício. Em nossa sociedade, os papeis de gênero ainda são bastante rígidos. É mais comum um relacionamento abusivo ter como abusador o homem. O conceito de masculinidade atual ainda é ligado à dominação, honra e agressão. Ou seja, há normas socioculturais que outorgam ao homem dominação sobre o comportamento feminino. As mulheres são educadas, desde pequenas, a serem mais contidas, não demonstrarem agressividade. Muitas são ensinadas que aceitar a violência pode resolver o conflito e, procurar ajuda, além de vergonhoso, estimularia a briga. Apesar de todos esses fatores que favorecem o abusador, para que se saia de um relacionamento abusivo, primeiro é importante conseguir reconhecê-lo.

São quatro tipos de violência mais comuns praticados pelos abusadores:

1) A violência física, na qual um indivíduo tenta causar dano, interno ou externo, por meio de força física.

2) A violência psicológica, que envolve ações e omissões que causam ou visam causar dano à autoestima, identidade ou desenvolvimento da pessoa.

3) A negligência, que é omissão de responsabilidade de uma pessoa em relação a outra, sobretudo quando se precisa de ajuda.

4) A violência sexual, na qual uma pessoa em situação de poder obrigando outra a realizar práticas sexuais, a partir de força física, armas, drogas ou influência psicológica.

Há fatores na história da pessoa que favorecem a inserção em uma relação abusiva. Ter um modelo familiar ou parental violento; ter sofrido maus tratos, negligência, rejeição ou abuso sexual na infância; casar ou se relacionar como fuga da situação familiar de origem, de forma que o parceiro se torna ainda mais idealizado; ter sintomas depressivos, autodestrutivos; e não ter uma rede de apoio eficaz de moradia, amigos, saúde, atendimento policial e justiça.

Uma vez tendo percebido a violência, a pessoa precisa de força para conseguir sair dessa situação. Em muitos casos, a mulher se sente responsável pelo comportamento agressivo do companheiro. Além disso, como são oprimidas, temem a represália. A situação tende a se tornar mais grave quando a pessoa depende financeiramente do par ou há filhos com quem se preocupar, já que a dependência deixa de ser apenas emocional. Muitas vezes, os amigos e família enxergam a situação e não suportam o sofrimento que os causa. Assim, a pessoa perde esta rede de apoio e só resta a ela a esperança de que o parceiro mude e, no futuro, passe a respeitá-la.

No entanto, nesse jogo de poder, o abusador tem muitas vantagens, e não há motivos para ele mudar espontaneamente. Portanto, a decisão final é da pessoa que sofre a violência, principal prejudicada.

Ao enxergar tal situação, o que se pode fazer é apoiar, conscientizar com empatia, ter paciência e indicar ajuda profissional. Há inclusive casos nos quais as pessoas repetem este modelo de relação ao longo de toda uma vida, caso não tenham tratamento psicológico adequado”.

Então é isso meninas. Eu e todas as moças que fizeram parte desse texto, torcemos para que você que esteja lendo, ao se identificar ou conhecer alguém que está nessa situação, possa se ajudar ou ajudar alguém a encontrar uma verdadeira saída. E lembre-se que você não pode mudar com quem se relaciona, mas pode mudar a si mesma.

Gratidão a todas as meninas que abriram seus corações a mim, contando suas histórias, dando conselhos, e claro, demonstrando como conseguiram sair de relações nem um pouco saudáveis. Vocês fizeram parte desse texto, e agora ele pode ser lido por muitas outras minas. Obrigada de verdade a Cínthia Casagrande, Daniela Barbosa, Fernanda Pimenta, Kátia Oliveira e Karin Müller.

Referências Bibliográficas:

DAY, Vivian Perez et al (2003). Violência doméstica e suas diferentes manifestações. Revista de Psiquiatria, 25 (suplemento 1): 9-21 http://www.scielo.br/pdf/rprs/v25s1/a03v25s1 . Acesso em Agosto de 2016.

BREWER, Gayle (2016). Que es el amor? Esto es lo que nos dice la ciencia – The Conversation em El país. Julho de 2016. http://elpais.com/elpais/2016/07/14/ciencia/1468517563_508117.html Acesso em Agosto de 2016.

SAAVEDRA, Rosa Maria Melim (2011). Prevenir antes de remediar: prevenção da violência nos relacionamentos íntimos juvenis. Tese de doutorado em Psicologia da Justiça. Em: http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/14248 Acesso em Agosto de 2016.

Autora: Luiza Pion, produtora, feminsta e aquariana. Apaixonada por café, confeitaria, grafite e chão de madeira. Acredita que a arte pode mudar o mundo.

*Texto reproduzido com a autorização da autora

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