Precisamos, sim, de amor próprio. Precisamos porque a aceitação do outro torna-se mais proveitosa quando há aceitação sobre si mesmo.

Mas engana-se a pessoa que, no intuito de resguardar-se, distingue amor próprio do amor mesmo. Engana-se a pessoa que, ao defender sua autoestima, ilude os próprios olhos para que acreditem que está melhor sozinha, que a própria felicidade é tão importante e precisa ser mantida, a ponto de não deixar-se contagiar por sentimentos que a fariam perder o seu controle. Engana-se a pessoa que, clamando pela própria liberdade, evita o amor ao outro, pois entende que amor é apego.

Não, o amor que se doa não anula o amor que se preenche – sequer vice-versa. O amor, saibam, não é apego.

É comum confundirmos amor com posse, com apego, com o que for que defina e delimite linhas tênues entre o que é “meu” e o que é “seu”. Mas, a bem da verdade, nem sempre uma coisa caminha com a outra. Apego está mais para egoísmo de quem não quer perder, enquanto amor está mais para um ‘abrir mão’ daquilo o que nosso desejo preferiria manter – caso a razão elucide como necessário.

Assim, a “felicidade” (aspas porque seria uma sensação de felicidade, nada mais que isso) estaria mais inclinada ao apego que é devidamente mantido, sem dificuldades a superar e que preenche nossas expectativas. O apego “sob controle”, nesse caso, estaria inclinado a um amor próprio, à nossa própria pessoa.

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Porém, também quando há amor não podemos dizer que há, necessariamente, felicidade. A felicidade, enquanto uma sensação de satisfação e plenitude, pode ser diminuída pelo amor que cede, que deixa o desejo de lado para o bem da pessoa amada. Esse amor, por muitos visto como tolice (e há razões para isso), acaba por não ser visto como A prioridade.

A prioridade de nossas vidas, todos sabemos, é o amor próprio, a autoestima lá em cima, o abraço apertado em si mesmo, a busca da autossuficiência… Bom, ao menos é o que dizem.

Afinal, num mundo cada vez mais individualizado onde somos criados a manter uma imagem que diga às pessoas que temos o que queremos, num mundo de ‘umbiguismo’ desenfreado, como é que um sentimento que acolhe a perda, que nos faz perceber que não podemos ter tudo o que queremos, e que sofreremos por querermos tanto, poderia ser aceitável, não é mesmo?

Somos, nos dizem, seres de ‘extrema importância’, seres ‘únicos’ e ‘incríveis’. O amor, sendo um sentimento que exporia todas as nossas fragilidades e inclusive faria cedermos nossa importância à importância de outro ser, não pode ser tolerado.

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Então, que amemos pura e simplesmente a nós mesmos, pois isso é tudo o que importa. Que continuemos confundindo amor com apego, de forma a nos fazer crer que estamos melhor sozinhos. Que evitemos demonstrar sentimentos por outra pessoa, a fim de não tornar pública a nossa fragilidade e carência de doação a alguém.

Que continuemos, enfim, clamando por desapego e pedindo por mais amor próprio, mesmo sabendo que o erro está em acreditarmos que aquela possessão que nos frustrou era, de fato, amor, e não apenas mais um reflexo desse auto-prestígio cego e desenfreado que cultivamos a favor de nós mesmos, desse umbiguismo que nos faz acreditar que devemos ter o que queremos ter.

Quem sabe assim quebremos mais rapidamente a cara e caiamos logo na real.

(Autor: Alysson Augusto)
(Fonte: Tempo de amor – amor.ano-zero.com)
*Artigo publicado com autorização do site

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