A psicanálise nos ensina que nos constituímos a partir do olhar do outro, do encontro, mas para que isso seja possível é fundamental também cuidar de si.

Fim de ano. Tempo de recordar o que passou e voltar a atenção para o futuro, pensando no que queremos que venha e, principalmente, no que podemos fazer de melhor por nós. Albert Einstein (cujo cérebro, roubado durante autópsia e insistentemente estudado ao longo dos anos, é tema de artigo nesta edição) disse que insanidade é ter as mesmas atitudes esperando obter resultados diferentes. Faz sentido. Curioso é que mesmo sabendo disso, nos surpreendemos repetindo e repetindo… Em muitos casos é como se um aspecto mais regredido de nossa mente teimasse em tomar decisões pouco cuidadosas.

Um caminho mais cuidadoso para lidar com essa armadilha pode ser aproximarmos o que devemos daquilo que queremos. Se reconhecemos que precisamos fazer algo, ainda que não traga prazer imediato, mas nos garante benefícios mais amplos, é importante responsabilizarmos por isso. Por exemplo: podemos não ter vontade de levantar cedo para trabalhar, mas desejamos os benefícios que a atividade profissional trará, como oportunidades de realização, reconhecimento, aprendizado ou mesmo dinheiro.

Portanto, queremos desfrutar dessas gratificações – e o trabalho é o caminho para obtê-las. Em seu artigo, o psicólogo Roy F. Baumeister defende que ser capaz de postergar o prazer é algo extremamente positivo. A ideia não é nova – Freud já associava essa capacidade ao amadurecimento psíquico ao construir a noção de princípio do prazer e de realidade.

Muitas vezes, porém, parece difícil simplesmente nos oferecermos aquilo que nos faz bem e, atabalhoadamente, nos lançamos em buscas equivocadas e arriscadas na tentativa de encontrar amparo no que não pode nos confortar – seja comida,  bebida, droga, cigarro, relacionamentos, trabalho ou qualquer outra adicção.

Não é novidade: o que desejamos mesmo é ser feliz. Essa busca costuma estar, direta ou indiretamente, associada ao anseio de receber atenção, afeto, carinho. O problema é que, quanto mais tentamos conseguir do outro o que julgamos ser necessário para aplacar nossas carências, mais nos sentimos vazios, dependentes e vulneráveis. Não se trata obviamente de cair na fantasia ressentida de que não precisamos de ninguém – afinal, como ensina a psicanálise, nos constituímos a partir do olhar do outro, do encontro. Mas até para que isso seja possível é fundamental também cuidar de si.

O curioso é que quanto mais podemos partilhar – companhia, afeto, dedicação – de forma autêntica, vivendo o momento presente com gratidão pelo que temos, sem esperar receber algo em troca, mais nos sentimos satisfeitos, tanto conosco quanto com quem nos cerca. Abrir espaço mental para oferecer delicadeza e atenção sem precisarmos ser recompensados por isso (apenas porque temos para compartilhar) amplia espaços psíquicos, uma vez que nos leva a reconhecer potencialidades e nos torna mais autônomos em relação às nossas próprias escolhas.

Somos influenciáveis e interdependentes, mas não é só: há espaços para fazer escolhas. Dedicar energia psíquica, tempo e atenção ao que nos faz bem (de verdade e não apenas momentaneamente) pode ser a forma mais inteligente e eficiente de egoísmo – e cuidado.

(Autora: Gláucia Leal)

(Fonte: este artigo foi publicado originalmente na edição de novembro de Mente e Cérebro)

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