“A religião é humana. A espiritualidade é Divina”, Guido Nunes Lopes.

Uma palavra que é mal compreendida pelos especialistas é a espiritualidade. Alvo de críticas extremistas e intolerantes, a conexão com o divino ou transcendência pode ser experimentada por indivíduos que não possuam ligação alguma com denominações ou seitas religiosas. Para o filósofo Sam Harris, “a espiritualidade deve ser distinta da religião. Pessoas de todos os credos e aquelas que não têm fé alguma têm os mesmos tipos de experiências espirituais”.

Na verdade, meditar, contemplar a natureza, amar, ter paz, bondade, fé, mansidão, temperança e até gozar são algumas formas de se chegar à espiritualidade. Claro que a religião (no sentido de religação com a divindade) também é a ponte para tal transcendência, mas não é a única.

A distorção da espiritualidade é claramente visível em teologias materialistas. O Deus que os injustiçados procuram nos templos erguidos com o lucro das “Tele Senas divinas” tem uma característica dos contos de fadas: é manipulado pelos falsos profetas a conceder desejos aos fiéis pagadores de propina celeste.

A hiperbólica fantasia da exuberância dos objetos mágicos, que os “pobres de espírito” compram nas igrejas, serve como barganha indulgente para a prosperidade e salvação eterna. Isso nada tem a ver com a espiritualidade.

Há, no mundo, infinitas religiões. Todas com suas “verdades” e fora de tais rebanhos não há salvação. Ao contrário, a espiritualidade enxerga em todas as religiões o sagrado, sem as alegorias, o que importa é a qualidade da mensagem compartilhada e não nas diferenças doutrinárias.

Existem inúmeras formas de obter a espiritualidade. E todos os caminhos são válidos, Alguns deles podem ser inspirados pela comunhão e pela graça (dádiva). Afinal, não custa nada cuidar de si e do outro. Não se cobra um dom que é gratuito.

Doze Passos

Programas que pregam os 12 passos para recuperação de adictos têm por base a espiritualidade. São sugestões de conduta para libertação de problemas emocionais, dependências, compulsões, solidão e uma série de comportamentos indesejáveis que adquirimos como consequência da separação dessa conexão espiritual.

Tratamento

Padre Haroldo Rahm, com longa trajetória e envolvimento em grandes projetos nas áreas de prevenção e tratamento do uso de drogas, reforça a importância da espiritualidade na vida do dependente, contudo, em entrevista para o site da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), alerta que como regra geral, nenhum dependente tem uma séria convicção religiosa. Por isso, quem dirige obras de recuperação deve usar um tratamento multidisciplinado. Quer dizer: profissionais, dependentes recuperados e bons voluntários. Não somente a doutrinação cega e dogmática.

“Quem só ensina religião perde muitos pacientes porque quando estes enfrentam alguma dificuldade, acabam deixando de lado a religião e tendo uma recaída, Em muitos casos, esta recaída é para sempre”, ressalta.

No Estado (que tem o nome perfeito para este texto) do Espírito Santo, outro padre, Gilberto Roberto Silva, que é presidente da Associação de Apoio Terapêutico Reviver (AATR), também incentiva a espiritualidade, no sentido amplo da palavra, no tratamento e treinamento da equipe multidisciplinar que atua nas casas de recuperação de dependentes, cuidado com o idoso e deficiente.

Psicanálise

Num trecho do artigo “C. G. Jung e o mundo espiritual”, o teólogo Leonardo Boff diz que quando coordenou, junto à Editora Vozes, a tradução da obra completa do psicanalista C.G. Jung (18 tomos), este se tornou um dos seus principais interlocutores intelectuais. Poucos estudiosos da alma humana deram mais importância à espiritualidade do Jung.

“Via na espiritualidade uma exigência fundamental e arquetípica da psique na escalada rumo à plena individuação. A imago Dei ou o arquétipo Deus ocupa o centro do Self: aquela Energia poderosa que atrai a si todos os arquétipos e os ordena ao seu redor como o sol o faz com os planetas. Sem a integração deste arquétipo axial, o ser humano fica manco e míope e com uma incompletude abissal”.

Sublime

Contudo, uma coisa é verificável. Quer a espiritualidade seja uma forma de sublimação resultante na fé, ciência ou nas artes, há um sentido infinitamente mais amplo do que qualquer doutrina. Disso não tenho dúvida.

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Roney Moraes
Psicanalista; Especialista em Saúde Mental e Dependência Química; Mestre em Filosofia da Religião; Doutor em Psicologia (Dr.h.c); Doutorando em Psicanálise (Phd); Analista Didata da Escola Freudiana de Vitória (Acap); Ex-presidente e membro da Associação Psicanalítica do Estado do Espírito Santo (Apees); Coordenador do Centro Reviver de Estudos e Pesquisas sobre Álcool e outras Drogas (Crepad); Membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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