Acho que o mundo das fadas tem o molde das princesas. Belas, muito belas, esguias, delicadas, indefesas e trêmulas, elas parecem sempre à mercê de um mundo que as inveja. Sempre em perigo, necessitam urgentemente de um príncipe que as salve.

Há poucos meses, um conhecido abordou-me e vaticinou: “Desejo que você conheça um homem bom e protetor e que ele cuide de você!” Respondi, de ímpeto: “Cuidar de mim? Eu sou adulta, capaz, formada, tenho um nível razoável de conhecimento e cultura e sempre me cuidei sozinha.” Ele olhou-me como quem visse um fantasma: “Não. A vida não faz sentido a uma mulher se ela não for cuidada”.

Isso prova que muitos ainda querem que vivamos no país do faz de conta, tentando a custo caber no “molde-princesa” importado da terra das fadas. Desse pensamento, dessa redoma alienante e estéril, talvez somente as mães (e não um encantado príncipe) possam salvar a futura geração.

Seguem, então, algumas considerações à minha filha:

Filha, você não tem a obrigação de ser bonita ou de parecer a cada dia mais bonita. Você tem o direito de andar com o cabelo despenteado ou de fazer pouco da maquiagem, quando assim lhe convier. Você tem o direito de olhar-se no espelho e não buscar referenciais para comparar a sua beleza (Espelho espelho meu…) e pouco importa se existe ou não existe alguém mais linda que você. Afinal, você é uma obra de arte ímpar e inacabada cuja essência se tornará ainda mais nítida e exuberante com o tempo.

Você não tem a obrigação de ser comportada o tempo todo, sentar-se de pernas cruzadas e de respirar devagar para não projetar o abdome, mostrando avantajada a silhueta. Não precisa ser a quietinha a quem as outras mães apontam como modelo de comportamento. Você tem o direito de gritar de vez em quando. De falar vez ou outra uma palavra mais pesada e de fazer-se impor, da forma que lhe for possível, em qualquer situação em que você se sentir abusada ou moralmente afrontada.

Você não tem a obrigação de esperar que alguém a defenda, de olhar para baixo diante das adversidades enquanto diz: “Oh, céus! Onde andará o príncipe guerreiro que virá socorrer-me?”. Você precisa arregaçar as mangas e ir à luta, lembrando-se que é mulher e que isso lhe falcultará uma dose redobrada de determinação e fortaleza mental. Cabe a você encontrar essa fortaleza.. Possivelmente será o seu único verdadeiro refúgio na vida.

Você não tem a obrigação de fingir-se santa e boa e dadivosa quando você não o for. Não tem a obrigação de fingir que ama para justificar o sexo. Não… Você pode fazer sexo sem amor e amar assexuadamente. Na vida, para o amor não existem regras (para o sexo, só uma: o respeito mútuo). Não aceite nenhuma outra regra. Você não tem essa obrigação.

E saiba, filha, que os homens um dia agradecerão a sua geração. Tão difícil quanto ser a princesa frágil é ser o príncipe protetor e heroico num mundo tão caótico em que mal conseguem “salvar” a si próprios. E, para encerrar, nunca subestime a importância de um abraço, da palavra amiga, do ombro acolhedor do homem que um dia verdadeiramente a amar. Ele não será um príncipe, mas isso não significa que ele não possa fazê-la sentir, por instantes, um quê da magia de outro mundo. Talvez – e por que não? – o mundo mesmo das fadas.

(Autora: Nara Rúbia Ribeiro, advogada, poeta, escritora)
(Fonte: revistapazes)
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